Artigo

Como salvar nossos estaleiros? por Gustavo Pedreira

Gustavo Pedreira
15/04/2016 13:18
Como salvar nossos estaleiros? por Gustavo Pedreira Imagem: Divulgação Visualizações: 1872

Na semana passada, deparei-me com a seguinte notícia na mídia offshore internacional: Os três maiores estaleiros da Coréia podem se fundir.

Pensei comigo mesmo: seria isso possível no Brasil? Comecei a refletir e a tentar lembrar os fatos. Fiquem à vontade pra me corrigir se cometi algum deslize!

Nosso país conseguiu reerguer sua construção naval depois da crise dos anos 80/90. À partir do ano de 98/99, quando um armador brasileiro (CBO) iniciou a construção do primeiro navio de apoio marítimo (PSV) em solo brasileiro (Estaleiro Promar), o mercado brasileiro de navegação e construção voltou ao radar internacional, atraindo armadores estrangeiros, fornecedores e estaleiros internacionais.

No início desse século, o Estado do Rio de Janeiro era o pólo de construção naval, pois concentrava a grande maioria dos estaleiros. Havia um estaleiro em Sao Paulo, outro em Santa Catarina. Com exceção do EISA, eram estaleiros de pequeno para médio portes. Muitos estaleiros permaneciam fechados: Ishikawagima, Caneco. Outros focavam apenas no reparo.

Com o surgimento do PROMEF, outras plantas foram inauguradas: Estaleiro São Miguel, Estaleiro Aliança, Navship, Brasfels, Detroit, Erin, Keppel Singmarine, Inace. Outros acabaram falindo: Itajaí e Transnave.

Surgia um novo modelo de negócio: armadores com seus próprios estaleiros. Excelente para obter embarcações à preço de custo, com irrisória lucratividade, ou apenas para manter o estaleiro rodando, ajudando as empresas de navegação a tornarem-se mais competitivas nas licitações da Petrobras.

Com o programa da Transpetro, surgiu o segundo estaleiro de grande porte: Estaleiro Atlântico Sul (EAS), e o primeiro a ganhar uma concorrência como “estaleiro virtual”. Outra novidade: trouxe empresas grandes de outras áreas (Camargo Corrêa e Queiroz Galvão) em sua composição societária, juntamente com um parceiro estrangeiro que nunca tinha estado por nossas bandas: SAMSUNG. Nessa altura, a região norte-nordeste já contava com ERIN e Inace.

Com o boom da descoberta do Pré-sal, o EAS virou exemplo. Toda construtora grande brasileira se envolveu num estaleiro virtual de grande porte. Surgiram o Enseada, Ecovix, Estaleiro Rio Grande, Jurong e OSX.

Outros estaleiros resolveram duplicar suas plantas: VARD Promar inaugurou no Recife, EISA flertava com Maceió. E com sua compra, o Grupo CBO incorporou o Estaleiro Oceana.

A atividade ía de vento em popa. Até os bancos de investimentos invadiram a construção naval e empresas de navegação.

Dizem que o ideal seria se tivéssemos crescido de forma ordenada, ou transformando certa região em um pool de estaleiros, como feito na Coreia. Porém, nosso Brasil é uma República FEDERATIVA, onde estados tem suas leis e políticas de impostos, e brigam entre si para atrair novas indústrias, gerar empregos. Existem até mecanismos mais atrativos de financiamento para certas regiões! Cresceu super rápido e desorganizadamente.

Meu sonho era ter acesso a esses business plans! Queria saber qual era a expectativa de demanda, a análise de riscos, a lucratividade esperada e o retorno de investimento. Sem falar na necessidade de obras anuais para se manter esses estaleiro enormes e a famosa produtividade brasileira, junto com a segurança que um contrato assinado tem no Brasil.

Tenho minhas dúvidas se seria sustentável, mesmo se o barril de petróleo se mantivesse nos 115 dólares.

Também gostaria de ser apresentado aos magos que convenceram um banqueiro investidor que estaleiro gera lucros consideráveis. Porque pra banqueiro investir, tem que ser bastante lucrativo! No papel, tudo é lindo.

Existe um fenômeno que só acontece no Brasil. Existem “executivos” com muita experiência no setor naval. E existem gestores capacitados em outras indústrias. As duas coisas juntas inexistem. Raríssimos são os presidentes dessas empresas com mestrados em instituições sérias aqui ou no exterior. Prevalece a “gestão” do “vamos que vamos”, de cima para baixo, cercados de pessoas de confiança, “peixes, ou puxa-sacos; do manda quem pode e obedece quem tem juízo. Ou, então, um gestor com experiência na construção civil, mineradoras, cimenteiras, banqueiros, outros.

Inúmeras empresas de navegação foram constituídas pós pré-sal, ou alteraram o core business das mesmas. Os bancos de investimento também entraram no negócio. O mesmo se repetiu com as empresas de petróleo!

Bem, veio o escândalo da Lava-jato na Petrobras, Sete Brasil, Transporto e empreiteiras. E pra piorar, veio a queda violenta do preço do barril de petróleo. E como escrevi anteriormente, os bancos fecharam as torneiras. Lamentavelmente, inclusive o BNDES, que é o nosso banco de fomento.

E na hora que a indústria promissora inicia sua queda, os investidores sao os primeiros a pular do barco, procurando outra atividade, deixando quem vive e depende da construção naval brigando sozinho.

Esperar ajuda desse ou de qualquer governo? Melhor começarmos a agir. Como poderemos sair dessa?

Seguir a sugestão coreana?

Pressionar o BNDES para honrar o que se comprometeu daria sobrevida a alguns estaleiros, mas e o resto da demanda pra alimentar todos estaleiros?

Seria essa demanda os Petroleiros? Talvez. Especialmente se a Transpetro vender sua frota e estimular as licitações.

Seria a demanda por mais FPSO’s? Aqui dependeríamos do BNDES.

Encerrar com a importação de navios estrangeiros na tonelagem construída no Brasil?

Fiscalizar os abusos nas quebras de contrato leoninas da Petrobras?

Com esse patamar do dólar, houve melhora. Qual seria o ponto ideal para sermos competitivos na esfera global? E na produtividade?

Reduzir os salários estratosféricos e benefícios do management?

Seria a Lei José Serra?

Abrindo às petroleiras a possibilidade de serem operadoras? Não vejo progresso onde elas são operadoras. Tenho a impressão de que não conhecem a fundo os procedimentos e autoridades brasileiras (IBAMA, DPC, INEA, legislação, conteúdo local, etc). Muitas delas do 11 round da ANP estão atrasadas.

Dando o direito à Petrobras de focar apenas onde ela queira? Que juntamente com seu programa de venda de ativos e aumento das ações teria um futuro melhor.

Porta- Containeres?

LNG carriers & FSRU’s?

Pesqueiros?

Hubs logísticos x Navios de passageiros (crewboats) velozes e confortáveis (capazes de diminuir gastos com helicópteros) x Direitos obtidos pelo Sindipetro a viajar somente de Helicóptero?

Regulamentar tripulação estrangeira para que empresas nacionais não sejam prejudicadas, pagando sozinha todos adicionais offshore, enquanto os tripulantes gringos nem impostos pagam (dizem em seu país que pagam aqui)?

Mexer na política de Conteúdo local? Focando onde deveria-se focar:

After market: Lembrar que peças de reposição emergenciais tem que estar disponíveis aqui. E que uma plataforma, barco de apoio, FPSO ou petroleiro não podem sair de operação por falta ou deficiência das mesmas.

Monopólio do Aço – gerando custos absurdos na indústria naval e automobilística.

Valores competitivos dos equipamentos e materias aqui produzidos.

Qual mais?

Escreva aqui sua idéia!

Todas acima?

Fique à vontade pra comentar! Participem! Nossa indústria depende de nós.

Visite e envie sua mensagem: gustavopedreira.wordpress.com

 

 

 

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