Inteligência Artificial
Redação TN Petróleo/Assessoria Firjan
Imagine um ringue de boxe. De um lado, a tradicional petroquímica, com o peso de toda uma gama de plásticos e produtos sintéticos que não é mais possível vivermos sem eles. Do lado oposto, a indústria de data centers, com toda sua capacidade de processamento rápido e respostas por meio de plataformas como ChatGPT, Gemini e inúmeras outras. Para responder à pergunta de quem sairá vencedor nessa disputa, primeiro é preciso esclarecer pelo que essas indústrias estariam lutando.
Antes de começar a luta, cabe antecipar que um dos elementos para conquistar o cinturão é puramente químico. Apesar de não fazer parte dos minerais críticos ou da família das terras raras, tal elemento também é impactado pela geopolítica mundial, já que seu preço vive uma escalada histórica nos últimos 12 meses, com crescimento superior a 190%. Tampouco esse mesmo elemento é parte direta dos plásticos ou dos componentes dos data centers, mas sim do processo industrial para a fabricação de ambos.
A mensagem do patrocinador é breve, somente para deixar de referência dois marcos recentes da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) – fatos, a princípio, não relacionados – se destacam e conversam diretamente com o tema do artigo: o lançamento da 4a edição da publicação Petroquímica e Fertilizantes no Rio de Janeiro e a inauguração do Centro de Referência em Tecnologia da Informação e Comunicação da Firjan SENAI - o Digitech. Ambos os eventos aconteceram em dezembro de 2025 e estão disponíveis para mais informações e visita, de forma digital e presencial, respectivamente.
Não à toa essa publicação da Firjan SENAI SESI também trata do tema fertilizantes conjuntamente, uma vez que esse mesmo elemento também é essencial para o processo de fabricação dos fertilizantes, em particular, os fosfatados. Mas voltemos à disputa.
Trata-se do enxofre, ou mais especificamente do ácido sulfúrico. Sem ele como reagente, a matéria-prima que contém o fósforo não é convertida em produto intermediário dos fosfatos, fertilizantes amplamente utilizados no agro. Sem ele também como reagente, na rota clássica do produto que dá origem ao nylon, o resultado do processo não seria o mesmo. E sem o ácido sulfúrico sendo consumido no processo de extração do cobre, não teríamos, por exemplo, cabos elétricos e até baterias em sistemas ininterruptíveis, essenciais para os data centers.
Para resolver o primeiro round, em números, a partir de dados de um relatório técnico da mineradora independente McEwen Copper, um novo datacenter de grande porte – 100 MW – pode demandar entre 100 e 300 toneladas de ácido sulfúrico em sua cadeia de produção na fase de investimento, notadamente para a parte elétrica. Enquanto para uma planta típica de nylon, usando dados de patentes, esse valor pode atingir centenas de milhares de toneladas por ano. Podemos dizer que a petroquímica sai vencedora do primeiro round.
No intervalo da partida, existe ainda espaço para aumentar a audiência. Para isso, as atenções devem se voltar ao alerta que o REIQ – Regime Especial da Indústria Química, como política pública industrial, hoje não contempla incentivo fiscal para o enxofre.
Por mais que não seja um produto insubstituível, qualquer alternativa precisa competir com economia de escala, infraestrutura instalada e logística global estabelecida. Destaca-se aqui a adoção crescente de catalisadores sólidos em substituição nos processos petroquímicos, mesmo com os investimentos necessários para modernização de plantas existentes.
De volta a disputa por rounds, existe mais alguma motivação para competição entre a petroquímica e os data centers? Para citar algumas, aqui estão as evidentes disputas por capital de investimento e demanda por energia. Nessas, a faixa de campeão vai para os datacenters.
No entanto, há reais oportunidades para cooperação entre as indústrias. Um exemplo claro é a utilização de IA para digitalização da petroquímica, com benefícios claros na produtividade da planta. E para não deixar de comentar o óbvio, datacenters também utilizam plásticos em vários componentes, partes e peças – isolantes e estruturais. Assim, a sinergia é clara.
Em um cenário de disputa direta pelo mesmo recurso, podemos colocar os data centers como favoritos. São eles, afinal, que têm atraído maior número de projetos e sido mais demandados. O caminho, no entanto, deve ser de colaboração entre as indústrias. Quando juntamos as demandas, alcançamos escala suficiente para novos investimentos e políticas públicas dedicadas que alcem o desenvolvimento das indústrias química, petroquímica e de data centers.
Por fim, a melhor analogia com o esporte deveria ser uma corrida de revezamento em equipe, onde a petroquímica corre junto para passar o bastão para os datacenters e receber de volta turbinado, porque de fato a sociedade precisará por muito tempo de plásticos e continuará dependente do meio digital para avançar.
Sobre o autor: Thiago Valejo Rodrigues é Gerente de Projetos de Petróleo, Gás, Energias e Naval da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro - Firjan.
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