Prejuízo

Furtos de energia na Light equivalem a produção de Angra 1

Valor Econômico
03/12/2010 08:46
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Maior empresa de distribuição do Rio de Janeiro, a Light quer dar um basta no roubo de energia. As perdas anuais com furto, os chamados "gatos" (ligações clandestinas realizadas na rede) e fraudes na área da concessão da Light equivalem a toda a produção da usina nuclear Angra 1, que tem capacidade de gerar 657 megawatts (MW). Sem os furtos, a conta de energia dos 4 milhões de consumidores da Light poderia ser até 17% mais barata, segundo cálculos da própria empresa.


Uma "luz no fim do túnel" para a empresa de energia tem sido as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), programa de ocupação das favelas pela polícia para retirada dos traficantes de drogas. Essa atuação permitiu aos técnicos da companhia entrar em áreas antes proibidas pelos traficantes que dominavam as comunidades . O diretor de distribuição da Light, José Humberto Castro, diz que as UPPs estão ajudando a empresa a ganhar novos clientes. "Vai ser um trabalho difícil, mas vamos recuperar essas áreas", diz Castro. Um dos problemas que torna o Rio único em relação à outras cidades do país é que a sociedade não encara o roubo de energia e as fraude como crimes, ressalta o executivo.


Jerson Kelman, presidente da Light, ressalta que o roubo (ressultante de fraude no medidor) e o furto de energia (geralmente por ligação direta à rede de distribuição) são problemas culturais no Rio. Mas acha que a situação já está mudando.


"A ocupação do (morro) Alemão mostra que o cidadão começa a achar que esse modelo de esperteza, em que cada um se acha mais esperto que o vizinho, está superado. Há uma crescente percepção de que, para evoluirmos como cidadãos, é preciso acabar com a cultura de que a regra vale para todos e não para mim", diz Kelman.


No morro Santa Marta, na zona Sul e o primeiro a receber uma UPP, os índices de adimplência estão em 99%


Nas áreas onde a Light já montou uma rede de atuação específica, os resultados começam a ser notados. A empresa entrou trocando geladeiras, lâmpadas fluorescentes, chuveiros e, mais importante ainda, ensinando os moradores a consumir energia de forma eficiente. A empresa pratica um custo diferenciado nos primeiros seis meses, cobrando dos consumidores apenas uma tarifa social pelo consumo de 80 Kw/h por mês, independentemente do consumo real, que custa R$ 15. A partir do sexto mês e até completar 18 meses de consumo, a tarifa sobe gradualmente.


José Geraldo de Souza Pereira, superintendente de estratégia da diretoria de Distribuição, conta que foram encontrados casos de moradores de comunidades que deixavam a porta da geladeira aberta para "refrigerar" o ambiente. Agora pagando pela energia, os "novos" consumidores reduziram o consumo médio, que era de 280 kilowatts/hora (Kw/h) por mês, em cada residência, para 170 Kw/h. "Esses 110 kilowatts eram desperdiçados, eram uma energia jogada fora", ressalta Kelman.


No morro Santa Marta, que fica na zona Sul do Rio e foi o primeiro a receber uma UPP, os índices de adimplência estão em 99%, contra a média de 97% nas comunidades do asfalto. Ali, o investimento da Light com cada morador foi de R$ 2.500.


A empresa já entrou nas comunidades Santa Marta, Chapéu Mangueira, Babilônia, Cidade de Deus, Jardim Batan, Ladeira dos Tabajaras, Morro dos Cabritos, Pavão-Pavãozinho, Cantagalo e Morro da Previdência. Faltam ainda oito comunidades onde estão sendo levantadas as ações.


Na área da Light os números relacionados ao furto e perda de energia são impressionantes. A empresa detecta 400 fraudes por dia nas 200 mil fiscalizações feitas anualmente. O superintendente jurídico da Light, Fabio Amorim da Rocha, destaca que metade dos processos judiciais da empresa se referem a perdas comerciais.


Nas ações de combate às perdas de energia foram gastos aproximadamente R$ 300 milhões em 2009 e 2010 para trocar medidores (alguns alvejados por tiros de metralhadora), e manutenção da rede. A distribuidora também sofre com a atuação de advogados que induzem clientes que tiveram corte do fornecimento a entrar na Justiça pedindo indenização. Muitas vezes esses advogados captam clientes "panfletando" nas portas das agências da distribuidora, informa a companhia.


Elena Landau, economista, advogada, membro da Comissão de Energia da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e consultora da Light, explica que a empresa está começando a representar alguns desses profissionais para o tribunal de ética da OAB por captação indevida da clientela.


No Rio, grande parte dos clientes inadimplentes ou que tiveram corte do fornecimento por furto têm sido beneficiados nos tribunais, pelos Juizados Especiais Cíveis. Elena Landau faz questão de frisar que o não há má intenção nesses juizados, que foram criados justamente para permitir o acesso à Justiça, sem custas e de forma mais rápida, daqueles que não tinham como se defender. "Há naturalmente nesses juizados uma tendência mais consumerista, de defender o consumidor, do que em um tribunal normal. E talvez, por falta de entendimento sobre a gravidade do assunto e de como isso repercute, esses juízes não estão percebendo que uma decisão isolada deles está criando um efeito multiplicador e uma cultura da impunidade", explica a advogada.
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