Refino

Petrobras aceita jogo de Chavez de olho no Orinoco

No encontro que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá hoje, em Manaus, com o presidente venezuelano, Hugo Chavez, a refinaria de óleo pesado de Pernambuco será ponto prioritário, mais até do que o chamado Gasoduto do Sul, por enquanto um sonho de levar gás venezuelano da Amazônia à Ar

Valor Econômico
20/09/2007 00:00
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No encontro que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva terá hoje, em Manaus, com o presidente venezuelano, Hugo Chavez, a refinaria de óleo pesado de Pernambuco será ponto prioritário, mais até do que o chamado Gasoduto do Sul, por enquanto um sonho de levar gás venezuelano da Amazônia à Argentina.

O governo brasileiro e a Petrobras deverão enfatizar para os vizinhos que o fato de a estatal brasileira já ter decidido colocar em operação a refinaria Abreu Lima, no complexo industrial-portuário de Suape, no segundo trimestre de 2010, independente de parceria, não significa desistência de uma sociedade com a também estatal Petróleos de Venezuela S.A (PDVSA).

A Petrobras está disposta a construir sozinha toda a refinaria, orçada em cerca de US$ 4,05 bilhões, colocar a unidade de destilação (produção de diesel) para rodar daqui a três anos e ainda assim manter aberta a janela para a parceria com a venezuelana PDVSA cuja concretização se arrasta há vários anos, desde a idéia original do projeto. Tanta paciência com o possível parceiro não resulta de nenhum arroubo bolivariano da estatal brasileira, inspirado na política de ajuda a países vizinhos posta em prática por Chavez na busca por expandir seu projeto político. É interesse mesmo.

A Petrobras não quer correr o risco de ficar fora da exploração daquela que é hoje a maior reserva petrolífera conhecida do mundo, a chamada Faixa do Orinoco, uma área com cerca de 55.300 quilômetros quadrados (duas vezes o território de Israel) no sudeste da Venezuela. A região tem reservas estimadas em 700 bilhões de barris de óleo, o dobro das reservas conhecidas do hoje maior produtor mundial, a Arábia Saudita.

É verdade que, enquanto o óleo saudita é todo do tipo leve, referência mundial de qualidade (quanto mais leve o petróleo, mais facilmente se produz derivados nobres do seu refino), o do Orinoco é do tipo extrapesado, com 8 graus API (medida do American Petrolleum Institute, referência mundial para a densidade do produto). Na escala API, quanto maior a densidade, mais leve (e valorizado) é o petróleo. E o da Venezuela pode ser considerado quase um piche, sendo contabilizado, até pouco tempo atrás, como xisto betuminoso.

Mas a tecnologia da indústria de petróleo avança a passos gigantes na busca de soluções para o aproveitamento cada vez mais produtivo dos óleos pesados. Já é possível utilizar tecnologia para tornar mais leve o petróleo pesado através de investimentos em hidrotratamento para aumentar o grau API.

O próprio aproveitamento do óleo da Bacia de Campos (RJ), quase todo do tipo pesado (em torno de 15 graus API), é prova disso. A Petrobras está promovendo adaptações em quase todas as suas atuais 11 refinarias para processar cada vez mais o pesado óleo de Campos, invertendo seus arranjos originais, desenhados para óleos leves importados, praticamente sem perda de produtividade.

A tendência é geral, não só a Petrobras como quase todas as mais importantes empresas de petróleo do mundo, querem estar presentes ao esforço de extração de todo esse óleo, ainda que os humores da política chavista imponham uma forte dose de insegurança aos parceiros.

O caso mais notório de discordância é o da gigante ExxonMobil, que decidiu levar a Venezuela para um tribunal arbitral após o fracasso das negociações para o recebimento de uma compensação depois que o governo venezuelano ofereceu pagar apenas o valor contábil dos ativos da americana no projeto Cerro Negro, no Orinoco. Além da Exxon, companhias como a Chevron, Conoco Phillips, a francesa Total, a norueguesa Statoil e a britânica BP têm investimentos no local.

Em maio deste ano, Chavez nacionalizou as reservas da Faixa do Orinoco. Ele assinou com 10 das 13 empresas estrangeiras, que lá operavam sob regime de contrato de risco, memorandos de entendimento pelos quais a PDVSA passou a controlar 60% das ações das empresas criadas pelas multinacionais para explorar petróleo na área. Na época, a Conoco Phillips, a Eni (Itália) e Petrocanadá deixaram de assinar os documentos. Pelo menos a primeira permanece operando na área.

A Petrobras aceita as regras do jogo de Chaves. Tanto que a estatal brasileira enviou aos venezuelanos documentos propondo estatutos para a criação de duas empresas. Uma na Venezuela, para exploração de óleo na Faixa do Orinoco, na qual a PDVSA teria 60% das ações e sua parceira brasileira, 40%. Em compensação, na refinaria Abreu Lima, a Petrobras entraria com 60% e a PDVSA, com 40%.

Esta continua sendo a proposta. Concretizada a parceria, a unidade pernambucana, com capacidade para refinar 200 mil barris, utilizaria como matéria-prima 50% de óleo venezuelano e 50% de óleo brasileiro, da bacia de Campos. Caso não haja um acordo, a refinaria processará apenas petróleo do Brasil.

Fonte: Valor Econômico
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