Cotação

Alta do petróleo já faz economistas cortarem projeções para os EUA

Valor Econômico
08/04/2011 09:56
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Justo quando as empresas começam a aumentar as contratações, o preço do petróleo ameaça interromper os ganhos obtidos pela economia dos EUA. Alguns economistas já estão reduzindo suas estimativas de crescimento para este ano, em parte porque os salários achatados deixaram as famílias americanas com problemas para pagar a gasolina mais cara.


Ontem, o preço do petróleo superou os US$ 108 o barril, o maior nível desde 2008. A gasolina normal vendida nos EUA agora sai em média US$ 3,69 o galão, quase US$ 1 por litro, segundo pesquisa diária de preços da American Automobile Association (AAA). Há um ano o preço médio era US$ 0,86.


A alta é causada pela turbulência na Líbia e países produtores de petróleo do Oriente Médio e pelo aumento da demanda por energia resultante do fortalecimento da economia americana. Companhias aéreas, de transporte marítimo e outras empresas americanas estão sob pressão. A alta de preço está tensionando ainda mais a economia, que luta com uma alta taxa de desemprego e um mercado de imóveis residenciais deprimido.


"O aumento dos preços do petróleo desde o fim do ano passado já está provocando danos significativos à economia" diz Mark Zandi, principal economista da Moody's Analytics. Ao contrário de outros tipos de gastos do consumidor, a compra de gasolina proporciona menos benefícios para a economia americana. Cerca de metade da receita vai para países exportadores de petróleo, como Arábia Saudita e Canadá, embora companhias de petróleo americanas e varejistas de gasolina também sejam beneficiados. Para o consumidor, a energia mais cara desvia dinheiro que de outra forma seria usado na compra de moradias, automóveis, móveis, roupas e gastos com férias.


O alto preço da energia está "drenando o orçamento dos consumidores", disse James Hamilton, da Universidade da Califórnia em San Diego. "Como eles têm de gastar mais com gasolina, precisam fazer cortes em outras áreas."


Dois terços dos americanos dizem acreditar que a alta do preço da gasolina trará dificuldades para eles e suas famílias nos próximos seis meses, segundo uma nova pesquisa feita pela Associated Press-GfK. A pesquisa telefônica, feita entre 24 e 28 de março, tem uma margem de erro de 4,2 pontos percentuais para mais ou para menos.


Das pessoas ouvidas, 71% disseram que estão cortando suas despesas para compensar o preço da gasolina; 64% disseram que estão usando menos o carro; e 53% disseram que estão mudando os planos de férias e ficarão em casa.


"Tento não usar o carro aos sábados", diz Curt Lindsay, que também usa o transporte público para ir e voltar do trabalho. "Prefiro não gastar dinheiro com gasolina." Como os preços da gasoline superaram os US$ 3 o galão, Lindsay também vem tentando dirigir mais devagar para poupar combustível.


Albert Zaza, seu colega de trabalho numa empresa de sistemas de computação perto de Washington, cancelou viagens da família para Nova York e Boston depois que o custo de encher o tanque de seu carro subiu de US$ 35 para US$ 47. Zaza passa de quatro a cinco horas no trânsito todos os dias e abastece o carro dia sim, dia não.


A alta do petróleo também está sendo um problema para as empresas. A Grasshoper Law Care, empresa de jardinagem de Iowa, está aumentando a conta dos clientes em 5% para compensar o preço maior dos combustíveis. A companhia compra mais de 8.000 galões de gasolina por ano. Ela pretende manter a sobretaxa até os preços da gasolina voltarem a ficar abaixo dos US$ 3 o galão.


O choque do petróleo e a instabilidade global estão diluindo os benefícios da melhora no mercado de trabalho. A taxa de desemprego nos EUA, embora ainda elevada, está no menor nível em dois anos. E as contratações nos últimos dois meses foram as maior fortes desde o início da recessão.


O economista-chefe do Economic Outlook Group, Bernard Baumohl, baixou sua previsão de crescimento da economia americana este ano de 3,5% para 2,8%. Em 2010, a economia cresceu 2,9%.


O gasto do consumidor responde por cerca de 70% da economia dos EUA. Após ajuste à inflação e fatores sazonais, o gasto do consumidor cresceu 0,3% em fevereiro, em relação a janeiro. Mas isso não deverá durar. O preço da gasolina está aumentando justo quando a renda ajustada à inflação cai. A gasolina mais cara está drenando grande parte do dinheiro que os americanos estão recebendo de um corte nos impostos este ano.


Zandi estima que a alta dos preços do petróleo eliminou 0,5 ponto porcentual do crescimento no trimestre janeiro-março. Ele prevê que a economia vai crescer 2,6% no período. Se o preço médio do petróleo ficar em US$ 100 o barril para o ano, afirma Zandi, o crescimento será 0,3 ponto porcentual menor do que se os preços permanecerem no nível do ano passado - uma média de menos de US$ 80 o barril. Uns poucos meses com o petróleo a US$ 125 o barril iria afetar o crescimento econômico dos EUA em 1 ponto porcentual, diz Zandi. E uns poucos meses com o petróleo a US$ 150 poderia jogar a economia de volta à recessão.


Mas a alta do petróleo não prejudica todo mundo nos EUA. As empresas de petróleo, por exemplo, tendem a sair ganhando. Em 2008, a Exxon Mobil lucrou US$ 45 bilhões - um recorde para uma empresa americana - depois que os preços do petróleo atingiram o recorde de US$ 150 o barril.


Companhias de serviços de petróleo também se beneficiam, uma vez que o setor corre para encontrar e produzir mais petróleo. E os produtores de biodiesel e outras companhias de energias alternativas se tornam mais competitivos com o petróleo mais caro.


Em discurso na semana passada, Sandra Pianalto, presidente do Federal Reserve de Cleveland, disse que o preço do petróleo não continuará muito alto por um período suficiente para provocar danos. "Grandes aumentos nos preços dos alimentos e da energia tendem a ser temporários", disse. "A história mostra que eles são sempre seguidos por grandes quedas."


Mas Mark Pawlak, estrategista de mercado da Keefe, Bruyette & Woods, diz temer a repetição do que ocorreu com a economia no ano passado: ela ganhou força no início de 2010, mas empacou com a crise da dívida na Europa e a alta do petróleo entre fevereiro e abril.
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