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Pesquisa

Bactérias e condições favoráveis aceleram limpeza do Golfo do México

10/01/2012 | 12h30
Uma combinação fortuita de uma bactéria voraz, correntes oceânicas e topografia ajudou a limpar com rapidez boa parte do óleo e do gás despejados no Golfo do México no desastre da plataforma Deepwater Horizon em 2010, relataram ontem (9) pesquisadores.

Depois de vazar petróleo e gás por quase três meses, o poço da BP foi fechado em julho de 2010. Cerca de 200 mil toneladas de gás metano e cerca de 4,4 milhões de barris de petróleo vazaram no oceano. Dada a enormidade do vazamento, muitos cientistas previram que grande quantidade dos poluentes químicos resultantes ficaria nas águas da região por anos.

Segundo um novo estudo financiado pelo governo americano e publicado ontem pela Academia Nacional de Ciências dos EUA, esses cientistas estavam errados. No final de setembro de 2010, a vasta mancha submarina de metano e outros gases havia praticamente desaparecido. No fim de outubro, uma grande quantidade do óleo que havia ficado sob as águas (uma substância complexa formada por milhares de componentes) havia desaparecido, também.

"Houve muita conversa de dimensões catastróficas", disse o microbiologista David Valentine, da Universidade da Califórnia, coautor do estudo, publicado na revista científica "Proceedings of the National Academy of Sciences". Mas acabou-se vendo "que o oceano abriga organismos que podem dar conta" da absorção de poluentes como óleo e gás, disse ele.

Um ano atrás, Valentine e outros cientistas publicaram um estudo descrevendo como bactérias que ocorrem naturalmente haviam, aparentemente, devorado a maior parte dos químicos tóxicos liberados pelo vazamento da BP. O trabalho, patrocinado pelo governo e publicado na revista "Science", provocou a desconfiança de outros pesquisadores, que questionaram se outros micróbios poderiam ingerir tanto gás e petróleo em tão pouco tempo.

Valentine e colegas agora usaram um modelo computadorizado para explicar exatamente como esse cenário pode ter acontecido. "O ceticismo foi certamente um dos fatores que nos motivou a fazer este [novo] estudo", disse.

Foi um desafio intrincado. O primeiro passo foi estimar o fluxo dos vários hidrocarbonetos do poço durante os 87 dias de vazamento. Os pesquisadores identificaram 26 tipos desses compostos químicos; eles então tiveram de calcular quais desses compostos ficaram na mancha que ficou a mais de mil metros de profundidade, e quais subiram à superfície. Por exemplo, na mancha submarina, certos químicos se dissolveram completamente na água, inclusive o gás metano, enquanto algumas das gotas de óleo foram atomizadas e continuaram suspensas na água.

Em seguida, os cientistas identificaram as principais espécies de bactérias que comem óleo e gás e que vivem nas profundezas do golfo. Eles identificaram 52 espécies principais desses micróbios. E também estimaram o tempo que leva para as bactérias consumirem petróleo e gás, e o quanto as colônias de bactérias cresceram.

O último passo foi fazer um modelo do complexo movimento da água no golfo para determinar para onde o óleo e o gás - e as bactérias - foram levados. Igor Mezic, colega de Valentine e coautor, havia publicado um estudo em 2011 prevendo para onde o petróleo vazado havia ido. Essa análise incluía dados do modelo da Marinha dos EUA para as correntes oceânicas do golfo e observações sobre os movimentos da água logo depois do vazamento e durante os meses depois de seu encerramento.

Os pesquisadores decidiram juntar seus modelos computadorizados - um sobre as bactérias que se alimentaram do vazamento e o outro sobre o movimento das águas. Quando rodaram o modelo resultante, descobriram que ele ajudava a explicar o enigma do rápido sumiço do petróleo vazado.

O modelo mostrou que a topografia teve um papel fundamental. Como o golfo tem terra em três lados (norte, leste e oeste), as correntes não fluem numa só direção, como um rio. Em vez disso, a água bate e volta nas paredes de terra, como numa máquina de lavar.

Uma população inicial de bactérias encontrou o vazamento perto do poço da BP, a colônia cresceu, e ela, então, foi arrastada pelas correntes oceânicas. Mas, quando a água voltou (o efeito máquina de lavar), ela já estava cheia de bactérias famintas, que imediatamente voltaram ao ataque, engolindo mais uma rodada de hidrocarbonetos. Essas repetidas incursões sobre o poço da BP pela crescente população de bactérias acelerou a velocidade com que o metano e o óleo foram devorados nas águas.

Valentine sugeriu que as petrolíferas examinem as correntes, o movimento das águas e a comunidade nativa de micróbios no oceano antes de embarcar num projeto em águas profundas. "Então, se algo ocorrer, estaremos vários passos à frente para entender para onde o petróleo pode ir e qual deve ser a resposta ambiental", disse.

A pesquisa foi bancada pela Fundação Nacional de Ciências dos EUA, pelo o Departamento de Energia do governo americano e pela Agência de Pesquisa Naval.


Fonte: Valor Econômico
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