Economia
Ele entrou em zona perigosa ao atingir 3,6% do PIB.
Valor Econômico
O déficit em conta corrente do Brasil entrou em zona perigosa ao atingir 3,6% do Produto Interno Bruto nos 12 meses encerrados em setembro, mas sua composição atual é mais benigna do que no início da década passada, refletindo mudanças estruturais na economia brasileira. A trajetória do déficit vai mudar. Há a percepção de que o déficit atingiu seu pico e vai desacelerar, podendo cair para cerca de 2,5% do PIB já no fim do ano, em um ajuste impulsionado pela desvalorização do real.
Houve uma mudança importante no perfil do déficit. Em 2000, cerca de 82% resultavam do pagamento líquido de juros a credores externos - empréstimos tomados com organismos multilaterais e organizações privadas. O restante correspondia à remessa líquida de lucros e dividendos emitidos ao exterior por empresas sediadas no Brasil.
Agora, 66% do déficit correspondem a lucros e dividendos remetidos por empresas que, em sua maioria, desembarcaram no Brasil de olho no mercado interno. Outros 35% correspondem a juros pagos por empresas que emitiram bônus externos.
Em termos de indicadores de solvência externa, o país também é outro desde a última crise cambial, em 2002. De devedor, passou a credor líquido e conta com US$ 376 bilhões em reservas. Outro indicador de exposição cambial importante, a dívida pública interna atrelada ao câmbio, que rondava os 30% do total, hoje é apenas residual.
Para economistas, o fato do perfil do déficit ser mais benigno o torna mais administrável, à medida que alguns itens, como gastos com viagens internacionais, poderiam ser reduzidos por barreiras, como aumento de impostos sobre essas operações.
Grande parte da deterioração recente do déficit em transações correntes veio do saldo comercial. Em 12 meses até agosto, do déficit de 3,6% do PIB em transações correntes, nada menos que 1,1% do PIB veio da conta de petróleo e derivados - com importações que ocorreram em 2012, mas foram computadas neste ano, e paralisação de plataformas que acabaram também por pressionar as importações do óleo.
A expectativa, no entanto, é de reversão da tendência, diz Gabriela Fernandes, economista do Itaú. Para ela, ainda que a "conta petróleo" continue contribuindo negativamente nos próximos anos, a depreciação cambial tende a reduzir as importações, estimular as exportações, além de desincentivar a remessa de lucros e dividendos. "Em termos de sustentabilidade externa há uma piora na margem, mas o nível ainda não é preocupante", diz.
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