Crise

Estreito de Hormuz: quando a guerra deixa de ser manchete e vira gargalo físico da cadeia de suprimentos, por Alexandre do Valle

Redação TN Petróleo/Assessoria
10/04/2026 10:21
Estreito de Hormuz: quando a guerra deixa de ser manchete e vira gargalo físico da cadeia de suprimentos, por Alexandre do Valle Imagem: Divulgação Visualizações: 110

Há momentos em que a geopolítica deixa de ser assunto de gabinete e passa a atuar como uma chave que fecha a porta da indústria global. 

O Estreito de Hormuz é exatamente isso hoje. Trata-se do corredor marítimo mais sensível do sistema energético mundial, por onde passa perto de um quinto do petróleo global e cerca de 20% do comércio mundial de GNL. 

Quando esse corredor sofre bloqueio, restrição militar ou operação parcial, o impacto não fica restrito ao preço do barril. Ele atravessa refinarias, contratos de frete, prêmios de seguro, cronogramas de EPC, disponibilidade de insumos e, no fim da linha, a continuidade dos projetos.

O que está acontecendo agora é mais grave do que uma simples oscilação de mercado. Mesmo após o anúncio de cessar-fogo, o fluxo por Hormuz permanece perto da paralisia em vários momentos, com exigência de autorização iraniana para passagem, relatos de apenas uma fração dos navios cruzando o estreito e centenas de embarcações ainda represadas na região. 

Em linguagem de supply chain, o canal não foi reaberto de fato, apenas saiu de “bloqueio total” para uma espécie de operação assistida, lenta e insegura. Para operadores de petróleo e gás, isso equivale a tocar uma planta crítica com a válvula principal semiaberta e sem saber se ela fecha de novo amanhã.

O primeiro impacto aparece no óleo e no gás, mas o segundo impacto, muitas vezes menos discutido, atinge em cheio a cadeia de suprimentos industrial. 

O Oriente Médio não exporta apenas energia. A região é eixo relevante para derivados, petroquímicos, fertilizantes, GLP e uma série de correntes logísticas que alimentam fabricação, manutenção e expansão de projetos. 

Quando há ruptura nesse fluxo, o efeito dominó chega aos canteiros: peças atrasam, insumos encarecem, fornecedores revisam prazos e o CAPEX perde previsibilidade.
É nesse ponto que a leitura precisa subir de nível. Grandes consultorias globais como a McKinsey & Company e a EY já vinham alertando, mesmo antes desta crise, que as cadeias de suprimentos energéticas estavam excessivamente concentradas em corredores logísticos críticos e vulneráveis a choques geopolíticos. 

Estudos dessas organizações indicam que eventos como o atual conflito no Golfo não devem mais ser tratados como exceções, mas como parte de um novo padrão estrutural de risco. 

O conceito de resiliência deixou de ser apenas redundância de fornecedores e passou a envolver diversificação geográfica, visibilidade em tempo real e capacidade de reconfiguração rápida da cadeia. 

O que vemos hoje no Estreito de Hormuz é, na prática, a materialização desse alerta: empresas que ainda operam com cadeias lineares e dependentes de rotas únicas estão pagando o preço mais alto, não apenas em custo, mas em perda de previsibilidade e continuidade operacional.

A partir daí, o tema deixa de ser apenas energético e passa a ser contratual e operacional. Um projeto offshore, uma expansão de refino ou uma campanha de manutenção pesada dependem de fluxo contínuo de válvulas, cabos, químicos, sobressalentes e transporte marítimo confiável. Se o navio não cruza, o cronograma não anda. Se o prêmio de guerra sobe, o orçamento estoura. Se a janela logística fica imprevisível, o fornecedor se protege, o armador repassa custo e o dono do projeto absorve atraso.

Os preços mostram esse estresse de forma clara. O petróleo voltou a patamares elevados, com picos recentes que refletem não apenas oferta e demanda, mas o risco logístico embutido. Em paralelo, custos de frete, seguro e até discussões sobre taxas de travessia passaram a compor o preço final das operações. 

O frete, nesse cenário, deixa de ser detalhe e passa a ser variável estratégica dentro da formação de custo total de aquisição.

Para o Brasil, o assunto também deixou de ser distante. A queda nas exportações para o Oriente Médio já mostra que a perturbação alcança fluxos comerciais concretos. Para empresas brasileiras com contratos, fornecedores ou operações conectadas ao Golfo, o impacto é direto: aumento de custo, atraso de entregas e maior exposição a risco contratual.

O ponto mais sensível, no entanto, talvez não seja o preço, mas a confiança. Quando um corredor logístico como Hormuz perde previsibilidade, o mercado começa a redesenhar rotas, rever dependências e acelerar alternativas. E isso costuma durar mais do que o próprio conflito.
Para as empresas de petróleo e gás, a leitura estratégica é clara. O Estreito de Hormuz deixou de ser apenas um ponto geográfico. Ele se tornou um risco sistêmico que conecta geopolítica, energia e cadeia de suprimentos. Ignorar isso é tratar um problema estrutural como se fosse apenas volatilidade de curto prazo.

Sobre o autor: Alexandre do Valle é PhD na área de engenharia de suprimentos com foco em projetos digitais pela Universidade Federal Fluminense. Mestrado em tecnologia de Blockchain com foco em ferramentas e processos de digitalização para a cadeia de suprimentos. Pós-graduação em Gestão de Projetos pela Universidade Federal Fluminense e MBA em Projetos de Energia e ESG pela COPPE, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Consultor sênior para a empresa 2BSUPPLY. Psicanalista e Coach Profissional com certificação pelo IGT, International Coach Federation e ICF Brasil, tendo como ênfase análise comportamental e clareza de metas nas áreas profissionais e pessoais.

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