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Entrevista exclusiva: Rosatom mira o Brasil e reforça protagonismo nuclear na transição energética

Com presença no IBEM 2026, estatal russa aposta no potencial brasileiro para expandir cooperação em energia nuclear, inovação e soluções de baixo carbono.

Redação TN Petróleo/Miza Tâmara
07/04/2026 18:49
Entrevista exclusiva: Rosatom mira o Brasil e reforça protagonismo nuclear na transição energética Imagem: Divulgação Visualizações: 136

A presença da Rosatom no Brasil tem ganhado cada vez mais relevância em um momento estratégico para o setor energético. Em meio aos desafios da transição energética e à busca por fontes estáveis e de baixo carbono, a energia nuclear volta ao centro das discussões globais, e o Brasil, com sua matriz diversificada e potencial de expansão, passa a ocupar uma posição de destaque nesse cenário.

Líder mundial em tecnologia nuclear, com atuação em mais de 50 países e forte presença em projetos internacionais, a Rosatom participou do International Brazil Energy Meeting 2026, realizado em Salvador. O evento reuniu os principais nomes da indústria de energia para discutir soluções integradas que envolvem desde fontes renováveis até inovação tecnológica e segurança energética.

Para aprofundar esse debate, a TN Petróleo entrevistou Ivan Dybov, à frente das estratégias da companhia na região, atuando na articulação de parcerias, expansão de negócios e posicionamento institucional da Rosatom em mercados latino-americanos, acompanhando de perto oportunidades em países como o Brasil, que desponta como um dos principais focos da empresa no continente.

Confira a entrevista!

TN Petróleo – A Rosatom é hoje uma das principais líderes globais em energia nuclear. Como a empresa enxerga o papel do Brasil dentro de sua estratégia internacional? 

Ivan Dybov – O Brasil é um parceiro estratégico para a Rosatom na América Latina. É justamente aqui, no Rio de Janeiro, que desde 2015 funciona o único centro regional da empresa em todo o continente, o que reflete a prioridade dada ao país em nossa estratégia internacional.

Hoje, a Rosatom é um dos poucos players globais capazes de oferecer soluções integradas ao longo de todo o ciclo de vida da energia nuclear. Isso inclui o desenvolvimento completo de projetos de usinas nucleares: desde o projeto e a construção das unidades geradoras até o fornecimento de combustível nuclear, serviços de operação e manutenção, gestão do combustível nuclear usado e o descomissionamento das instalações. Esse modelo integrado garante maior consistência tecnológica dos projetos e contribui para o desenvolvimento sustentável do setor.

Para um país que pensa não apenas nas necessidades atuais, mas também na segurança energética de longo prazo, esse tipo de abordagem é especialmente relevante: a confiabilidade do fornecimento, a integração entre as diferentes etapas do ciclo e a capacidade de planejar o desenvolvimento por décadas tornam-se fatores-chave. Por isso, vemos o Brasil como um país com potencial para reunir um amplo portfólio de projetos conjuntos, no ciclo do combustível nuclear, na geração de energia, nas aplicações não energéticas das tecnologias nucleares e na formação de especialistas.

A participação da Rosatom no IBEM 2026, em Salvador, reforça esse interesse. O que motivou a empresa a estar presente no evento e quais são as expectativas em relação ao mercado brasileiro?

Salvador, e de forma mais ampla o estado da Bahia, é uma região historicamente ligada ao desenvolvimento da base de recursos da indústria nuclear no Brasil. Aqui se localiza um dos principais depósitos de urânio do país — Lagoa Real (Caetité). A realização de um fórum setorial justamente nessa região cria uma oportunidade natural para discutir um dos elementos mais fundamentais de toda a cadeia nuclear — os recursos minerais. Foi a essa temática que dediquei grande parte da minha apresentação no IBEM: a situação do mercado global de urânio e as tecnologias modernas de mineração.

Segundo estimativas da Associação Nuclear Mundial (World Nuclear Association), até 2040 a demanda global por urânio pode mais que dobrar — de cerca de 67 mil para aproximadamente 150 mil toneladas por ano. Nesse contexto, países que possuem base própria de recursos passam a ter oportunidades adicionais para desenvolver o setor e fortalecer sua posição na indústria nuclear.

Nesse cenário, a Rosatom pode oferecer soluções tecnológicas concretas — em especial o método de lixiviação in situ (ISL). Hoje, esse é o principal método de mineração de urânio no mundo, e, no caso da Rosatom, sua participação na produção total atingiu cerca de 88% nos últimos 15 anos. A tecnologia se baseia na injeção de soluções específicas no reservatório por meio de poços, permitindo a extração do urânio sem a necessidade de mineração convencional, como minas a céu aberto ou subterrâneas. Entre suas principais vantagens estão menores investimentos de capital, prazos mais curtos para o início da produção e um impacto ambiental significativamente reduzido: não há formação de pilhas de rejeitos, a área de intervenção na superfície é menor e todo o processo é conduzido sob monitoramento ambiental contínuo. Por isso, essa tecnologia é hoje considerada uma das mais promissoras para o desenvolvimento da mineração de urânio em países com condições geológicas adequadas, incluindo o Brasil.

Quais são hoje as principais frentes de atuação ou interesse da Rosatom no Brasil?

Hoje, a cooperação da Rosatom com o Brasil está concentrada principalmente no ciclo do combustível nuclear. A empresa atende 100% das necessidades das usinas nucleares de Angra em urânio enriquecido e também desenvolve a cooperação nas etapas de conversão e enriquecimento do urânio brasileiro.

Ao mesmo tempo, vemos o Brasil como um país com potencial para o desenvolvimento da geração nuclear. A Rosatom ocupa hoje posições de liderança global na construção de usinas nucleares no exterior: o portfólio internacional da empresa inclui 41 unidades geradoras em 11 países, em diferentes estágios de implementação.

Um dos diferenciais da abordagem da Rosatom é que não trabalhamos com um modelo único para todos. Partimos das necessidades específicas de cada país — seu balanço energético, base industrial, ambiente regulatório e objetivos de longo prazo. Por isso, não falamos de um produto isolado, mas de um conjunto de soluções que podem ser adaptadas às necessidades do Brasil.

Os pequenos reatores modulares (SMRs) têm ganhado destaque no cenário global. Existe possibilidade de aplicação dessa tecnologia no Brasil? Em que estágio estão essas discussões?

Os pequenos reatores modulares são um dos segmentos mais dinâmicos da energia nuclear atualmente, e a Rosatom já possui experiência prática em sua operação. Na Rússia, está em funcionamento a usina nuclear flutuante Akademik Lomonosov, em Pevek, que fornece energia a uma região remota e demonstra o potencial dessas soluções para áreas com infraestrutura limitada.

Essas tecnologias são relevantes não apenas para territórios isolados, mas também para novas demandas — por exemplo, o fornecimento de energia para clusters industriais e data centers, onde são essenciais um suprimento estável e de baixo carbono.

Além disso, recentemente foi assinado o primeiro contrato de exportação para a construção de uma usina nuclear de pequeno porte no Uzbequistão. Trata-se não apenas da implementação de uma tecnologia específica, mas de um modelo flexível. Em um mesmo local, está prevista a combinação de unidades de grande e pequena potência, de acordo com as necessidades e características do sistema energético do país.

Se falarmos do Brasil, o potencial para a aplicação dessas soluções certamente existe. No entanto, esse é um tema que requer um diálogo profissional aprofundado, levando em conta as particularidades do sistema energético nacional, o ambiente regulatório e a estratégia de desenvolvimento de longo prazo do setor.

Como a energia nuclear pode contribuir para a transição energética brasileira, especialmente considerando a forte presença de fontes renováveis na matriz do país?

A energia nuclear não compete com as fontes renováveis — ela as complementa. Isso já é reconhecido em nível internacional: a energia nuclear é cada vez mais considerada parte essencial da matriz de baixo carbono e vem sendo incluída em diferentes taxonomias “verdes”.

Para o Brasil, isso é particularmente relevante. A geração solar e eólica tem crescido rapidamente, mas o sistema elétrico também precisa de fontes estáveis, despacháveis e de baixo carbono, que não dependam das condições climáticas ou do horário do dia. É justamente esse papel que a energia nuclear pode desempenhar — garantir uma geração de base confiável, aumentar a estabilidade do sistema e reduzir as emissões sem limitar o avanço das renováveis.

Por isso, na lógica da transição energética, não se trata de competição entre diferentes fontes, mas de uma combinação equilibrada entre elas.

A Rosatom também atua em áreas como medicina nuclear, inovação e formação técnica. Há iniciativas ou projetos em andamento ou em negociação no Brasil nessas frentes?

Sim, nessas áreas já existe cooperação prática, além de uma base sólida para sua expansão. Na medicina nuclear, a Rosatom já fornece radioisótopos ao Brasil, cobrindo uma parcela significativa da demanda do país por esses insumos. Esses produtos são utilizados em diagnóstico e tratamento — principalmente em oncologia, cardiologia e outras áreas de grande impacto social — e, em escala global, a produção da Rosatom permite a realização de mais de 2,5 milhões de procedimentos por ano.

No que diz respeito à formação de especialistas e ao trabalho com jovens, essa agenda também já está presente no Brasil. O Rio de Janeiro sediou o Fórum Latino-Americano da Juventude Nuclear, com a participação de estudantes e jovens profissionais brasileiros, e em 2025 representantes da Rosatom participaram do BRICS Youth Energy Summit no país, onde foram discutidos, entre outros temas, tecnologias de baixo carbono e pequenos reatores modulares (SMRs).

Além disso, a empresa desenvolve programas educacionais internacionais voltados para estudantes e jovens talentos, abertos também ao Brasil — como o projeto “Quebra-Gelo do Conhecimento”. Destaca-se ainda a vitória da equipe brasileira TupiTech no Global HackAtom da Rosatom — um resultado importante que demonstra o alto nível de formação e o interesse dos jovens especialistas brasileiros pela área nuclear.

O Brasil possui tradição no setor nuclear, mas ainda enfrenta desafios regulatórios e de expansão. Como a Rosatom avalia o ambiente institucional brasileiro para novos investimentos?

O Brasil possui uma base setorial sólida e um interesse claro no desenvolvimento da energia nuclear. Observamos sinais positivos, como o fortalecimento do sistema regulatório, a atenção do Estado ao desenvolvimento de toda a cadeia — desde a mineração de urânio até a geração de energia — e a inclusão da energia nuclear na estratégia de transição energética.

Ao mesmo tempo, para a implementação de novos projetos, um fator-chave continua sendo a previsibilidade e a transparência do ambiente regulatório — inclusive no que diz respeito ao licenciamento, à participação de investimentos privados e à construção de uma base normativa de longo prazo. O estabelecimento de regras claras e estáveis nessas áreas permitirá reduzir riscos e tornar projetos de grande porte mais viáveis.

Quais são os próximos passos da Rosatom no Brasil? Há perspectivas de anúncios, parcerias ou novos projetos no curto e médio prazo?

Sim, como próximo passo prático, podemos destacar o acordo assinado há poucos dias durante o Nuclear Summit 2026: a Uranium One Group, que integra a Rosatom, e a brasileira NBEPar acordaram a criação de uma joint venture chamada Nadina Minerals.
O objetivo da empresa é desenvolver projetos no Brasil na área de minerais críticos e estratégicos, incluindo a obtenção de licenças, a realização de atividades de exploração geológica e, posteriormente, a implantação de capacidades modernas de produção e processamento.

Trata-se de um passo importante — a transição da discussão sobre potencial para a implementação prática da cooperação e a formação de projetos de longo prazo no país.

Que mensagem a Rosatom deixa ao público do IBEM 2026 e aos atores do setor energético brasileiro?

Nossa principal mensagem é que a Rosatom está aberta a uma cooperação de longo prazo e orientada a resultados práticos, atuando como um parceiro confiável que oferece soluções competitivas e integradas.

Já temos experiência de cooperação com o Brasil — desde o fornecimento de combustível para as usinas de Angra até projetos na área de medicina nuclear. Ao mesmo tempo, a Rosatom atua em mais de 50 países e é líder global na construção de usinas nucleares no exterior, o que nos proporciona uma ampla experiência internacional na implementação de projetos de infraestrutura complexos.

Estamos prontos para utilizar essa experiência e, em conjunto com parceiros brasileiros, buscar soluções que atendam às necessidades do país — seja no desenvolvimento da geração de energia, do ciclo do combustível nuclear, de novas tecnologias ou da formação de especialistas. O mais importante é o diálogo e a realização de projetos que tragam resultados concretos.

 


 

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