Artigo

Brasil no centro da transição energética: Como transformar potencial em liderança global, por Paulo Toledo

Assessoria Ecom
22/04/2025 22:27
Brasil no centro da transição energética: Como transformar potencial em liderança global, por Paulo Toledo Imagem: Divulgação Visualizações: 3160

Há alguns meses, durante uma reunião com investidores internacionais, ouvi uma pergunta que ecoa até hoje: "O Brasil tem todos os recursos para liderar a economia verde, mas por que ainda não é visto como protagonista?". A resposta, descobri, está menos no que temos e mais em como estamos agindo.

A transição energética não é só sobre tecnologia; é uma revolução geopolítica. Países que combinarem recursos naturais, capacidade industrial e visão estratégica definirão as regras do jogo nas próximas décadas. 

Segundo o relatório do Laboratório de Política Industrial Net Zero da Johns Hopkins, o Brasil está entre os poucos com dotações únicas: 15% da água doce do planeta, a maior biodiversidade, sol, vento e minerais críticos como nióbio e lítio. Imagine um país que pode produzir aço verde usando hidrogênio de fontes renováveis, biocombustíveis para aviação a partir de resíduos agrícolas e fertilizantes sem dependência de petróleo. Esse país é o Brasil.


O relatório da Johns Hopkins destaca que, dos sete setores-chave para a economia verde em 2050, temos condições de liderar em pelo menos cinco até 2030. Por quê?

  • Base consolidada: Somos referência em hidrelétricas, bioenergia e agricultura de baixo carbono. A Embrapa , por exemplo, mostrou que é possível aliar produtividade e sustentabilidade — um modelo a ser replicado.
  • Recursos estratégicos: Além de vento e sol, temos reservas de terras raras essenciais para turbinas eólicas e baterias.

Mas, como CEO de uma empresa de energia renovável e conselheiro de administração de empresas no setor elétrico que já viu ciclos econômicos surgirem e caírem, digo: recursos são só o começo. O desafio é transformá-los em ação coordenada. Não se trata só de extrair e exportar. O relatório alerta que, se ficarmos na zona de conforto de commodities verdes, perderemos a chance de agregar valor. A Coreia do Sul nos anos 1990 não virou potência tecnológica exportando minérios, mas dominando cadeias inteiras, como a de semicondutores. Precisamos do mesmo foco.


Os desafios da nova indústria brasileira: foco, governança e educação

A Nova Indústria Brasil (NIB), com seus US$ 60 bilhões em investimentos, é um passo visionário, mas arriscado. O relatório da Johns Hopkins aponta que políticas industriais bem-sucedidas exigem três pilares: 

  • Metas específicas: Em vez de tentar abraçar sete setores de uma vez, por que não priorizar dois ou três? Dominar 25% do mercado global de bioquerosene até 2030, por exemplo, exigiria integração entre agroindústria, logística e inovação.
  • Governança colaborativa: Na Alemanha, o Fraunhofer Institute reúne governo, empresas e academia para ajustar políticas em tempo real. Aqui, falta um fórum permanente para alinhar interesses — e isso custa tempo e recursos.
  • Educação técnica: A educação também precisa ser priorizada. O setor de energias renováveis exige mão de obra qualificada, que são essenciais para evitar a dependência tecnológica externa e continuar a importar know-how. Um dado me preocupa: apenas 5% dos jovens brasileiros optam por cursos técnicos, contra 40% na Alemanha. Como construir uma indústria verde sem mão de obra qualificada?

Como próximos passos, há três movimentos urgentes, tanto para empresas quanto para governos:

  • Clusters estratégicos: Escolher cadeias prioritárias e replicar o modelo da Embrapa, que transformou o agronegócio com pesquisa focada. Exemplo: integrar produção de SAFs (combustíveis de aviação sustentáveis) com mineração verde, criando sinergias entre setores.
  • Financiamento inteligente: O BNDES pode emitir green bonds para projetos que combinem energia eólica, hidrogênio e mineração sustentável.
  • Diálogo global: Precisamos de acordos comerciais que reconheçam o valor agregado dos produtos verdes brasileiros. A Europa e os EUA buscam parceiros confiáveis na transição; temos que nos posicionar não como fornecedores, mas como co-criadores de soluções.

Por fim, há uma frase no relatório da Johns Hopkins que resume tudo: "O Brasil tem uma janela de 5 a 7 anos para consolidar sua liderança verde". Não se trata de ser otimista ou pessimista, mas realista: o mundo não esperará por nós.

Aos líderes empresariais e governamentais, deixo um convite: em vez de replicar modelos ultrapassados, vamos construir uma nova economia onde recursos naturais e indústria de ponta andem juntos. 

O Brasil não precisa ser apenas o "celeiro" ou o "reservatório" do mundo. Podemos ser os arquitetos de um sistema energético mais justo e eficiente. Mas, para isso, é hora de trocar discursos por ações — e fazer da transição energética não um projeto de governo, mas um pacto nacional.


Sobre o autor: Paulo Toledo é CO-CEO e fundador da Ecom. Ele é graduado em Administração de Empresas e possui MBA pela Universidade de São Paulo (USP), com especialização pela Kellogg School of Management.

Mais Lidas De Hoje
veja Também
Biometano
ANP credencia primeiro Agente Certificador de Origem (AC...
07/04/26
ANP
Conteúdo local: ANP ultrapassa marco de 30 TACS
07/04/26
Cana Summit
Juros elevados e crédito mais restrito colocam fluxo de ...
07/04/26
BRANDED CONTENT
Intercabos® lança novo site e concretiza presença no mer...
07/04/26
PPSA
União recebe R$ 917,32 milhões por redeterminação de Tupi
07/04/26
Combustíveis
ETANOL/CEPEA: Preço médio da safra 25/26 supera o da tem...
07/04/26
Estudo
Brasil amplia dependência de térmicas, mas falta de esto...
06/04/26
Oferta Permanente
Oferta Permanente de Partilha (OPP): ANP publica novo edital
06/04/26
Tributação
Infis Consultoria promove 4º Seminário Tributação em Óle...
06/04/26
Hidrogênio Verde
Estudo no RCGI mapeia regiões com maior potencial para p...
06/04/26
Diesel
Subvenção ao diesel: ANP inicia consulta pública de cinc...
02/04/26
GLP
Supergasbras realiza a primeira importação de BioGL do B...
02/04/26
Cana Summit
Setor sucroenergético avalia efeitos da Reforma Tributár...
02/04/26
Rio de Janeiro
Para Firjan juros em dois dígitos e rigidez fiscal barra...
02/04/26
Resultado
Com 5,304 milhões de boe/d, produções de petróleo e de g...
02/04/26
Logística
Vast realiza primeira operação de transbordo de petróleo...
01/04/26
ANP
Audiência pública debate revisão de resolução sobre aqui...
01/04/26
Biocombustíveis
RenovaBio: ANP divulga metas definitivas para as distrib...
31/03/26
Drilling
Norbe IX, da Foresea, conclui parada programada de manut...
31/03/26
Etanol
Produtor de cana avança com novas estratégias para reduz...
31/03/26
Firjan
Estado do Rio pode receber mais de R$ 526 bilhões em inv...
31/03/26
VEJA MAIS
Newsletter TN

Fale Conosco

Utilizamos cookies para garantir que você tenha a melhor experiência em nosso site. Se você continuar a usar este site, assumiremos que você concorda com a nossa política de privacidade, termos de uso e cookies.

23