Relatório

Petrobras: entre o equilíbrio financeiro e a pressão política

Valor Econômico
08/01/2009 02:35
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O ano de 2009 será desafiador para o setor de energia, que fechou 2008 consolidando o fim de um dos mais espetaculares ciclos de crescimento de consumo, produção e margens de lucro da historia. Passada a euforia dos preços do petróleo, as empresas precisam administrar produção e investimentos em um contexto de baixa liquidez de crédito e risco em alta. Em um relatório com cenários para 2009 do banco Credit Suisse, intitulado "Religar", os analistas prevêem que uma reversão da situação só será possível com a chegada de um novo ciclo capaz de "religar" a indústria. E isso deverá ser provocado pela demanda de países em desenvolvimento, como China, India e Brasil, mesmo sem a reação de um dos maiores consumidores, os Estados Unidos, onde o consumo de combustíveis apresentou queda drástica em 2008. 

 

Inserida nesse contexto global, a Petrobras enfrenta um duplo dilema. Ela precisa obter recursos em um cenário escasso e aparentemente sem conseguir adiar investimentos bilionários planejados quando o horizonte era de preços em alta e acesso a recursos quase ilimitados para uma empresa do seu porte. 


 

A direção da companhia tem se esforçado para não demonstrar o tamanho do dilema político que está enfrentando. Ela deverá fazer, este mês, o anúncio de um plano de investimentos para os próximos cinco anos. Esse plano deve ser capaz de mostrar ao mercado que ela tem disciplina de capital sem, ao mesmo tempo, tirar da pauta os investimentos de olho nas eleições presidenciais, justo quando o presidente Luís Inácio Lula da Silva planeja movimentar a economia com dinheiro público para minimizar os efeitos da crise. Será uma tarefa hercúlea. As obras da Petrobras são responsáveis por cerca de 35% dos investimentos previstos no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), capitaneado pela ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, candidata predileta do presidente Lula para sua sucessão. No PAC estão incluídos 183 projetos da companhia, cujo investimento total soma R$ 171,7 bilhões, incluindo capital da estatal e parceiros. Entre os projetos dela no PAC está o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e a Refinaria do Nordeste, ou Abreu de Lima, em Pernambuco, onde é sócia da venezuelana PDVSA. 

 


Os investimentos em ampliação do parque de refino são os mais problemáticos atualmente, em termos globais. O relatório do Credit Suisse vê em 2009 o início de uma "Idade das trevas" para as refinarias independentes (que não produzem petróleo e precisam comprar o produto no mercado), principalmente as dos Estados Unidos, que têm grandes possibilidades de fechar em 2009 e entrarem em falência. Essas empresas enfrentam problemas como a queda do consumo de derivados após investirem para aumentar sua capacidade de refino. Em 2008 o consumo de gasolina nos Estados Unidos caiu entre 5% e 8% dependendo da região, e isso afeta as refinarias do país, já que 48% da produção de uma refinaria típica do país é gasolina. As unidades da Europa também serão atingidas 


 

A Petrobras não é uma "independente" mas uma empresa integrada que produz petróleo e gás, transporta, processa, refina e vende combustíveis no varejo. Para as integradas, o maior desafio em 2009 será reduzir custos para fazer frente à queda de receitas trazida pela retração nos preços do petróleo. Segundo o Credit Suisse, a iniciativa mais relevante será fortalecer a gestão para não deixar a empresa perder valor, o que será uma ação das mais importantes comparada com outras da última década. No caso da Petrobras, o Credit Suisse destaca que além dos altíssimos investimentos, a companhia vai enfrentar um período de crédito mais caro e escasso. 

 


Feita a ressalva de que o mercado de crédito continuará aberto para empresas qualificadas como a Petrobras, que ainda tem espaço no balanço para alavancagem (ou seja, tem pouca dívida), o banco avalia que as atuais condições de mercado deveriam levar a estatal a priorizar alguns projetos e evitar outros que exigem muito investimento. E as quatro novas refinarias - Maranhão (600 mil barris), Ceará (300 mil barris) e Pernambuco (200 mil barris), além da do Rio Grande do Norte, de menor porte - estão entre os investimentos mais indicados para serem adiados, dizem os analistas do Credit Suisse. 

 


Isso porque essas refinarias oferecem baixo retorno e são menos estratégicas comparadas a outros projetos de exploração e produção. Contudo, uma decisão dessa magnitude pode ser difícil para a direção da companhia, dado o impacto político que pode causar um anúncio desse tipo, que vai na direção contrária do que o presidente Lula vem pregando para os empresários privados em 2009. 


 

Por enquanto o único adiamento confirmado é do Plano Estratégico 2009-2013, cujo detalhamento foi remarcado pela terceira vez. A expectativa é de aumento do atual orçamento de investimentos, de US$ 112 bilhões para os cinco anos que se encerram em 2012, já que esse último não inclui o início da produção no pré-sal. 

 


Para alguns projetos nesses campos o Credit Suisse prevê investimento próximo de US$ 16 bilhões no próximo Plano Estratégico. A previsão considera o percentual de participação da empresa nos projetos, onde ela tem sócios, e custos como a construção de oito plataformas do tipo FPSO (orçadas em US$ 56 bilhões) e três sistemas piloto orçados em US$ 9 bilhões - incluído o do campo de Tupi - sendo alocados entre 2013 e 2016. Assim, só uma parte dos investimentos projetados serão computados no plano dos próximos cinco anos. 

 


No momento, extrair petróleo dos campos do pré-sal seria economicamente viável com os preços da commodity na faixa de US$ 35, mas serão necessários vários anos de investimentos antes que a área se transforme em um grande pólo produtor. 

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