Minério de Ferro

China dá cartada para reduzir poder de Vale, BHP e Rio Tinto

A China fez ontem uma tentativa de tirar das maiores mineradoras o poder de decisão sobre os preços do minério de ferro com a assinatura, de surpresa, de um acordo com a terceira maior produtora do metal na Austrália.

Agência Estado
18/08/2009 06:36
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A China fez ontem uma tentativa de tirar das maiores mineradoras o poder de decisão sobre os preços do minério de ferro com a assinatura, de surpresa, de um acordo com a terceira maior produtora do metal na Austrália.

A medida pode pesar sobre futuras transações chinesas envolvendo recursos naturais, porque suscita dúvidas quanto à possibilidade de investimentos desse tipo terem objetivos políticos em vez de comerciais.

O acordo com a Fortescue Metals Group Ltd., pelo qual a China comprará minério de ferro abaixo de um preço de referência definido pela anglo-australiana Rio Tinto com siderúrgicas japonesas, sul-coreanas e taiwanesas, não satisfará a demanda do país. A produção da Fortescue é relativamente pequena, e sua infraestrutura limitada em comparação com a das três maiores produtoras, a Vale SA, a Rio Tinto e a também anglo-australiana BHP Billiton. O acordo pode começar a enfraquecer o poder dessas mineradoras de estabelecer os preços mundiais do minério de ferro, mas não derrubará o sistema. A China ainda terá de negociar com as três grandes, que são responsáveis por 70% do minério negociado internacionalmente.

A China está ansiosa para incentivar fornecedores que não sejam as três grandes, queixando- se de que estas têm um poder de fixação de preços que caracteriza oligopólio. No longo prazo, o acordo, vinculado ao crescimento da Fortescue, pode permitir que esta se torne uma grande fornecedora. Essa política imita a adotada pelos japoneses há meio século, quando investiram em minas de ferro australianas e depois brasileiras. Em troca, os compradores japoneses conseguiram assegurar suprimentos estáveis, de longo prazo e normalmente com desconto.

A Fortescue informou que concordaria em dar um desconto de 3% sobre o preço de referência internacional, dependendo da finalização de empréstimos de US$ 5,5 bilhões a US$ 6 bilhões por parte de bancos chineses. O desconto depende de os empréstimos serem fechados até 30 de setembro, informou.

O desconto que a China receberá está claramente ligado a maior investimento do país na Fortescue. Isso pode fazer com que alguns acionistas resistam. Os oponentes da fracassada oferta da Corporação de Alumínio da China por uma fatia maior na Rio Tinto disseram que a China usaria seu poder para obter preços mais baixos de minério. Mas os benefícios de curto prazo à China podem superar o dano potencial a seus planos de investimento no exterior, disseram analistas.

O principal negociador da China para o minério de ferro, a Associação Chinesa de Ferro e Aço, grupo do setor com fortes vínculos estatais, tratou o acordo como um avanço decisivo nas negociações que vinham se arrastando entre o país e as três maiores mineradoras.

O diretor-presidente da Fortescue, Andrew Forrest, disse que o acordo rompeu um impasse que estava obrigando as siderúrgicas chinesas a pagar extra pela commodities no mercado à vista.

O governo chinês avalizou o negócio, afirmando que pode levar a um resultado mais equilibrado para as siderúrgicas chinesas e as mineradoras mundiais. "O acordo do minério de ferro reflete negociações adequadas de ambos os lados", disse Yao Jian, porta-voz do Ministério do Comércio, em nota à imprensa.

A China vinha esperando por um corte de 40% a 45% no preço de referência mundial em comparação com o ano passado, enquanto a BHP Billiton e a Rio Tinto fecharam acordo de desconto de 33% a outros compradores, em resposta ao desaquecimento na demanda pelo aço. Mas o acordo com a Fortescue é apenas ligeiramente melhor do que a proposta apresentada pelas três grandes.

Segundo os analistas, o volume relativamente pequeno da produção anual da Fortescue, equivalente a cerca de um mês das importações chinesas, deve limitar o impacto do acordo a curto prazo. O trato cobre as vendas da Fortescue por apenas um semestre.

O negócio também não vai ajudar a acabar com as acirradas negociações sobre a fixação de preços internacionais de referência. Os atuais preços negociados no mercado à vista estão muito mais altos do que os de longo prazo, o que deixa as mineradoras sem muito incentivo para se comprometerem com preços mais baixos.

A Rio Tinto não deu importância à decisão da Fortescue. "Não vemos esse acordo sobre preços como relevante para a nossa política de preços para o ano fiscal de 2009", disse um porta-voz da mineradora. "A Rio Tinto realiza suas próprias negociações com seus clientes no mundo todo. Se outras produtoras fazem seus próprios acordos, e de que maneira, isso fica a critério delas." A BHP não quis comentar.

Com o investimento chinês, a Fortescue, que está com escassez de caixa, acredita que será capaz de completar seus planos de expansão, dobrando rapidamente a produção para cerca de 100 milhões de toneladas por ano. Isso faria com que sua produção anual equivalesse a dois terços do volume da BHP.

Um dos maiores acionistas da Fortescue é a siderúrgica chinesa Hunan Valin Iron & Steel Group, cujo presidente do conselho também é o dirigente de mais alto escalão da Associação de Ferro e Aço da China

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