Artigo

O outro lado da moeda

Folha de S.Paulo
23/07/2010 10:08
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Restringir a exploração de novos blocos deverá afetar a oferta futura de petróleo em um cenário já difícil



Todo o mundo, e em especial as pessoas ligadas ao setor de óleo e gás, vem acompanhando atentamente o desenrolar do acidente ocorrido durante a perfuração de um poço em águas profundas no golfo do México.


No dia 20 de abril, em meio a uma operação aparentemente normal e controlada, ocorreu uma enorme explosão na plataforma e, por consequência, instalações e equipamentos foram danificados, causando um fluxo descontrolado de óleo e gás no fundo do mar. Este somente foi contido, ainda que por meio de uma solução provisória, na sexta-feira passada.


Em razão do acidente, foi estabelecida uma "moratória", período em que as autoridades americanas suspenderam a autorização para as atividades de exploração no golfo do México sob a alegação de que as causas do acidente e os riscos associados à atividade deveriam ser mais bem compreendidos e atacados. Essa medida foi seguida de uma recomendação da União Europeia para que o mesmo seja aplicado aos países daquele bloco.


A tecnologia aplicada à indústria do petróleo vem se aperfeiçoando ao longo de mais de 150 anos e um acidente como o que ocorreu é algo totalmente improvável e certamente evitável se houvesse ocorrido a correta aplicação do conhecimento existente na indústria.
 
Como todo procedimento sempre é planejado e executado com redundâncias em termos de segurança, é preciso haver várias falhas ao mesmo tempo para que um acidente ocorra. A prova disso é que a análise preliminar da comissão criada pelo Congresso americano para estudar o acidente aponta cinco erros como as prováveis causas do acidente.


Existem milhares de aviões voando todos os dias de um lado para outro e, mesmo assim, ficamos consternados quando um deles cai e provoca a morte de centenas de pessoas. Isso é, sim, motivo para que comissões de análise de acidentes sejam criadas de forma a verificar se algo pode ser incorporado aos já extremamente seguros equipamentos e procedimentos de voo. No entanto, não seria uma medida razoável parar todos os voos do mundo enquanto os relatórios finais não fossem entregues e eventuais melhorias fossem propostas.


Assim, só se explica a decisão imediata e compulsória em cima de uma indústria ainda mais antiga e tão comprometida com segurança máxima quanto a aeronáutica a partir da necessidade de uma resposta política à opinião pública.


Até o momento, as empresas exploradoras vêm pagando a suas prestadoras de serviços mesmo paradas e absorvendo prejuízos porque querem manter os equipamentos contratados sob seu controle. Caso essa situação venha a se prolongar, elas certamente evocarão "evento de força maior" e rescindirão os seus contratos. Além disso, elas poderão diminuir o ritmo de suas atividades ou até mesmo paralisar projetos se entenderem que poderá ocorrer aumento dos custos das atividades de exploração "offshore" por meio de possíveis novas imposições operacionais e maiores custos de financiamento e de seguros, tornando seus projetos antieconômicos.
 
 
Mas, nesse quadro de incertezas e ameaças ao setor, podem estar escondidas grandes oportunidades para a indústria de petróleo brasileira.


O mundo produz hoje cerca de 86 milhões de barris de petróleo por dia, e a demanda diária esperada para 2030 é de 120 milhões de barris. A nossa sociedade moderna não tem como crescer ou até mesmo manter o padrão de conforto atual sem acesso a essa fonte de energia.
 
 
E qualquer medida restritiva à exploração de novos blocos deverá afetar a oferta futura de petróleo em um cenário já bastante difícil. A partir de agora, com o vazamento sob controle, o aspecto emocional diminuirá e a realidade e o bom senso tenderão, aos poucos, a sobressair nas decisões políticas.


O Brasil precisa de mais equipamentos para desenvolver o pré-sal. E aqueles que forem agressivos e que estiverem dispostos a assumir compromissos de longo prazo com a contratação de equipamentos, a partir de agora em condições aparentemente mais favoráveis, poderão estar fazendo grande negócio.
 
 
Por Rodolfo Landim
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