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Mercado

Gás de xisto valoriza o desconhecido guar

25/11/2013 | 10h27

 

Um pozinho escuro oriundo de uma planta leguminosa similar a uma vagem está causando reviravoltas no setor de óleo e gás internacional. Mais precisamente na indústria de extração do gás de xisto, a maior aposta dos Estados Unidos e outros países na tentativa de obtenção de uma fonte alternativa de energia e redução da dependência mundial pelo petróleo.
Conhecida como guar, a semente da planta torna-se um excelente espessante quando triturada e misturada à água, o que ajuda a manter as fraturas das rochas abertas para que o gás e o óleo vazem com mais facilidade. Só um problema atormenta o setor. A produção em massa de guar ainda está concentrada em um único país: a Índia.
Adaptada a regiões quentes e secas, a Cyamopsis tetragonaloba cresce em algumas regiões da Índia quase como mato e significa "comida para gado" em hindi. O país produz 95% da oferta global. O vizinho Paquistão mantém mais alguns hectares de lavoura, mas com pouca expressividade no comércio internacional.
Além de alimento para os animais, o guar é utilizado em um amplo portfólio de produtos - de xampu e creme dental a iogurtes, achocolatados, sorvetes, pasta de amendoim e até papel. É o que a indústria chama de planta desconhecida, invisível, mas onipresente.
Foi uma surpresa, portanto, quando o setor de óleo e gás associou a propriedade de espessamento da planta à injeção de milhões de litros de água e produtos químicos em alta pressão para a perfuração e o fraturamento das rochas de xisto.
O guar engrossa esse fluído, deixando em suspensão grãos de areia e pequenas esferas de cerâmica, o que permite manter as fissuras da rocha abertas para a liberação do gás e do óleo.
Para muitos analistas, a descoberta foi um divisor de águas na exploração de gases não convencionais. Nada, até agora, conseguiu ser menos agressivo ambientalmente que a planta indiana.
"Muitas indústrias continuam as pesquisas com alternativas sintéticas ao guar. A diferença é que estamos falando de algo renovável", afirmou ao Valor Emmanuel Butstraen, presidente da Solvay Novecare, companhia belga que pretende se tornar líder mundial na entrega do produto ao setor de óleo e gás.
Ao dizer isso, Butstraen tenta não só se diferenciar da concorrência como minimizar as críticas ao evocar um mantra conservacionista - "renovável" é um aspecto importante na queda-de-braço com ambientalistas, para quem a exploração das formações de xisto elevará a emissão de gases nocivos ao ambiente e o risco de mais abalos sísmicos ou contaminações dos lençóis freáticos.
A nova demanda gerada pelo setor de energia desencadeou ajustes de preço e entrega ao longo de 2012. A demanda por guar atingiu o patamar de 2 milhões de toneladas, enquanto a oferta permaneceu em 1,2 milhão de toneladas. O quilo da matéria-prima, negociado a US$ 1,56 em março de 2011, subiu a US$ 14,00 no mesmo mês do ano seguinte.
O impacto no bolso das companhias de energia foi imediato. Em entrevista a investidores após a apresentação do resultado financeiro do terceiro trimestre de 2012, a Halliburton informou que os custos mais altos do guar - resultantes da rápida expansão da extração de xisto na América do Norte - provocaram a queda de 12% de seu lucro líquido em relação ao mesmo período do ano anterior, a US$ 602 milhões. A companhia é a maior fornecedora mundial de serviços para fraturamento hidráulico.
Meses antes, em abril, o CEO David Lesar já chamava a atenção para a volatilidade dos preços devido à pouca oferta do produto, dizendo se tratar "da guinada mais rápida de uma commodity que eu já vi". À época, analistas lembraram o papel que a própria Halliburton teve nessa alta, através de um plano agressivo de construção de estoques para abastecê-la por quatro meses.
As oscilações de preço e a oferta incerta levaram a companhia a buscar outras opções para o fraturamento hidráulico. Dois produtos sintéticos se destacaram, mas com limitações de operação a certas condições. Questionada pelo Valor, a companhia, sediada em Houston, informou por e-mail que não divulga informações de consumo e de mercado por "razões competitivas".
Cerca de 80% da produção da leguminosa vem do Estado de Rajastão, no noroeste da Índia. Em 2012, saíram de lá dois milhões de toneladas de guar. A demanda incentivou os agricultores indianos a semear mais. A expectativa é de uma safra maior em 2014, impulsionada pelas chuvas de monções no país.
Segundo Rajesh Kedia, diretor da Jai Bharat Gum & Chemicals, exportadora de guar da Índia, os preços voltaram a patamares mais baixos agora por conta de um aumento na produção na Índia e a redução na demanda, que buscou opções diante de um cenário de incerteza de oferta e preços. "O quilo do guar é vendido a US$ 6,50 no mercado indiano", afirmou ele à reportagem.
A eficiência do guar na exploração em águas profundas provocou também uma corrida por terras para o plantio. Grandes players da geopolítica energética entraram em ação - Estados Unidos, China, Austrália e alguns países da África, conforme especulações citadas pela imprensa internacional.
Na contramão desse movimento, o Brasil - que terá seu primeiro leilão de gás não convencional ainda neste mês - não tem planos para a produção de guar em escala comercial. Houve experiências da década de 1990 realizadas no Instituto Agronômico de Campinas, que foram interrompidas em razão do desinteresse público e privado.
Com reservas consideráveis de gás e toda a indústria pesada de energia a postos para extraí-lo, os EUA querem avançar nesse terreno. Um dos maiores defensores do guar nos EUA, Calvin Trostle, professor e especialista em guar do Texas A&M Agrilife Extension Service, diz que a planta trabalha bem no segmento de óleo e gás.
Sanjit Das/Bloomberg / Sanjit Das/BloombergQuando triturada, a semente da planta se transforma em excelente espessante
"Há um bocado de gente inteligente nas universidades e na indústria trabalhando há anos para alcançar algo que funcione tão bem ou mais barato que o guar". Exemplo disso são as pesquisas com a goma de celulose (carboximetilcelulose), oriunda da fibra de algodão. A questão, diz o especialista, é que seu desempenho como espessante é inferior. E a indústria toparia investir em algo que não responde bem? "Por isso ela ainda atura a Índia".
Incentivados por Trostle, os agricultores americanos tentam ampliar a oferta. O guar também é atraente porque exige menos mão de obra e ajuda a adubar o solo, servido como um alternativa para rotação de culturas no campo. Atualmente, o plantio é limitado ao Texas e a Oklahoma, com condições climáticas e de solo que se aproximam às da Índia. Tratativas incipientes pretendem estender a cultura a partes da Califórnia.
Mas crescer rápido não tem se mostrado tão fácil nos EUA, apesar da sinalização da indústria de óleo e gás. E não por condições propriamente agrícolas: o país ainda não criou um seguro específico para o guar - indispensável para contratação de empréstimo para custeio ou investimento.
Com só 10 mil hectares plantados nos EUA e 2% da produção global, a leguminosa não entrou no radar dos bancos. "Seria preciso uma expansão de 40 a 50 hectares ao ano para chamar a atenção da indústria de seguro", diz Trostle.
Outro desdobramento disso é a falta novas variedades de guar nos EUA. A Rhodia, que abastecia sua fábrica de processamento de guar em Vernon, no Texas, deixou de comprar a matéria-prima no Estado por entender que a planta é seca frente à indiana.
Apesar dos desafios, a boa notícia é que se trata de uma cultura anual. É possível arriscar sem esperar anos para ver o resultado.
Com a chegada de outros países ao mercado de xisto, acredita-se que a chave para virar esse quadro de concentração na produção é a própria dependência da indústria do mercado indiano. Uma quebra na produção lá pode catapultar os preços do guar novamente às alturas.

Um pozinho escuro oriundo de uma planta leguminosa similar a uma vagem está causando reviravoltas no setor de óleo e gás internacional. Mais precisamente na indústria de extração do gás de xisto, a maior aposta dos Estados Unidos e outros países na tentativa de obtenção de uma fonte alternativa de energia e redução da dependência mundial pelo petróleo.

Conhecida como guar, a semente da planta torna-se um excelente espessante quando triturada e misturada à água, o que ajuda a manter as fraturas das rochas abertas para que o gás e o óleo vazem com mais facilidade. Só um problema atormenta o setor. A produção em massa de guar ainda está concentrada em um único país: a Índia.

Adaptada a regiões quentes e secas, a Cyamopsis tetragonaloba cresce em algumas regiões da Índia quase como mato e significa "comida para gado" em hindi. O país produz 95% da oferta global. O vizinho Paquistão mantém mais alguns hectares de lavoura, mas com pouca expressividade no comércio internacional.

Além de alimento para os animais, o guar é utilizado em um amplo portfólio de produtos - de xampu e creme dental a iogurtes, achocolatados, sorvetes, pasta de amendoim e até papel. É o que a indústria chama de planta desconhecida, invisível, mas onipresente.

Foi uma surpresa, portanto, quando o setor de óleo e gás associou a propriedade de espessamento da planta à injeção de milhões de litros de água e produtos químicos em alta pressão para a perfuração e o fraturamento das rochas de xisto.

O guar engrossa esse fluído, deixando em suspensão grãos de areia e pequenas esferas de cerâmica, o que permite manter as fissuras da rocha abertas para a liberação do gás e do óleo.

Para muitos analistas, a descoberta foi um divisor de águas na exploração de gases não convencionais. Nada, até agora, conseguiu ser menos agressivo ambientalmente que a planta indiana.

"Muitas indústrias continuam as pesquisas com alternativas sintéticas ao guar. A diferença é que estamos falando de algo renovável", afirmou ao Valor Emmanuel Butstraen, presidente da Solvay Novecare, companhia belga que pretende se tornar líder mundial na entrega do produto ao setor de óleo e gás.

Ao dizer isso, Butstraen tenta não só se diferenciar da concorrência como minimizar as críticas ao evocar um mantra conservacionista - "renovável" é um aspecto importante na queda-de-braço com ambientalistas, para quem a exploração das formações de xisto elevará a emissão de gases nocivos ao ambiente e o risco de mais abalos sísmicos ou contaminações dos lençóis freáticos.

A nova demanda gerada pelo setor de energia desencadeou ajustes de preço e entrega ao longo de 2012. A demanda por guar atingiu o patamar de 2 milhões de toneladas, enquanto a oferta permaneceu em 1,2 milhão de toneladas. O quilo da matéria-prima, negociado a US$ 1,56 em março de 2011, subiu a US$ 14,00 no mesmo mês do ano seguinte.

O impacto no bolso das companhias de energia foi imediato. Em entrevista a investidores após a apresentação do resultado financeiro do terceiro trimestre de 2012, a Halliburton informou que os custos mais altos do guar - resultantes da rápida expansão da extração de xisto na América do Norte - provocaram a queda de 12% de seu lucro líquido em relação ao mesmo período do ano anterior, a US$ 602 milhões. A companhia é a maior fornecedora mundial de serviços para fraturamento hidráulico.

Meses antes, em abril, o CEO David Lesar já chamava a atenção para a volatilidade dos preços devido à pouca oferta do produto, dizendo se tratar "da guinada mais rápida de uma commodity que eu já vi". À época, analistas lembraram o papel que a própria Halliburton teve nessa alta, através de um plano agressivo de construção de estoques para abastecê-la por quatro meses.

As oscilações de preço e a oferta incerta levaram a companhia a buscar outras opções para o fraturamento hidráulico. Dois produtos sintéticos se destacaram, mas com limitações de operação a certas condições. Questionada pelo Valor, a companhia, sediada em Houston, informou por e-mail que não divulga informações de consumo e de mercado por "razões competitivas".

Cerca de 80% da produção da leguminosa vem do Estado de Rajastão, no noroeste da Índia. Em 2012, saíram de lá dois milhões de toneladas de guar. A demanda incentivou os agricultores indianos a semear mais. A expectativa é de uma safra maior em 2014, impulsionada pelas chuvas de monções no país.

Segundo Rajesh Kedia, diretor da Jai Bharat Gum & Chemicals, exportadora de guar da Índia, os preços voltaram a patamares mais baixos agora por conta de um aumento na produção na Índia e a redução na demanda, que buscou opções diante de um cenário de incerteza de oferta e preços. "O quilo do guar é vendido a US$ 6,50 no mercado indiano", afirmou ele à reportagem.

A eficiência do guar na exploração em águas profundas provocou também uma corrida por terras para o plantio. Grandes players da geopolítica energética entraram em ação - Estados Unidos, China, Austrália e alguns países da África, conforme especulações citadas pela imprensa internacional.

Na contramão desse movimento, o Brasil - que terá seu primeiro leilão de gás não convencional ainda neste mês - não tem planos para a produção de guar em escala comercial. Houve experiências da década de 1990 realizadas no Instituto Agronômico de Campinas, que foram interrompidas em razão do desinteresse público e privado.

Com reservas consideráveis de gás e toda a indústria pesada de energia a postos para extraí-lo, os EUA querem avançar nesse terreno. Um dos maiores defensores do guar nos EUA, Calvin Trostle, professor e especialista em guar do Texas A&M Agrilife Extension Service, diz que a planta trabalha bem no segmento de óleo e gás.

Sanjit Das/Bloomberg / Sanjit Das/BloombergQuando triturada, a semente da planta se transforma em excelente espessante"Há um bocado de gente inteligente nas universidades e na indústria trabalhando há anos para alcançar algo que funcione tão bem ou mais barato que o guar". Exemplo disso são as pesquisas com a goma de celulose (carboximetilcelulose), oriunda da fibra de algodão. A questão, diz o especialista, é que seu desempenho como espessante é inferior. E a indústria toparia investir em algo que não responde bem? "Por isso ela ainda atura a Índia".

Incentivados por Trostle, os agricultores americanos tentam ampliar a oferta. O guar também é atraente porque exige menos mão de obra e ajuda a adubar o solo, servido como um alternativa para rotação de culturas no campo. Atualmente, o plantio é limitado ao Texas e a Oklahoma, com condições climáticas e de solo que se aproximam às da Índia. Tratativas incipientes pretendem estender a cultura a partes da Califórnia.

Mas crescer rápido não tem se mostrado tão fácil nos EUA, apesar da sinalização da indústria de óleo e gás. E não por condições propriamente agrícolas: o país ainda não criou um seguro específico para o guar - indispensável para contratação de empréstimo para custeio ou investimento.

Com só 10 mil hectares plantados nos EUA e 2% da produção global, a leguminosa não entrou no radar dos bancos. "Seria preciso uma expansão de 40 a 50 hectares ao ano para chamar a atenção da indústria de seguro", diz Trostle.

Outro desdobramento disso é a falta novas variedades de guar nos EUA. A Rhodia, que abastecia sua fábrica de processamento de guar em Vernon, no Texas, deixou de comprar a matéria-prima no Estado por entender que a planta é seca frente à indiana.

Apesar dos desafios, a boa notícia é que se trata de uma cultura anual. É possível arriscar sem esperar anos para ver o resultado.

Com a chegada de outros países ao mercado de xisto, acredita-se que a chave para virar esse quadro de concentração na produção é a própria dependência da indústria do mercado indiano. Uma quebra na produção lá pode catapultar os preços do guar novamente às alturas.

 



Fonte: Valor Econômico
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