Brasil/Alemanha

Estado e empresas devem ajudar a diminuir o impacto das novas tecnologias no desemprego

Redação/Assessoria Fapesp
05/11/2018 09:56
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O Brasil está atrasado em tecnologia, robótica e automação da economia, mas há tempo para se reordenar, segundo Glauco Arbix, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) e ex-presidente da Finep.

Arbix foi um dos palestrantes do 7º Diálogo Brasil-Alemanha de Ciência, Pesquisa e Inovação, ocorrido nos dias 30 e 31 de outubro na sede da FAPESP e que teve como tema o trabalho e o aprendizado em um mundo digital.

O evento, com apresentações de pesquisadores do Brasil e da Alemanha, foi organizado pelo Centro Alemão de Ciência e Inovação São Paulo (DWIH São Paulo) e pela FAPESP.

“O encontro abordou o tema da digitalização. Discutimos o que pode se fazer por parte de governo, universidades e empresas na preparação para essa nova era. Outro tema importante abordado foi como a educação está se adaptando para uma geração tão acostumada com essas novas ferramentas”, disse Ronald Dauscha, diretor da Sociedade Fraunhofer no Brasil, membro da Coordenação de Pesquisa para Inovação da FAPESP e um dos organizadores do evento.

Arbix, coordenador do Observatório da Inovação, do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, apresentou as conclusões de uma pesquisa realizada por seu grupo a respeito do impacto das novas tecnologias sobre o emprego, a qualificação e a renda dos trabalhadores e das famílias.

O trabalho foi realizado por encomenda do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio e da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

“Há muita dificuldade para mensurar o real impacto que essas tecnologias, como inteligência artificial, vão provocar. Os dados são discrepantes. Há desde quem preveja uma tragédia, como a extinção de milhões de postos de trabalho, até quem diga que vai haver a criação de empregos em número mais do que suficiente para compensar os postos de trabalho fechados”, disse Arbix à Agência FAPESP.

O professor se refere a previsões como a do pesquisador Thomas Frey, da University of Oxford, que estimou que em 2022, no mundo todo, 1 bilhão de empregos serão perdidos por conta da chamada Indústria 4.0. Em outro extremo, a Federação Internacional de Robótica diz que nenhum posto de trabalho será perdido e que entre 1,9 milhão e 3,5 milhões de empregos serão gerados em 2021.

Valores intermediários incluem as previsões da consultoria de tecnologia Gartner, que fala da perda de 1,8 milhão de postos de trabalho globalmente, mas da criação de outros 2,3 milhões. Já o Fórum Econômico Mundial aponta a perda de mais de 7 milhões de empregos e a criação de 2 milhões, apenas em um conjunto de 15 países. Ambas as previsões levam em conta o ano de 2020.

Para outro palestrante do primeiro dia do evento na FAPESP, Hartmut Hirsch-Kreinsen, professor da Universidade Técnica de Dortmund, na Alemanha, independentemente das previsões, é preciso preparar os profissionais para o futuro.

Membro do conselho de pesquisa da Plataforma Indústria 4.0 do seu país, Hirsch-Kreinsen disse que no cenário atual é indispensável o papel de políticas públicas, principalmente as voltadas para a atualização e recapacitação dos trabalhadores, além do desenvolvimento de novas competências.

“Estamos enfrentando uma mudança disruptiva no trabalho graças à introdução de sistemas de tecnologia inteligente. Profissionais de todos os tipos, de advogados a motoristas de caminhão, serão afetados. Tanto os trabalhos manuais como os intelectuais serão automatizados”, disse.

Hirsch-Kreinsen apresentou as conclusões de uma pesquisa realizada por seu grupo, segundo a qual haverá uma considerável lacuna entre o número de empregos perdidos e as habilidades necessárias no futuro. Para ele, isso é uma forte justificativa para a adoção de medidas intensivas de treinamento e desenvolvimento de competências em todos os níveis.

“Temos uma perda moderada de empregos, mas também uma mudança estrutural de qualificações e habilidades. Além disso, temos de entender que o desenvolvimento e a difusão da Indústria 4.0 são fortemente influenciados por políticas sociais e fatores econômicos e não apenas por condições tecnológicas, como é frequentemente assumido. Por fim, temos de salientar o importante papel de políticas públicas, principalmente voltadas à recapacitação e atualização dos empregados”, disse Hirsch-Kreinsen.

A pesquisa comandada por Arbix, que envolveu cerca de 40 colaboradores, chegou a uma conclusão similar. Embora as soluções levantadas até agora incluam a criação de uma renda mínima universal e a taxação de robôs que retiram empregos, ele aposta em uma terceira, que é a requalificação, pelas empresas, dos empregados que estão marcados para perderem seus trabalhos por conta da automação.

“A conclusão é que Estado e governos têm um peso importante para tentar mitigar essa situação, ajudando as pessoas que podem ficar desempregadas a se requalificar. Isso junto com as empresas, evidentemente. Precisamos de mais pesquisas, mais intensas, mais globais e comparativas com outros países para entender o que ocorre aqui em relação ao que está acontecendo em outros lugares”, disse Arbix.

Para Hirsch-Kreinsen, uma vantagem do Brasil não ter avançado tanto na automação até agora é que pode evitar alguns erros cometidos por países que já passaram por esse processo. “Uma economia emergente como a de vocês pode pular alguns passos, em comparação ao que foi feito por outros países mais desenvolvidos e industrializados”, disse.

Mais informações sobre o evento: www.fapesp.br/eventos/7dialogue

 

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