Bolívia
Valor Econômico
A Casa Branca parece ter dado um "voto de confiança" para o futuro presidente da Bolívia, Evo Morales. Em tom bastante diplomático, a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, disse ontem que "a relação com os EUA dependerá do comportamento do futuro presidente da Bolívia". É evidente que Washington tem mantido uma postura mais cautelosa e contida desta vez, evitando críticas e ameaças diretas ao líder cocaleiro.
"É importante que o novo governo governe de modo democrático, e vamos ver que tipo de cooperação eles querem em questões econômicas", disse ontem Scott McClellan, porta-voz de Bush.
Mary Crane, especialista em América Latina do Conselho de Relações Exteriores, de Washington, diz que os EUA estão mais cautelosos pois não querem "repetir os erros das eleições de 2002". Ela lembra que, à época, o então embaixador americano em La Paz, Manuel Rocha, criticou Morales ao dizer que a ajuda americana ao país seria cortada se o líder indígena ganhasse. "Isso só aumentou a popularidade de Morales, algo que Washington definitivamente não quer que se repita desta vez", diz.
Para a analista, também está claro que Morales terá vida difícil no Congresso boliviano, para poder cumprir sua retórica de campanha. Ele deve enfrentar um Legislativo dividido: seus aliados de esquerda cobrarão as promessas, mas não terá maioria na Câmara e o partido conservador de Jorge Quiroga terá maioria no Senado.
"Alguns líderes locais já estão dando apenas 90 dias após sua posse para que ele cumpra seus objetivos, como nacionalizar o gás", diz Crane. "Washington está esperando para ver que contornos terá um governo Morales."
Segundo ela, alguns analistas americanos dizem que Morales deverá optar por uma postura mais moderada de seu partido, o MAS (Movimento ao Socialismo), se quiser manter a ajuda financeira e os investimentos estrangeiros. "Talvez Washington perceba isso."
Para Julie Sweig, também do Conselho de Relações Exteriores, não seria lógico os EUA assumirem um confronto com um governo eleito democraticamente, mesmo se divergem de sua política e ideologia. "Depois de ter se queimado devido à associação com o breve golpe na Venezuela, em abril de 2002, e de malhar Morales nas últimas eleições, acho que o governo americano está tentando ser consistente com sua defesa de resultados legítimos", diz a analista. "Mas, se Morales embarcar em políticas econômicas ou relativas ao combate ao tráfico que caminhem contra os EUA, aí o tom vai subir."
"É importante reconhecer que ele claramente tem um mandato do povo boliviano. As pessoas sabiam em quem estavam votando", disse o analista Jess Vogt, do Wa-shington Office on Latin America.
Mesmo mantendo sua inflamada retórica antiamericana -ontem ele chamou o presidente George W. Bush de terrorista- , Morales tem dado nos últimos dias sinais de que poderá ser pragmático e evitar confronto com os EUA.
Anteontem, em entrevista, Morales reforçou o convite aos EUA para um trabalho conjunto no combate ao narcotráfico. "Nem a cocaína, nem o narcotráfico fazem parte da cultura dos quéchuas e aymarás", disse ele.
Morales disse ainda que não permitirá a produção sem limites da folha de coca, mas realizaria uma consulta popular sobre como a planta deveria ser controlada.
Ele próprio um ex-plantador de coca, Morales defende o tradicional uso das folhas pela população indígena como medicamento - tradição antiga e muito arraigada nos países andinos. Mas parte desta coca é desviada para a produção da cocaína. A Bolívia é hoje o terceiro maior produtor da droga, atrás apenas de Colômbia e Peru.
Os elogios de Morales a líderes esquerdistas da região, no entanto, preocupam a Casa Branca, que teme um bloco de esquerda ao redor do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e do ditador cubano, Fidel Castro. Mesmo assim, Larry Birns, do Conselho de Assuntos Hemisféricos, de Washington, disse: "Não haverá um confronto de cara. Morales é um homem prático."
"Há uma onda de mudança na América Latina e os EUA precisam deixar de lado o paradigma da Guerra Fria. As políticas que vêm adotando há décadas não funcionam mais", disse Vogt.
Morales não terá a autonomia de Chávez até por falta de recursos. A Bolívia é um país pobre, e o gás, vendido somente para Brasil e Argentina, rende uma fração das receitas da Venezuela com petróleo.
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