Decisão

Fechamento de usina de aço agita a França

Valor Econômico
01/04/2008 15:44
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O grupo siderúrgico brasileiro Gerdau ganhou ontem (31/03) papel de destaque na novela que já dura três meses sobre o fechamento parcial da usina da ArcelorMittal , em Gandrange, no leste da França. Após uma certa euforia na imprensa francesa pela manhã, anunciando o interesse da Gerdau em comprar a fábrica do grupo indiano, informações confirmadas pela prefeitura de Amnéville, os comunicados divulgados horas depois pelas duas empresas desmentindo as negociações jogaram novo balde de água fria nos sindicatos, que prometem continuar cobrando uma ação rápida do governo francês.

 

O plano de reestruturação anunciado no início de janeiro pela ArcelorMittal prevê o fechamento até abril de 2009 de parte da usina de Gandrange, o que acarretaria a eliminação de 595 dos 1,1 mil postos de trabalho da fábrica, especializada no segmento de aços longos, um dos setores mais rentáveis do aço.

 

A decisão de fechar a aciaria elétrica, que produz 900 mil toneladas por ano, e também a instalação de laminação para a fabricação de cilindros, deve ser oficialmente anunciada em uma reunião marcada para a próxima sexta-feira. Mas o grupo pretende manter a laminação de barras e o centro de pesquisas.

 

Após a entrada rápida em cena do grupo brasileiro, a central sindical CFDT pediu para ser recebida no Palácio do Eliseu, sede do governo francês. "Queremos que o presidente Nicolas Sarkozy dê explicações sobre as conversas do grupo Gerdau no Ministério francês da Economia", declarou Patrick Auzanneau, representante da CFDT na ArcelorMittal França.

 

"O Sarkozy deve forçar o Lakshmi Mittal (presidente e principal acionista da ArcelorMittal) a vender a fábrica de Gandrange", estima Alain Stahl, diretor de gabinete do prefeito de Amnéville, do mesmo partido do presidente francês. Stahl acompanhou a reunião entre representantes do ministério francês da Economia, o vice-presidente-executivo da Gerdau, Paulo Fernando Bins de Vasconcelos e de um diretor da usina francesa recentemente em Paris.

 

A ministra da Economia, Christine Lagarde, também teve de confirmar, em um comunicado, que a reunião realmente ocorreu, mas que ela "se insere em um contexto de diferentes contatos , durante as últimas semanas, com profissionais do setor que se declararam interessados pelo futuro da fábrica de Gandrange", afirmou a ministra, que ressaltou, no entanto, que o grupo Gerdau "não havia feito nenhuma proposta de compra".

 

"Se pudermos garantir as atividades por meio de investimentos estrangeiros, e podem haver sócios privados interessantes, nosso trabalho é incentivá-los e servir de catalisador", disse a ministra.

 

No Brasil, a direção do grupo Gerdau reafirmou, em comunicado, "que não tem interesse em adquirir a usina de Gandrange, da ArcelorMittal ".

 

O grupo presidido por Lakshmi Mittal, no entanto, informou que a unidade de Gandrange não está à venda. Quando comprou, em 2006, a companhia franco-luxemburguesa Arcelor - na maior operação de fusão da siderurgia mundial -, Mittal se comprometeu a manter todas as unidades em funcionamento, mas não deu garantias sobre a manutenção do nível de emprego.

 

As cobranças em relação à uma ação do governo francês, não só da parte dos sindicatos, mas também da oposição são grandes porque o próprio presidente, Nicolas Sarkozy, visitou a usina em fevereiro passado, poucas semanas antes das eleições municipais, e prometeu encontrar uma solução, inclusive sem a Mittal, para impedir o fechamento da fábrica.

 

"Ou nós conseguimos convencer Lakshmi Mittal a voltar atrás em relação ao seu plano de reestruturação e nós investiremos com ele, ou nós encontraremos um comprador e investiremos com ele", afirmou Sarkozy em discurso aos funcionários da empresa. Em janeiro passado, durante uma visita à Índia, Sarkozy discutiu o assunto diretamente com Lakshmi Mittal, um dos homens mais ricos do mundo.

 

Agora, muitos querem que Sarkozy cumpra sua promessa. O assunto vem mobilizando a imprensa francesa e pode extrapolar as fronteiras do país. Representantes do Partido Socialista declararam que vão pedir o apoio do primeiro-ministro do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker, para que o presidente francês não permita o fechamento parcial da siderúrgica.

 

Após o anúncio em janeiro do plano de reestruturação, os sindicatos franceses fizeram uma contra-proposta e apresentaram um projeto que prevê investimentos de 40 milhões de euros para renovar o forno elétrico, que não agradou a direção da empresa. A ajuda pública tão esperada pode esbarrar em outros empecilhos: a Comissão Européia pode não autorizar ajudas públicas a um grupo privado, que ainda por cima registrou lucros de US$ 10,3 bilhões no ano passado.

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