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O desafio de formar e atrair talentos para a indústria de energia

Redação TN Petróleo/Assessoria FEPE
24/02/2026 16:55
O desafio de formar e atrair talentos para a indústria de energia Imagem: Divulgação Visualizações: 1362

Para uma indústria em transformação, que demanda cada vez mais talentos e faz uso intensivo de tecnologia, o capital humano é, sem dúvida, um dos grandes desafios, associado a prioridades como inovação contínua e empreendedorismo. Todas essas questões estão na pauta do FEPE – Fórum de Educação, Pesquisa e Empreendedorismo, que será realizado de 10 a 13 de março de 2026, no CENPES/Petrobras.

Como formar os profissionais do futuro e impulsionar novas tecnologias? Como despertar o interesse de crianças e jovens por carreiras STEM? Para responder a essas perguntas, o fórum reunirá lideranças, especialistas e tomadores de decisão do setor de energia, propondo‑se como um espaço estratégico para debater o futuro da educação, da inovação e do empreendedorismo no Brasil.

“Ao alinhar visão estratégica, financiamento e articulação institucional, o FEPE pode atuar como um catalisador sistêmico dessa transformação”, pontua Olivier Wambersie, General Manager de R&D and Innovation da Shell, que faz parte da comissão organizadora do FEPE2026.

Nessa entrevista, que abre uma série sobre o FEPE2026, do qual a TN Petróleo é a mídia institucional, o executivo aponta os desafios de formar e atrair novos talentos para a nossa indústria.

Veja a programação do FEPE - https://fepebrasil.com.br/

Por que tantos jovens ainda se afastam das carreiras STEM?

Olivier Wambersie – Apesar da crescente importância das áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM) para o desenvolvimento econômico e social, muitos jovens continuam a afastar‑se dessas carreiras. Esse fenômeno não decorre da falta de interesse ou talento, mas da forma como o percurso formativo é apresentado e percebido: frequentemente como inacessível, impessoal e desconectado do mundo real.

As áreas STEM ainda são comunicadas como difíceis e exclusivas, reservadas a poucos ‘talentos naturais’, como, por exemplo, os Geeks. O processo de ensino valoriza pouco o erro como parte da aprendizagem, adotando uma lógica binária de certo ou errado. Isso gera medo de falhar e uma sensação de não pertencimento, levando muitos jovens a se autoexcluir antes mesmo de tentar.

Além disso, há uma fraca conexão com identidade, propósito e dimensão humana. As carreiras STEM seguem associadas a estereótipos de isolamento e rigidez, enquanto seu impacto social, ambiental e humano é pouco visível ou comunicado de forma predominantemente negativa, associado a acidentes industriais, poluição ou degradação ambiental. Esse enquadramento afasta uma geração motivada por relações humanas, pensamento crítico e transformação social.

Por fim, barreiras práticas e insegurança quanto ao futuro — incluindo um ensino excessivamente teórico, exigente e pouco contextualizado — fazem STEM parecer uma escolha arriscada, quando, na realidade, se trata de uma das áreas mais resilientes e estratégicas para o futuro.

De que forma esse gap de capital humano na área STEM impacta o setor de energia?

A escassez de profissionais qualificados em STEM constitui um desafio estrutural e estratégico para o setor de energia, uma indústria que investe a longo prazo e precisa de inovação constante. Pense nos avanços notáveis em tecnologias de águas profundas no Brasil. Este setor atravessa uma transformação profunda — marcada pela transição energética, digitalização, robotização e adoção de inteligência artificial — que exige competências cada vez mais avançadas em engenharia, ciência de dados, automação, novos materiais e tecnologias de baixo carbono.

Quando esse capital humano não está disponível, em quantidade e qualidade, o impacto é visível no curto e no longo prazo. O ritmo de inovação desacelera, projetos tornam‑se mais longos e custosos, e aumenta a dependência de poucos especialistas críticos. Além disso, a transição energética — que é um desafio para décadas e para as gerações futuras — sofre atrasos e, em alguns casos, retrocessos, afetando áreas como energias renováveis, captura e armazenamento de carbono, hidrogênio, eficiência operacional e segurança digital.

Para mitigar esses efeitos, novas abordagens vêm sendo adotadas, especialmente na área de P&D e inovação. O modelo de inovação aberta permite mobilizar conhecimento externo por meio de parcerias com universidades, centros de pesquisa e startups. Paralelamente, a adoção de inteligência artificial contribui para ampliar a produtividade dos recursos STEM disponíveis, acelerando testes, simulações e o desenvolvimento de tecnologias emergentes.

Como estimular jovens a seguir STEM e, ao mesmo tempo, inovar?

Superar esse desafio requer transformar tanto a experiência de aprendizagem quanto a narrativa associada a essas carreiras. É essencial tornar o processo formativo mais envolvente, prático e conectado ao papel fundamental que ciência e tecnologia desempenham no desenvolvimento da sociedade.

O primeiro passo é conectar STEM a propósito e impacto social concreto. Jovens precisam compreender como essas áreas contribuem diretamente para desafios contemporâneos, como mudanças climáticas, acesso à energia, sustentabilidade urbana e justiça social. Quando o impacto é visível e tangível, o engajamento tende a aumentar.

Em paralelo, ambientes educacionais e corporativos devem valorizar a experimentação, projetos práticos e a aprendizagem por tentativa e erro, reduzindo o medo de falhar que hoje afasta muitos talentos.

Por fim, é fundamental construir ecossistemas de apoio — com mentoria, projetos interdisciplinares e parcerias entre escolas, universidades, empresas, startups e comunidades — desde o ensino secundário até o ensino superior. Dessa forma, STEM deixa de ser apenas uma formação técnica e passa a ser um caminho de criação, impacto e liderança.

Como o FEPE pode estimular a adesão às carreiras STEM sem atuar diretamente com estudantes?

Mesmo sem dialogar diretamente com estudantes, o FEPE pode desempenhar um papel central como referência estratégica e orquestrador do ecossistema STEM. No curto prazo, é fundamental atualizar a imagem das carreiras STEM por meio de fóruns, publicações e uso consistente de redes profissionais e institucionais, responsabilidade compartilhada por todos os participantes do FEPE. De forma mais estrutural, a transformação mais profunda ocorre ao influenciar os agentes que moldam o percurso dos jovens: educadores, formuladores de políticas públicas, universidades, empresas e organizações da sociedade civil.

O FEPE pode promover narrativas mais atraentes e realistas sobre STEM, apoiando pesquisas, debates e iniciativas que conectem ciência e tecnologia a desafios relevantes para os jovens, como impacto social, transição energética e desenvolvimento sustentável. Além disso, pode fomentar parcerias entre setor privado, academia e terceiro setor, viabilizando programas‑piloto, bolsas, desafios de inovação e ambientes de experimentação.

Ao alinhar visão estratégica, financiamento e articulação institucional, o FEPE pode atuar como um catalisador sistêmico dessa transformação.

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