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Biocombustíveis

Recuo menor no consumo de etanol já afeta os estoques

15/03/2011 | 09h39
Apesar do preço mais alto do etanol hidratado, o consumidor brasileiro não está migrando para a gasolina com a intensidade que o setor de combustíveis imaginava. As vendas caíram 26% em fevereiro na comparação com dezembro, mês referência por ser o de maior consumo. Mas, o Sindicom, que representa as distribuidoras de combustíveis do país, informa que esperava que essa queda fosse mais acentuada, entre 40% e 50%.
 

Com esse cenário, a preocupação do mercado é que os estoques de passagem de etanol - não divulgados - sejam suficientes para atender o consumo até o início da próxima safra de cana, a partir de abril. Postos de São Paulo, Estado maior produtor nacional do biocombustível, relatam que já há racionamento na entrega do produto pelas distribuidoras.
 

José Alberto Gouveia, presidente do sindicato que representa os postos de combustíveis de São Paulo (Sincopetro-SP), afirma que não se trata de falta de produto, mas de administração mais cautelosa dos estoques por parte das distribuidoras. Desde a última semana, essas empresas não estão entregando todo o volume solicitado pelos postos. "Se pedimos 18 mil litros, por exemplo, recebemos 10 mil litros. Acredito que seja para evitar que uma revenda fique com muito e outra com pouco".
 
 
Tudo isso porque o consumidor e seu carro flex não estão regulando o mercado. Esperava-se que quando os preços do etanol atingissem mais de 70% do valor da gasolina, o proprietário do carro fosse migrar para a gasolina, o que não vem ocorrendo na intensidade imaginada.
 

Desde janeiro, o consumo de etanol vem caindo menos do que o esperado e em fevereiro esse comportamento se repetiu. "Em março, os relatos também são de que o consumo não está recuando como esperado", diz Alisio Mendes Vaz, diretor do Sindicom, cujas associadas representam 60% do mercado de etanol hidratado do país.
 

O levantamento da entidade mostra que em fevereiro deste ano a venda de etanol foi de 650 milhões de litros, 26% mais baixa do que os em dezembro de 2010. No mesmo intervalo de um ano atrás, a demanda havia caído 55%.
 

O comportamento do consumidor neste ano é um mistério, pois só está compensando usar etanol em Mato Grosso. Além disso, em fevereiro deste ano, os preços na usina foram, em média, 7,3% maiores do que em fevereiro de 2010.
 

Gouveia, do Sincopetro do Estado de São Paulo, acredita que mais uma vez o motorista não está fazendo conta na hora de abastecer. Analistas acreditam também que a mídia de massa não tratou da alta do etanol na bomba com a mesma intensidade da realizada no ano passado.
 

Tarcilo Rodrigues, diretor da Bioagência, uma das maiores comercializadoras de etanol do país, avalia que o repasse de preços ao consumidor final não está chegando na mesma velocidade da alta na indústria. Ele argumenta que os preços do biocombustível na usina subiram 28% entre dezembro de 2010 e março deste ano, enquanto na bomba, esse reajuste ficou na casa dos 8%. "As usinas são apenas um elo da cadeia. Há ainda as distribuidoras e os postos, estes últimos, muitas vezes, com elevada concorrência entre si, o que pode ajudar a explicar o porquê da resistência em repassar preços", diz.
 

Vaz, do Sindicom, acredita que nos próximos dias as pesquisas da Agência Nacional de Petróleo (ANP) devem mostrar um repasse maior dos preços ao consumidor. "Essa demanda persistente preocupa, pois mantém pressão sobre os estoques. Somente com um choque de preços o consumidor vai mudar sua percepção", diz Vaz.
 

Procurada, a ANP não retornou para comentar o monitoramento dos estoques privados. A União da Indústria da Cana-de-açúcar afirmou em nota que não tem expectativa de problemas de abastecimento. Analistas ouvidos pelo Valor acreditam que distribuidoras que não têm contrato de compra, ou seja, estão no mercado spot, podem ter dificuldades pontuais para adquirir o produto até a entrada da nova safra. Mas que os volumes já contratados estão assegurados.


Fonte: Valor Econômico
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