América do Sul

Empresariado boliviano teme isolamento e paralisia econômica

Valor Econômico
21/06/2005 00:00
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A Bolívia isolada, com economia paralisada pelo radicalismo de movimentos sociais desconexos, quase um enclave numa América do Sul buscando maior integração. Este é o cenário dos pesadelos do empresariado boliviano.
Para Branko Marinkovic, presidente da Federação dos Empresários de Santa Cruz, o pesadelo começa a tomar forma com o "anel energético", projeto que ligaria as reservas de gás do Peru a Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil, contornando a Bolívia.
Ele defende que uma integração energética passando pela Bolívia. E quer que o país deixe de lado a rusga centenária com o Chile e passe a pensar mais no próprio desenvolvimento. "Exportamos minério e petróleo para o Chile. Por que o gás não poderia sair por lá?"
Grupos de oposição dizem ser inadmissível usar o Chile para exportar gás, a principal commodity boliviana. O Chile ficou com territórios da Bolívia na costa do Pacífico depois de um confronto militar no final do século XIX, deixando os bolivianos sem saída para o mar.
"Precisamos de mais integração regional, de racionalidade econômica na Bolívia, de mais democracia e menos populismo em nosso país", diz Marinkovic, que esteve ontem no Brasil com Gabriel Dabdoub, presidente da Câmara de Comércio, Indústria, Serviços e Turismo de Santa Cruz (Cainco), e Oscar Ortiz, gerente-geral da Cainco.
Os três dirigentes empresariais do Departamento (Estado), o mais próspero da Bolívia atualmente, falaram ao Valor sobre a crise quase crônica de seu país. "Para a solucionarmos, precisamos de eleições gerais. Confiamos no voto moderado, mas esse voto, da maioria da população, tem de ser respeitado", diz Ortiz, sob a anuência dos outros empresários. Além de novas eleições, eles pregam a necessidade de o país adotar um sistema de maior autonomia dos nove Departamentos, quebrando "um sistema centralizado ultrapassado, de quase dois séculos atrás".
Os empresários apontam em situações que consideram absurdas: "Mesmo os trajetos dos ônibus de Santa Cruz são decididos em La Paz. Um governo central não pode ser assim tão onipresente. Não queremos nos separar da Bolívia, queremos ter autonomia para buscarmos formas de desenvolvimento regionais", afirma Gabriel Dabdoub. "Até a Polícia é treinada em La Paz e mandada para Santa Cruz. Chegam policiais que nem conhecem a vizinhança em que trabalharão", protesta Marinkovic.
Para os empresários, a crise na Bolívia acabou passando uma imagem de "conflito étnico", de luta de pobres contra ricos, o que, dizem, não seria verdade. "São exatamente esses problemas de centralismo e populismo. Queremos políticas responsáveis de combate à pobreza, o mais grave problema social de nosso país", afirma Oscar Ortiz.
Dabdoub concorda e ataca os que dizem que a Bolívia estaria se inviabilizando: "Seis dos nove Departamentos bolivianos têm excedentes fiscais [Santa Cruz, La Paz, Cochabamba, Tarija, Oruro e Chuquisaca]. Queremos solidariedade entre os superavitários e os deficitários, mas que cada um possa ter mais liberdade de fazer políticas específicas para suas regiões. Não há movimento de independência de Santa Cruz, queremos reforma política para todo o país".
E aí eles voltam a falar sobre a necessidade de estreitamento com o Brasil, principal parceiro comercial da Bolívia.
"Mesmo para o Chile, existem quatro estradas. Mas para o Brasil, não há nenhuma em estado de trânsito. Guardadas as proporções, é como se o México não tivesse estradas indo para o seu principal parceiro comercial, os EUA", ironiza Marinkovic.

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