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Implicações da Covid-19 no sistema produtivo submarino da indústria petrolífera brasileira, por Manuel Victor M. de Matos

03/08/2020 | 14h12
Implicações da Covid-19 no sistema produtivo submarino da indústria petrolífera brasileira, por Manuel Victor M. de Matos
Divulgação Divulgação

Anteriormente à crise sanitária do vírus Covid-19, as empresas e instituições envolvidas com o sistema produtivo submarino (SPS) da indústria petrolífera se encontravam em um contexto de grande expectativa de reanimação do mercado. Não era por menos, já que os efeitos esperados da tendência de aumento de produção no pré-sal, da maior diversificação de petrolíferas no mercado, do avanço na fronteira tecnológica e das mudanças na cláusula de investimentos de PD&I começariam a aparecer a partir de 2020.

Não se sabe a extensão da crise atual na economia mundial, e consequentemente, os impactos causados a longo prazo. Mas, existem sinais de recuperação.

Apesar da forte queda da demanda e preço vivenciados em meio à pandemia e da inerente reestruturação dos negócios na cadeia produtiva global, o SPS brasileiro ainda mantém boas perspectivas e, pode ser importante na retomada econômica do Brasil. Os projetos offshore variam entre eles e, por um lado; são de alto risco, longa duração e custosos, mas por outro; são menos sensíveis às flutuações de preços.

A avaliação dos impactos da pandemia no sistema produtivo submarino perpassa por dois fatores em especial: a maior volatilidade dos preços e da demanda e o aprendizado retirado das experiências e ações recentes com a queda dos preços de 2014.

A crise dos preços de 2014 foi marcada pela falta de licitações e projetos e pelo descompasso financeiro do CAPEX e OPEX. Neste sentido, na crise sanitária atual é possível verificar uma situação melhor, levando em conta a necessidade de andamento dos projetos em curso e o alinhamento das finanças e dos preços de bens e serviços de petrolíferas e fornecedoras do SPS brasileiro.

Entretanto, o aspecto mais importante da experiência passada com mais impacto para a crise atual é a compreensão dos ganhos de competências e capacidades tecnológicas e de eficiência e redução de custos em esforços de desenvolvimento de inovações em organizações e instituições ligadas ao Estado e à indústria petrolífera.

Quanto ao impacto do fator demanda, a retomada do consumo de petróleo ocorrerá com o retorno gradual das atividades e a redução do uso de carvão em economias intensivas neste produto. Há sinais de recuperação com o retorno do consumo chinês e a extensão do acordo da OPEP1 . O gás liquefeito ganha importância por ser um produto de transição às energias renováveis e que contou com um avanço tecnológico de logística e transporte importante.

InstitucionalNo Brasil, a Petrobras reafirmou o enfoque na produção do pré-sal como já era anunciado no Plano de Negócios e Gestão 2019-2023. Isso por si só é suficiente para continuar a trajetória de aumento da produção e da demanda por bens e serviços do SPS, mesmo que em uma aceleração menor daquela esperada em 2020. Além disso, a demanda pelo gás deve ser ampliada com a reforma de liberalização do mercado e com o compromisso da Petrobras no escoamento das reservas do pré-sal, apesar das limitações técnicas relativas às condições dos reservatórios e do layout submarino.

Pelo lado do aprendizado, o cenário de resposta das empresas petrolíferas e fornecedoras do SPS em meio à pandemia, que se pese a proporção dos impactos, é próximo daquele referente à queda dos preços de 2014. Ou seja, maior competição entre projetos de campos de E&P, reestruturação de negócios e foco em inovações de impacto rápido em custos e eficiência. A habilidade adquirida pelas empresas do SPS brasileiro na gestão do enfrentamento gerou rotinas e ações focadas na avaliação de impactos.

Nos últimos anos, o aumento da produção em águas ultraprofundas, dos investimentos em PD&I e da cultura colaborativa resultaram em avanços significativos na fronteira tecnológica da indústria e na melhor competitividade de breakeven dos projetos de águas ultraprofundas.

O desenvolvimento e produção de equipamentos de controle e transporte de fluxos são atividades consolidadas no país e referência a nível mundial, sendo parte importante da estratégia de negócios das multinacionais integradas no SPS. O desenvolvimento de equipamentos de processamento submarino e a inserção de tecnologias de digitalização e de materiais avançados são fundamentais na obtenção de ganhos econômicos nas operações. Neste ponto está a centralidade da expertise das redes de colaboração brasileiras que auxilia na disponibilização de soluções tecnológicas viáveis.

Entretanto, há espaço para obter ganhos tecnológicos e econômicos à toda a cadeia de bens e serviços do SPS, dependendo da promoção da cultura colaborativa de modo amplo e efetivo. Um fator fundamental para isso se concretizar está na disposição das grandes empresas multinacionais a participar em redes tecnológicas e dividir ações com o devido apoio das petrolíferas e da ANP, capazes de definirem algumas diretrizes de demanda e tecnologia. A ANP tem se mostrado mais aberta à resolução de dúvidas e informações, reduzindo a incerteza dos projetos de PD&I.

Um instrumento em favor desse processo são as mudanças na cláusula de PD&I, por valorizar os desenvolvimentos nacionais e permitir a construção de redes com atores diversos. As petrolíferas já sinalizaram positivamente para esta estratégia, até porque as experiências com redes de PD&I que reúnam petrolíferas, instituições de pesquisa, empresas de diferentes portes e start ups se mostraram muito efetivas por combinarem interesses de negócios e pesquisa.

A pandemia de Covid-19 tem mostrado as principais fragilidades e acelerado processos em curso de vários sistemas produtivos. Isso não será diferente no SPS e pode expor a necessidade de promover a cultura colaborativa para o desenvolvimento de soluções tecnológicas e inovações que viabilizariam e melhorariam as condições tecnoeconômicas da produção de campos com grandes reservas de petróleo e gás.

O SPS tem a oportunidade de ser mais do que um sistema produtivo fundamental da indústria brasileira e se tornar, com os devidos estímulos de políticas públicas e ações empresariais, um núcleo dinâmico da indústria brasileira2. O primeiro passo é a mobilizar e combinar interesses em comum, já que existe um enorme esforço de investimentos, de recursos humanos e de competências tecnológicas no país.

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1 https://edition.cnn.com/2020/04/12/energy/opec-deal-production-cut/index.html

https://valor.globo.com/mundo/noticia/2020/05/11/estoques-de-petroleo-param-de-crescer-nachina.ghtml

2 MATOS, Manuel Victor Martins de. Desenvolvimento tecnológico e indústria petrolífera brasileira: as redes e estratégias do sistema produtivo submarino. Tese de Doutorado. Instituto de Economia – Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2020.

Sobre o autor: Manuel Victor Martins de Matos é economista e tem doutorado em políticas públicas, estratégias e desenvolvimento pela UFRJ. Desenvolve pesquisas e tem publicações em temáticas relativas à indústria petrolífera e ao desenvolvimento socioeconômico, regional e tecnológico.



Fonte: Manuel Victor Martins de Matos
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