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Energia

O novo plano decenal de energia volta valorizar as hidrelétricas

29/06/2010 | 11h05

O governo federal planeja investimentos em hidrelétricas nos próximos anos, o que deverá ajudar a manter a matriz brasileira a mais limpa do que a média mundial. Sob o ponto de vista da mobilidade, os planos apontam, porém, para um gigante reforço na exploração e oferta de petróleo. Nos próximos dez anos, quase metade (48%) da energia produzida no Brasil virá de fontes renováveis. O Plano Decenal de Energia (PDE-2019), mostra que a geração de eletricidade será majoritariamente (69,85%) oriunda de hidrelétricas, com uma expansão tímida de outras fontes renováveis como biomassa e eólica, ou de térmicas a gás natural, consideradas mais limpas do que a geração a carvão ou a óleo combustível.
 


Na área do petróleo, com os investimentos no pré-sal, o PDE-2019 estima um excedente da produção brasileira de mais de 2 milhões de barris diários, o que significa dizer que, nos próximos dez anos, seremos movidos basicamente por dois combustíveis que ainda não se misturam muito bem: água e petróleo. Para o professor Adilson de Oliveira, titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, não há nenhuma surpresa; "O governo está dizendo claramente que vai investir em hidrelétricas para a geração de eletricidade, e na parte de combustíveis vai investir em petróleo". Traduzidos em reais, os planos do governo representarão investimentos de quase 1 trilhão de reais no setor energético, dos quais 70,6% na área de petróleo e gás natural, 22,5% em energia elétrica e pouco menos de 7% em biocombustíveis líquidos (etanol e biodiesel).
 
O planejamento de investimentos no setor "está adequado aos desafios de um crescimento anual médio no PIB de 5,1% e uma expansão do consumo energético da ordem de 5,9%“, diz Mauricio Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). ligada ao Ministério dc Minas e Energia, responsável pelo plano decenal. "Acho que está de bom tamanho. É preciso lembrar que estamos falando de uma projeção de longo prazo." Na última década, o crescimento médio anual foi de 3,5%.
 
"É um desafio muito grande manter um crescimento de 5,1%, durante os próximos dez anos", diz Tolmasquim. A soma dos investimentos em geração de energia limpa (hidrelétrica, biomassa, eólica e biocombustíveis líquidos), que chega próximo de 30% do total, representa o equilíbrio possível, segundo o presidente da EPE. "Se o Brasil conseguir manter um crescimento elevado nesse período sem sujar a sua matriz energética, será uma grande vitória."
 
O raciocínio é endossado cm parte pelo professor José Goldemberg, físico e especialista em energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia (lEE) da USP. Goldenberg vê avanço no fato de a matriz não piorar , principalmente por conta do salto de crescimento previsto na exploração de petróleo". Mas, segundo ele, "o PDE não é um plano de energia, mas um plano de hidrelétricas".
 
(...)
 
As fontes renováveis, grandes estrelas na geração de energia limpa, como eólica, solar; mares, biomassa e mesmo as PCHs, ocupam um papel secundário nos planos energéticos do governo, quando visto pela ótica dos números. As renováveis apresentam uma perspectiva dc crescimento de sua participação de 3,2 pontos porcentuais no decênio, ou 10 mil megawatts de capacidade de geração. Do total, o destaque fica por conta das fontes eólicas, responsáveis por 6.041 megas da nova energia verde a ser gerada.
 
Uma das projeções mais polêmicas do PDE-2019 diz respeito à perda de participação das termoelétricas, de 19% para 15%, especialmente pela redução do uso de óleo diesel em 33%. Na visão de Oliveira, da UPRJ, os investimentos cm termoelétricas, principalmente se movidas a gás natural, deveriam crescer. Para ele, as térmicas funcionam de forma prática e econômica como reservatórios adicionais aos das hidrelétricas, suprindo a energia que essas deixam de produzir nos períodos de seca.
 
No papel, os planos do governo apontam para uma total ausência de novos projetos de geração de energia de fontes térmicas a partir de 2013. No quesito dos investimentos, o PDE prevê a módica quantia de 3 bilhões de reais para projetos já autorizados. As usinas nucleares manterão sua participação de 2%, porcentual assegurado com a entrada em operação de Angra 3, prevista para 2015.
 
(...)
 
Com mais de 70% de todo o investimento previsto para o setor energético na década, petróleo e gás natural serão a base da geração de energia necessária para suportar o desenvolvimento do Pais. Somente na área de exploração e produção, serão 506 bilhões de reais, que farão o volume produzido no Brasil saltar de 2.2 milhões para 5,1 bilhões de barris dia gerando um excedente de 2,1 bilhões de barris diários.
 
O gás natural poderá alcançar uma produção de 230,8 milhões de metidos cúbicos diários, ante um volume atual de 80 milhões, crescimento de 300%. Segundo Goldemberg, o gás natural é um dos pontos do PDE que ele não entendeu. "O gás é um excelente combustível, inclusive do ponto de vista da poluição local, porque não emite particulados nem enxofre. Então seria uma ótima opção." Em sua opinião, o governo erra na política de preços do gás natural, que reduz sua competitividade.
 
Para absorver esse crescimento da produção na aérea do petróleo, os estudos consideram como premissa básica a inserção do Brasil no mercado internacional, o que exigirá "a construção de novas instalações de refino, com alta capacidade de conversão e processos mais sofisticados, focando a produção de derivados médios, seja para consumo interno, seja para exportação". A capacidade de produção nacional de derivados deverá ter crescimento de 65%. o que exigirá investimentos de 77.5 bilhões de dólares.
 
No balanço final das metas de sustentabilidade exigidas pelo combate às mudanças climáticas, apesar do discurso recheado de "critérios socioambientais", os estudos mostram que o setor energético não está entre os que contribuirão para que o Brasil atinja até 2020 os 36,1% a 38.9% de redução de emissões assumidos em Copenhague. Pelo plano, o setor de energia registrará um crescimento de suas emissões da ordem de 65%. Os autores do planejamento argumentam que esse volume de emissões ainda é pequeno, equivalente a cerca de metade das de 2005, provocadas pelas mudanças de uso do solo (desmatamento), ou cerca de 31% do total de emissões daquele ano.
 
Ainda assim, conclui o plano decenal, o Brasil se colocará, daqui a dez anos entre os países com menor índice de emissões, permanecendo na mesma posição que ocupa hoje (18º lugar). Pouco deve mudar também em termos per capita ou na relação com o crescimento do PIB. Atualmente, enquanto um cidadão norte-americano emite cerca de 20,5 toneladas de CO2/ano, um brasileiro coloca na atmosfera, por ano, 2 toneladas. Em termos de intensidade da economia, diz o estudo, para produzir 1 milhão de reais de PIB, excluindo as emissões devido ao desmatamento, a China emite 1.052 toneladas de CO2 , os Estados Unidos emitem 473 toneladas e o Brasil 220 toneladas.



Fonte: Carta Capital
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