Bolívia

País andino é evasivo sobre indenizar Petrobras

Valor Econômico
11/05/2006 00:00
Visualizações: 273

Os representantes dos governos brasileiro e boliviano decidiram, numa reunião em La Paz, criar grupos de trabalho para discutir os principais pontos da negociação em torno da nacionalização de operações da Petrobras na Bolívia. Essa foi a primeira medida anunciada pelos dois lados para tentar solucionar o impasse em torno da exigência brasileira em receber indenização pelas refinarias nacionalizadas pelo governo da Bolívia.

Os participantes - Silas Rondeau, ministro de Minas e Energia, Andrés Soliz, ministro de Hidrocarbonetos da Bolívia, José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras e Jorge Alvarado, presidente da Yacimientos Petroliferos Fiscales Bolivianos (YPFB) e mais 11 pessoas entre diplomatas, técnicos e advogados de ambas as partes - reuniram-se ontem por mais de três horas.

Ao final, em vez de uma coletiva previamente marcada para anunciar as decisões, decidiu-se divulgar apenas uma nota oficial. Segundo fontes que acompanharam o encontro, o tom foi de cordialidade de ambos os lados e nada foi fechado. "Muita água ainda vai rolar" comentou uma dessas fontes. Ao longo do dia, entretanto, autoridades e membros do lado boliviano adotaram um tom bem mais forte em entrevistas à imprensa - o que o lado brasileiro evitava.

Em uma entrevista na hora do almoço, o ministro Andrés Soliz deixou entender que o governo boliviano não garante que vai indenizar a Petrobras pela nacionalização de suas operações no país. "Não sabemos, é preciso fazer uma conciliação. Temos que saber se as petroleiras pagaram mais ou menos pelas refinarias", disse o ministro de Hidrocarbonetos. O presidente da YPFB, Jorge Alvarado, que falou pouco antes do início da reunião de negociação entre as partes, aventou a possibilidade de indenizar a Petrobras com gás.

Mas as autoridades bolivianas fazem um cálculo que reduz em muito o crédito que a Petrobras diz que tem, porque a brasileira considera um estoque de gás existente que, para os bolivianos, tem que ser debitado desse crédito.

"A YPFB estima que o estoque existente nas duas refinarias é o equivalente a algo entre US$ 20 milhões e US$ 30 milhões", então, segundo o ministro, se a Petrobras pagou US$ 100 milhões, o governo só deve US$ 70 milhões, porque o estoque não é considerado um ativo da empresa. "Esse é um contrato que nunca houve conciliação. Poderíamos falar com a Petrobras para que haja uma compensação, por exemplo em gás ou produtos de refinaria até terminar de pagar a dívida."

Soliz disse que está havendo uma certa confusão no Brasil entre comercialização e produção. "A comercialização é onde existe o contrato binacional em que estamos discutindo preços. Mas se hoje o preço é de US$ 3,80 não quer dizer que vamos subir para US$ 5, US$ 6 ou US$ 7 amanhã. Estamos negociando", afirmou. Ele frisou que "o Brasil sabe que não haverá desabastecimento".

Na reunião de ontem, participaram também os diretores da Petrobras Ildo Sauer, de Gás e Energia, Nestor Cerveró, da área internacional, Paulo Roberto Costa, de Abastecimento, Decio Odoni, presidente do conselho de administração da Petrobras Energia, Jose Fernando Freitas, presidente da subsidiária boliviana, advogados e técnicos. Nenhum dos negociadores brasileiros quis falar antes da reunião.

Diante da pressão da Petrobras pela indenização, o governo boliviano vinha respondendo ontem com sinais de que quer revisar os contratos que deram origem às operações da estatal brasileira em território boliviano.

Victor Hugo Sáinz, superintendente da área de Hidrocarbonetos, disse em entrevista ao jornal "La Razón" que o o governo vai dar início a uma auditoria técnica, contábil e legal sobre as operações das petroleiras, "para saber se as companhias têm operado dentro da lei", se não exageraram nos custos de investimento ou de manutenção. Para isso, disse Sáinz, o governo boliviano já conta com apoio do governo da Noruega e está negociando cooperação no mesmo sentido com os governos da Holanda e do Canadá.

A Noruega teria, segundo o superintendente, se comprometido a pagar os salários dos técnicos que vão treinar os bolivianos não só nas auditorias, mas também no manejo da operação de exploração de recursos petrolíferos.

Pablo Solón, assessor para assuntos de Integração do presidente Evo Morales, disse em entrevista à "BBC Brasil" que a Constituição não prevê indenização do governo às petroleiras atingidas pelo decreto de nacionalização porque os contratos que baseavam a operação dessas empresas "seriam ilegais". A ilegalidade viria da falta de ratificação por parte do Congresso.

O entendimento da Petrobras, manifestado pelo presidente Gabrielli, é oposto. "A Constituição boliviana diz que é possível a nacionalização, mas com prévia indenização", afirmou Gabrielli.

Procurado para detalhar melhor a tese, uma assessora de Solón informou que ele estava em viagem a Viena, acompanhando o presidente Morales.

De qualquer forma, disse, ele não teria autorização para dar qualquer declaração sobre o tema.

Uma fonte da Embaixada do Brasil minimizou a declaração do assessor, dizendo que a ilegalidade dos contratos é uma tese que vem sendo defendida há três anos e que não teria nenhum efeito prático para a discussão, a menos que fosse levada ao contexto da reunião.

Mais Lidas De Hoje
veja Também
Biocombustíveis
RenovaBio: ANP divulga metas definitivas para as distrib...
31/03/26
Drilling
Norbe IX, da Foresea, conclui parada programada de manut...
31/03/26
Etanol
Produtor de cana avança com novas estratégias para reduz...
31/03/26
Firjan
Estado do Rio pode receber mais de R$ 526 bilhões em inv...
31/03/26
Combustíveis
Preço médio do diesel S-10 sobe 14% em março e atinge o ...
31/03/26
iBEM26
No iBEM 2026, Pason destaca apostas da empresa em digita...
31/03/26
Pessoas
Bow-e anuncia Ciro Neto como CEO
31/03/26
Apoio Offshore
SISTAC amplia contrato com Petrobras para manutenção de ...
31/03/26
IBEM26
Encontro internacional de energia vai abrir calendário m...
30/03/26
Biodiversidade
Maior projeto de biodiversidade marinha inicia na região...
30/03/26
Drilling
BRAVA Energia inicia campanha de perfuração em Papa-Terr...
30/03/26
Combustíveis
Etanol recua no indicador semanal e fecha a sexta-feira ...
30/03/26
Diesel
ANP aprova medidas relativas à subvenção ao óleo diesel
29/03/26
Pessoas
Ocyan anuncia seu novo diretor Jurídico e de Governança
29/03/26
Energia Elétrica
USP desenvolve modelos para reduzir curtailment e amplia...
29/03/26
Biocombustíveis
Acelen Renováveis e Dia Mundial da Água: cultivo da maca...
29/03/26
iBEM26
Goldwind avança na Bahia com fábrica em Camaçari e proje...
27/03/26
iBEM26
Bahia apresenta potencial da bioenergia e reforça protag...
27/03/26
Bacia de Campos
Nova descoberta de petróleo no pré-sal da Bacia de Campos
26/03/26
Royalties
Royalties: valores referentes à produção de janeiro para...
26/03/26
IBEM26
Práticas ESG do setor de energias renováveis são destaqu...
26/03/26
VEJA MAIS
Newsletter TN

Fale Conosco

Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você concorda com a nossa política de privacidade, termos de uso e cookies.

23