Agroenergia

Incertezas desestimulam novas usinas

Valor Econômico
27/09/2011 11:13
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Após a onda de investimentos sucroalcooleiros da década passada, frustrada pela crise mundial a partir de 2008, pairam incertezas sobre o fôlego do novo ciclo de crescimento do setor. Neste ano, os grandes players anunciaram aportes de mais de R$ 4,5 bilhões, mas a maior parte desse montante é para ampliar usinas já existentes. Estas necessitam de menos capital por tonelada de capacidade instalada do que usinas novas, cuja implantação ainda esbarra em custos altos de etanol, margens apertadas e políticas públicas ainda turvas.

Mesmo entre os grandes grupos ainda é baixo o interesse na construção de unidades a partir do zero. A instituição financeira que mais vem financiando o setor nos últimos anos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), tem hoje em carteira apenas dois projetos enquadrados para construção de usinas novas. Outros dois estão em perspectiva de serem enquadrados.

A maior parte do montante do anunciado este ano será aplicado pela multinacional americana Bunge. Serão US$ 2,5 bilhões entre 2012 e 2016 para elevar a capacidade de moagem de suas oito usinas no país, de 21 milhões para 30 milhões de toneladas por safra. A Nova Fronteira Bioenergia (Petrobras e São Martinho) informou também aporte de R$ 520,7 milhões para elevar de 3 milhões para 8 milhões de toneladas a capacidade da usina Boa Vista, em Goiás.

Sem informar valores, a BP (ex-British Petroleum) anunciou este mês a expansão da capacidade de suas usinas já existentes. Esse investimento não está incluído nos R$ 4,5 bilhões. A petroleira também garantiu que construirá outras três unidades até 2020, apesar de ainda não ter mencionado quanto aplicará nos chamados "greenfields". Cargill e o grupo USJ também anunciaram ampliação nas usinas de Goiás, sem, porém, informar recursos.

A maior empresa do segmento, a Raízen (Cosan / Shell) promete anunciar nos próximos meses como vai elevar de 60 milhões para 100 milhões de toneladas sua capacidade de moagem de cana. Mas, por enquanto, também toca seu projeto de ampliação das unidades já existentes.

Enquanto os investimentos ainda avançam em ritmos de "recuperação", multiplicam-se as projeções sobre a necessidade de expansão nas próximas décadas para atender à demanda. Uma das consultorias internacionais mais importantes do setor, a Czarnikow Group projetou que até 2030 o Brasil precisará, em um cenário conservador, de investimentos da ordem US$ 338 bilhões para atingir processamento de cana de 1,4 bilhão de toneladas - atualmente são 600 milhões de toneladas.

Em um horizonte mais curto, de dez anos, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) prevê ser necessário investir US$ 80 bilhões na construção de mais de uma centena de usinas no país, que juntas agregariam mais 400 milhões de toneladas à capacidade atual.

Mas o que será possível realizar e a que tempo, ainda são questões sem resposta. Marcos Jank, presidente da Unica, volta a bater na tecla do preço estável da gasolina no Brasil, que limita a remuneração aos produtores de etanol. Se for resolvida essa questão, diz Jank, um novo ciclo de crescimento tem grandes chances de deslanchar. "Há vigor financeiro. Em cinco anos o país construiu mais de 100 usinas", lembra Jank.

Ele se refere ao período entre 2005 e 2010 quando o Centro-Sul recebeu cerca de US$ 50 bilhões (investimentos industriais) para construção de 112 indústrias de açúcar e etanol. Na época, a capacidade fabril de moagem dobrou para 600 milhões de toneladas.

Nesse mesmo intervalo, entre 2005 e 2010, só o BNDES participou com desembolso de R$ 27,1 bilhões ao setor. Nos nove meses deste ano (até 19 de setembro), R$ 3,88 bilhões foram liberados para projetos sucroalcooleiros, 50% do registrado em todos os 12 meses de 2010 (R$ 7,5 bilhões).

É natural que neste momento os grupos busquem otimizar o canavial e a indústria já existentes antes de partir para novos projetos, avalia Carlos Eduardo Cavalcanti, chefe do Departamento de Biocombustíveis do BNDES.

A instituição está confiante de que a "musculatura" do segmento para investir está mais forte. "Quando começou o boom, a partir de 2005, o setor não tinha grandes grupos como Petrobras, BP, Cargill e Bunge, e ainda assim investiu muito. Agora, será possível fazer mais", diz Cavalcanti, referindo-se ao perfil de dívida mais estruturado dessas companhias.

Mas mesmo para elas, o avanço dos custos de produção de etanol segue pressionando margens e o ânimo para investir em usinas novas. Segundo a Czarnikow Group, o custo operacional do hidratado, descontados impostos, foi de R$ 0,43 por litro na safra 2000/01, metade dos R$ 0,89 do ciclo 2010/11. Para a safra em curso, a 2011/12, esse valor está em R$ 0,95 por litro. "Como os preços do etanol têm limites para subir [gasolina], o custo alto significa um hidratado cada vez menos competitivo", diz Tiago Medeiros, diretor de finanças corporativas da Czarnikow.
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