América Latina

Em meio à escassez, Venezuela importou petróleo para enviar a Cuba

Reuters, 16/05/2018
16/05/2018 11:03
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A estatal petrolífera da Venezuela, a PDVSA, comprou o equivalente a US$ 440 milhões (R$ 1,6 bilhão) em petróleo e o enviou diretamente à Cuba com termos de crédito favoráveis, muitas vezes com prejuízo, de acordo com documentos internos da empresa aos quais a agência de notícias Reuters teve acesso.

As remessas são o primeiro exemplo documentado de um país-membro da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) comprando petróleo para suprir aliados regionais em vez de lhes vender produto das próprias reservas.

A Venezuela realizou as entregas com desconto, que não haviam sido relatadas anteriormente, apesar de sua necessidade imediata de moeda estrangeira para fortalecer sua economia em colapso e importar alimentos e remédios devido à escassez generalizada.

As aquisições de petróleo no mercado aberto para subsidiar um dos últimos aliados remanescentes de Caracas ressaltam seu isolamento global crescente e a desintegração de seu setor energético sob o comando do ditador Nicolás Maduro.

O negócio foi feito no momento em que a produção venezuelana de petróleo atingiu sua pior marca em 33 anos no primeiro trimestre —uma queda de 28 por cento em 12 meses. Suas refinarias estão operando com um terço da capacidade, e seus empregados estão se demitindo aos milhares.

A PDVSA comprou o petróleo por US$ 12 (R$ 44) o barril, mais do que cobrou quando o enviou a Cuba, segundo os preços que constam dos documentos internos vistos pela Reuters. Mas Havana pode nunca pagar os carregamentos em dinheiro, porque a Venezuela aceita bens e serviços cubanos em troca do óleo em respeito a um pacto assinado em 2000 pelos já falecidos Hugo Chávez e Fidel Castro.

As remessas subsidiadas visam manter o apoio político de Cuba, integrante de um grupo decrescente de aliados da Venezuela, segundo diplomatas, políticos e executivos da PDVSA. Procurados pela Reuters, nem a estatal, nem Caracas e nem Havana quiseram comentar.

Em ocasiões anteriores, a Venezuela tinha afirmado que importava petróleo apenas em duas situações: para misturá-lo com seu próprio produto, melhorando sua qualidade e facilitando a exportação; ou para fornecer a uma refinaria em Curaçao, um país caribenho que fica a cerca de 70 km da costa venezuelana.

Os documentos da PDVSA, porém, mostram que a empresa compra petróleo a preço de mercado e envia a aliados em carregamentos que não passam pelo território venezuelano. Os papéis detalham as importações e exportações da empresa entre janeiro de 2017 e maio de 2018.

O petróleo que a PDVSA enviou para Cuba tem origem russa e foi comprado de empresas chinesas, suíças e da própria Rússia.

Os documentos mostram que para pagar a compra, a estatal prometeu entregar futuramente carregamentos de petróleo às companhas envolvidas —não houve troca de dinheiro.

Isso aumenta ainda mais a dependência de Caracas de Pequim e Moscou. Juntos, os dois países já emprestaram cerca de US$ 60 bilhões (R$ 220 bilhões) para o governo Maduro se financiar, tendo como garantia o petróleo venezuelano.

O aumento do gasto com importações de petróleo também contrasta com a queda na compra de produtos no exterior.

Segundo dados do Banco Central Venezuelano e da consultoria Econalitica, de Caracas, as importações do país sem incluir petróleo caíram de US$ 46 bilhões (R$ 169 bilhões) em 2011 para US$ 6 bilhões (R$ 22 bilhões) em 2017.

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