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O setor de óleo e gás na transição energética: uma análise do Plano Estratégico da Petrobras (2024–2028), por Carolina Grobberio

Redação TN Petróleo/Assessoria
05/02/2026 15:53
O setor de óleo e gás na transição energética: uma análise do Plano Estratégico da Petrobras (2024–2028), por Carolina Grobberio Imagem: Divulgação Visualizações: 65

Historicamente associado às emissões de carbono e à degradação ambiental, o setor de óleo e gás concentra, paradoxalmente, parte significativa do capital, da infraestrutura e da capacidade tecnológica necessárias para viabilizar a transição energética em escala global. Por isso, proponho uma análise crítica do Plano Estratégico 2024–2028+ da Petrobras - documento que estabelece diretrizes, prioridades e o enquadramento conceitual da estratégia corporativa da companhia -, a partir do dilema central da transição energética: como empresas intensivas em carbono, especialmente no setor de óleo e gás, estão reposicionando suas estratégias diante das pressões climáticas, regulatórias e geopolíticas, sem abrir mão de seus modelos tradicionais de geração de valor.

O foco deste texto não é a avaliação do Plano de Negócio, divulgado periodicamente e voltados à execução operacional dessas diretrizes, mas sim uma análise dos pressupostos estratégicos, o enquadramento conceitual e a coerência entre o discurso institucional, prioridades de investimento e governança corporativa. E, nesse sentido, pode-se dizer que o Plano Estratégico da Petrobras extrapola a esfera empresarial. Trata-se de um documento que expressa uma visão de desenvolvimento energético para o Brasil, alinhada a uma conjuntura política específica e a uma dinâmica global marcada por tensões entre segurança energética, emergência climática e reconfiguração geopolítica. Analisar esse plano é, portanto, também analisar como o país se posiciona no debate internacional sobre transição energética, especialmente no contexto do Sul Global e da América Latina.

A problemática que orienta esta análise é clara: até que ponto a estratégia da Petrobras representa um movimento consistente de transformação em direção a um modelo energético de baixo carbono ou, alternativamente, uma estratégia de adaptação incremental que preserva a centralidade do petróleo e do gás sob uma nova narrativa de sustentabilidade? Essa questão não é exclusiva da Petrobras, mas reflete uma tendência observada globalmente entre grandes companhias de energia, que buscam conciliar compromissos climáticos com a continuidade de investimentos em ativos fósseis.

Essa discussão ganha densidade política quando inserida no debate sobre soberania energética. Em sua primeira fala pública relacionada à nova gestão da companhia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a Petrobras “carrega o DNA do povo brasileiro”, reforçando a ideia de que a empresa deve ser compreendida como instrumento histórico de desenvolvimento, autonomia, projeto nacional e agente econômico. Nesse sentido, o petróleo deixa de ser apenas uma commodity e passa a ser tratado como ativo estratégico, capaz de financiar políticas públicas, sustentar a transição energética e garantir margem de decisão soberana em um cenário internacional instável.

SOBERANIA ENERGÉTICA

A centralidade da soberania sobre recursos naturais torna-se ainda mais evidente quando observada à luz da conjuntura latino-americana. O caso da Venezuela é um exemplo extremo de como o petróleo pode operar simultaneamente como ativo de poder e fator de vulnerabilidade. Ao longo das últimas décadas, a forte dependência do petróleo, combinada a sanções econômicas e disputas geopolíticas com os Estados Unidos, resultou em severas restrições à capacidade soberana do país de decidir sobre sua produção e comercialização energética. Uma dimensão geopolítica que tem ganhado enorme relevância no debate energético latino-americano envolve a recente intervenção dos Estados Unidos sobre o petróleo venezuelano e sua relação com a noção de soberania dos recursos naturais.

Em uma escalada sem precedentes, Washington impôs um bloqueio naval e sanções que restringiram fortemente as exportações de petróleo venezuelano, argumentando razões de segurança e luta contra os regimes considerados hostis. Mais recentemente, após uma operação militar que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro no início de 2026, os Estados Unidos passaram a controlar e comercializar diretamente a produção de petróleo da Venezuela, gerando críticas de que isso configura uma forma de violação da soberania nacional venezuelana e do direito internacional sobre recursos naturais. Caracas repudiou tais medidas como uma tentativa de guerra colonial e de apropriação do seu petróleo, denunciando a intervenção perante a Organização das Nações Unidas e qualificando a ação como violação da Carta da ONU.

Ainda que o contexto brasileiro seja substancialmente distinto, a experiência venezuelana funciona como um alerta regional sobre como recursos estratégicos podem se tornar objeto de pressão externa em um sistema internacional assimétrico. E é nesse pano de fundo que o Plano Estratégico 2024–2028 deve ser compreendido.

Aprovado em 2023, o plano prevê investimentos totais de aproximadamente US$102 bilhões ao longo de cinco anos. Ao mesmo tempo em que reafirma o papel central do petróleo e do gás natural na segurança energética e na geração de caixa, o documento posiciona a sustentabilidade e a transição energética como eixos estratégicos da companhia. Essa combinação revela uma escolha explícita: a transição não é concebida como ruptura, mas como um processo gradual, financiado pelo próprio core business fóssil.

No contexto brasileiro, essa estratégia dialoga diretamente com a visão do atual governo sobre o papel do petróleo como ativo estratégico de desenvolvimento, geração de emprego e soberania energética. O discurso institucional reforça a ideia de que o Brasil pode e deve utilizar suas vantagens comparativas no setor de óleo e gás, especialmente no pré-sal, para financiar políticas de transição energética, inclusão social e reindustrialização. Esse posicionamento, no entanto, não está isento de controvérsias, sobretudo quando confrontado com a urgência climática e com os compromissos internacionais assumidos pelo país.

ACORDO DE PARIS

Entre esses compromissos, destaca-se o Acordo de Paris, tratado internacional adotado em 2015 no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, cujo objetivo central é limitar o aquecimento global a bem menos de 2 °C, com esforços para restringi-lo a 1,5 °C. Ao aderir ao acordo, o Brasil assumiu metas de redução de emissões de gases de efeito estufa e compromissos de longo prazo relacionados à neutralidade de carbono, que passaram a orientar políticas públicas e estratégias corporativas de empresas estatais, como a Petrobras.

É nesse contexto que se inscrevem as metas ambientais explicitadas no Plano Estratégico da companhia. O documento reafirma a ambição de atingir a neutralidade de carbono até 2050, a meta de Near Zero Methane até 2030 e a redução da intensidade de emissões nas operações, com referência explícita a um patamar de até 15 kg de CO₂ equivalente por barril de óleo equivalente. Além disso, a incorporação de indicadores ambientais como critérios para a remuneração variável de executivos sinaliza uma tentativa de internalizar a sustentabilidade nos processos decisórios da empresa, alinhando-se, ao menos formalmente, às diretrizes climáticas internacionais.

Do ponto de vista da alocação de capital, entretanto, permanece uma assimetria relevante. Um dos pilares centrais do plano é a manutenção  e, em alguns segmentos, a ampliação da produção de óleo e gás. Aproximadamente 72% do CAPEX total - investimentos em bens de capital físicos ou intangíveis realizados por empresas para adquirir, melhorar ou manter ativos fixos -, cerca de US$73 bilhões, estão destinados ao segmento de Exploração e Produção. Já o segmento de Baixo Carbono concentra cerca de 9% do CAPEX, o que corresponde a aproximadamente US$11,5 bilhões para iniciativas relacionadas à transição energética. Apesar de representar mais que o dobro do valor alocado no ciclo estratégico anterior, esse montante ainda constitui uma fração relativamente pequena quando comparado aos investimentos direcionados ao núcleo fóssil do negócio.

Essa assimetria recoloca o debate central que atravessa todo o plano: estaríamos diante de uma estratégia de transformação gradual e estrutural ou de uma abordagem predominantemente voltada à mitigação de impactos, sem alterar de forma substantiva o modelo de negócios da companhia? A Petrobras sustenta que a elevada produtividade, os baixos custos de extração e a menor intensidade de emissões do pré-sal justificam essa priorização, sob o argumento de que a geração de caixa do petróleo e do gás é condição necessária para viabilizar investimentos em descarbonização e em novos negócios.

Em uma perspectiva mais ampla, a estratégia da Petrobras se insere em uma tendência global observada entre grandes empresas estatais e privadas de energia. Em um cenário internacional marcado por crises energéticas, conflitos geopolíticos e revalorização da segurança do suprimento, o petróleo e o gás voltaram a ocupar posição central nas agendas nacionais, mesmo em países que lideram o discurso climático. Nesse sentido, o caso da Petrobras dialoga com diretrizes e dilemas globais, nos quais a transição energética se apresenta menos como um caminho linear e mais como um processo disputado, desigual e profundamente condicionado por interesses econômicos, políticos e geoestratégicos.

ESTRATÉGIA EM XEQUE

Essa análise revela que a transição energética, ao menos no caso brasileiro, não está sendo concebida como um processo de ruptura, mas sim como uma estratégia de adaptação gradual ancorada na continuidade da exploração de petróleo e do gás. Essa escolha não é neutra. Ela reflete uma leitura específica do papel do Brasil no sistema internacional, na qual soberania energética, segurança do suprimento e capacidade de investimento são tratados como pré-condições para qualquer avanço climático.

Do ponto de vista da soberania nacional, esse argumento é compreensível. Em um mundo marcado por disputas geopolíticas, crises energéticas recorrentes e assimetrias profundas entre países produtores e consumidores de energia, abrir mão prematuramente de ativos estratégicos pode significar reduzir a capacidade de decisão do Estado sobre seu próprio desenvolvimento. A experiência latino-americana, especialmente para o caso da Venezuela, demonstra que o controle sobre recursos naturais não garante, por si só, soberania, mas sua perda certamente amplia vulnerabilidades externas. Nesse sentido, a defesa do petróleo como ativo estratégico, expressa tanto no discurso governamental quanto na estratégia da Petrobras, responde a uma lógica concreta de poder e autonomia.

No entanto, a soberania energética não pode ser pensada em oposição à agenda climática, sob o risco de se transformar em um conceito defensivo e anacrônico. A permanência do petróleo como eixo estruturante da estratégia nacional só será compatível com os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil se vier acompanhada de uma aceleração real e não apenas discursiva da transição para um modelo de baixo carbono. Isso implica ir além da mitigação incremental de impactos e enfrentar, de forma transparente, os limites do modelo fóssil no médio e longo prazo.

Do meu ponto de vista, o Plano Estratégico da Petrobras explicita mais uma estratégia de gestão da transição do que um projeto de transformação estrutural. Ao tratar a sustentabilidade como dimensão relevante, mas ainda subordinada à lógica do core business, o plano preserva o petróleo como centro de gravidade da companhia, apostando que ganhos de eficiência, redução de intensidade de emissões e novos negócios periféricos serão suficientes para compatibilizar crescimento e clima. Trata-se de uma aposta de alto risco, sobretudo em um cenário internacional que exige respostas cada vez mais rápidas e consistentes à crise climática.

A questão central, portanto, não é se o Brasil deve ou não explorar petróleo, mas por quanto tempo, em que escala e sob quais condições essa exploração pode coexistir com um compromisso climático crível. Soberania, nesse contexto, não deve significar apenas o direito de explorar recursos naturais, mas a capacidade de liderar escolhas estratégicas que antecipem o futuro, em vez de reagir a ele. A verdadeira soberania energética do século XXI talvez não esteja em extrair mais petróleo, mas em decidir quando e como começar, de forma responsável, a depender menos dele.

Sobre a autora: Carolina Grobberio é jornalista com especialização em desafios globais, com ênfase nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, e em negócios e inovação. Atua no setor de energia e óleo e gás, com experiência em empresas nacionais e multinacionais, e em consultoria de projetos voltados à sustentabilidade e à transição energética.

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