Crise

Guerra no Oriente Médio – 10 Medidas para redução do consumo de petróleo, por Augusto Cruz

Redação TN Petróleo/Assessoria
17/04/2026 17:30
Guerra no Oriente Médio – 10 Medidas para redução do consumo de petróleo, por Augusto Cruz Imagem: Divulgação Visualizações: 99

O relatório Sheltering from Oil Shocks, da Agência Internacional de Energia (IEA), analisa um dos mais severos choques de oferta da história recente do mercado global de petróleo, desencadeado pelo conflito no Oriente Médio e pela quase paralisação do tráfego no Estreito de Ormuz. Nesse contexto, apresenta um conjunto estruturado de 10 medidas imediatas de redução do consumo, com potencial de implementação em poucas semanas e impactos mensuráveis.

O foco recai majoritariamente sobre o transporte rodoviário, responsável por cerca de 45% da demanda global de petróleo, podendo chegar a dois terços em alguns países. Entre as medidas, o incentivo ao trabalho remoto se destaca, com potencial de redução de 2% a 6% no consumo nacional de combustíveis automotivos, podendo alcançar até 20% por motorista individual. A redução de limites de velocidade em rodovias apresenta ganhos adicionais de eficiência, com economia de 5% a 10% por veículo, enquanto políticas de mobilidade urbana, como o estímulo ao transporte público, podem reduzir o consumo nacional em até 3%.

Antes da crise, cerca de 20 milhões de barris por dia — aproximadamente 20% do consumo global — transitavam pela região. Com a interrupção, esse volume caiu muito, provocando uma elevação significativa dos preços internacionais, que ultrapassaram US$ 100 por barril, com impactos ainda mais acentuados sobre derivados como diesel, querosene de aviação e GLP.

A magnitude do choque supera, em termos de volume de oferta comprometida, eventos históricos como a crise do petróleo de 1973, evidenciando a persistente vulnerabilidade estrutural do sistema energético global à concentração geopolítica da produção e das rotas logísticas. Como consequência, além da pressão inflacionária sobre combustíveis, observa-se um efeito cascata sobre cadeias produtivas, custos logísticos e poder de compra das famílias, especialmente em economias ainda sensíveis a variações de preços energéticos.

Diante desse cenário, a resposta internacional tem combinado medidas emergenciais de oferta com estratégias de contenção da demanda. Do lado da oferta, destaca-se a liberação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas pelos países membros da IEA — a maior ação coordenada já registrada pela Agência. Contudo, o relatório ressalta que a capacidade de resposta via aumento de produção é limitada no curto prazo, em função de restrições operacionais, logísticas e de investimento, reforçando a centralidade das medidas voltadas à gestão da demanda.

Outras medidas relevantes incluem a implementação de sistemas de rodízio de veículos, com economia estimada entre 1% e 5%, e o incentivo ao carpooling e à condução eficiente, com potencial de redução de até 8% no consumo de combustíveis. No transporte de cargas, práticas de direção eficiente e otimização logística podem reduzir o consumo em 3% a 5%, com impacto direto sobre o diesel — um dos derivados mais pressionados no atual contexto.

O relatório também amplia a análise para outros setores estratégicos. No transporte aéreo, a redução de viagens corporativas pode gerar uma diminuição de 7% a 15% na demanda por querosene de aviação, evidenciando o papel da digitalização e da substituição de deslocamentos físicos. No uso doméstico, especialmente em países emergentes, destaca-se a importância de preservar o GLP como combustível essencial para cozinhar, incentivando a substituição de seu uso em transportes por gasolina e a adoção de alternativas energéticas modernas.

Já na indústria, medidas de eficiência operacional e flexibilidade no uso de insumos petroquímicos podem reduzir o consumo de petróleo em até 5% por instalação. Quanto às políticas públicas, o relatório enfatiza que intervenções governamentais são fundamentais, tanto para induzir mudanças comportamentais quanto para mitigar impactos sociais. No entanto, destaca que os instrumentos fiscais encontram-se pressionados após sucessivas crises recentes (notadamente 2021– 2023), tornando essencial ter foco em subsídios e mecanismos de proteção nos grupos mais vulneráveis. Além disso, ressalta-se o papel das campanhas de conscientização e da coordenação entre diferentes níveis de governo e setor privado para maximizar a eficácia das medidas.

Por fim, o documento reforça que, embora as ações de curto prazo sejam essenciais para amortecer os impactos imediatos, elas não substituem a necessidade de soluções estruturais. A única medida capaz de restabelecer plenamente o equilíbrio de mercado é a normalização dos fluxos pelo Estreito de Ormuz. Paralelamente, o relatório aponta para a urgência de estratégias de longo prazo voltadas à eficiência energética, diversificação da matriz e redução da dependência de combustíveis fósseis, como forma de aumentar a resiliência dos sistemas energéticos frente a choques geopolíticos recorrentes.

Em síntese, o relatório evidencia que a segurança energética contemporânea depende de uma abordagem integrada, na qual a gestão da demanda assume papel estratégico equivalente ao da expansão da oferta, exigindo coordenação entre governos, empresas e sociedade para reduzir riscos econômicos, sociais e geopolíticos associados à volatilidade do petróleo.

Sob a perspectiva ESG, o cenário descrito no relatório reforça a interdependência entre segurança energética, sustentabilidade e governança global. A volatilidade dos preços do petróleo e a exposição a choques geopolíticos evidenciam riscos materiais relevantes, tanto para empresas quanto para governos, impactando diretamente dimensões sociais — como o custo de vida e o acesso à energia — e ambientais, ao potencialmente retardar ou acelerar decisões relacionadas àdescarbonização. Nesse contexto, as medidas de gestão da demanda propostas pela IEA dialogam diretamente com princípios de eficiência energética, uso responsável de recursos e redução de emissões. Ao mesmo tempo, a crise reforça a necessidade de aceleração da transição energética, com investimentos em fontes renováveis, eletrificação de transportes e soluções de baixo carbono, como estratégia não apenas ambiental e climática, mas também de resiliência econômica e estabilidade regulatória. Assim, mais do que uma resposta emergencial, a agenda proposta aponta para um reposicionamento estrutural, no qual práticas ESG deixam de ser diferenciais e passam a constituir elementos e nergético e de suas cadeias de valor.


Sobre o autor: Augusto Cruz, advogado, professor, escritor e sócio-diretor da AC Governança e Sustentabilidade. centrais na gestão de riscos e na sustentabilidade de longo prazo do setor. 
 

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