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Energia Eólica

Os vendedores de vento do sertão

01/12/2011 | 15h52
Pouco a pouco, uma vida nova se esboça para centenas de famílias do sertão nordestino. Castigados pelo clima e o árduo trabalho na roça que os fizeram brutos, mas também fortes, esses homens e mulheres vivem hoje da expectativa de que os ventos continuem soprando. Cabreiros pelo inusitado, mas decididos em realizar seus sonhos de que os filhos tenham uma vida diferente, esses sertanejos se tornaram, literalmente, vendedores de vento.

Mais de 150 mil hectares de terras, de pequenos e grandes proprietários, estão sendo ou já foram arrendadas no Nordeste afora por investidores do setor de energia que vão gerar eletricidade a partir dos ventos. Juntos, esses terrenos vão abrigar cerca de quatro mil torres eólicas com capacidade conjunta para gerar 5.400 megawatts (MW), toda essa energia já foi contratada pelo governo ou por grandes consumidores. Cada uma das torres renderá entre R$ 5 mil e R$ 8 mil por ano aos proprietários que estão arrendando pedaços de suas terras por 25 a 35 anos, prorrogáveis por igual período. Em alguns lugares, como na região do Seridó, no Rio Grande do Norte, o rendimento será ainda maior.

Muitos proprietários já planejam a reforma da casa, a compra de geladeira nova e até de imóveis na cidade para garantir o futuro dos filhos. Vender algo que se pode até sentir tocar a face, mas que não se planta ou colhe, é uma nova realidade.

Lauro Assunção, aos 62 anos, sonha com a "festinha" que finalmente fará para os amigos e família. Sim, vai ter festa em Bodó. Os planos estão traçados. O casarão antigo, avariado pelos anos, vai receber tinta nova. A carcaça do jipe abrigada na falsa garagem vai dar lugar à paixão pela sanfona e aos convivas, dezenas deles, quiçá mais de cem com tamanha família. A garagem será mais ao longe e um carro zero km completará a nova aquarela. Uma das catorze cabeças de gado vai ser engordada e sacrificada. Tudo isso virá com a renda do vento, que sopra tão forte na Serra da Santana, onde fica Bodó, que faz crescer tortos os cajueiros.

O contrato já foi assinado com a Iberdrola, mas ainda é referente ao período de estudos da regularidade dos ventos. Em breve, Lauro espera assinar o acordo pelas torres que ficarão em seus 64 hectares. É bastante terra por aquelas paragens, mas isso não tornou seu Laurinho, como é conhecido, rico. Ele espera mesmo é ganhar dinheiro com as eólicas. Seu pai, com 13 filhos, tinha quase seis mil hectares. Mas era só terra o que tinha. A riqueza não chegou junto e boa parte dos terrenos acabou vendida para grandes proprietários, por preços irrisórios se comparados com os de hoje. Esses novos proprietários terão agora dezenas de torres em suas terras e uma renda milionária com as eólicas da Iberdrola.

Mas isso pouco importa. Lauro faz as contas e acredita que poderá ganhar até R$ 6 mil por mês com o arrendamento de suas terras e isso está de bom tamanho. A nova renda será oito vezes maior do que ganhou no ano passado de aposentadoria. Hoje, ele já recebe R$ 750 por mês da Iberdrola, em uma fase preliminar do contrato, e pela primeira vez, pelo que se lembra, ele e dona Francisca Lúcia, sua esposa, irão às cidades vizinhas comprar roupas e presentes para a festa do Natal. O dinheiro que ganham com a mandioca é muito pouco, apesar dos 80 mil quilos que produz por safra de dois anos.

Não muito longe dali, na vizinha Cerro Corá, o cachorro Tufique parece perceber os bons ventos. Nunca precisou se preocupar em ir à caça dos preás para alimentar seus donos, como o famoso personagem Baleia das Vidas Secas. Mas assim como a cachorra de Fabiano criada na ficção por Graciliano Ramos, Tufique foi o fiel companheiro do dono nos seguidos anos de safra difíceis em que seu Bento Pinto de Albuquerque mal sabia se tinha tido lucro ou prejuízo.

Recentemente, Bento fez as contas sobre os gastos que teve para plantar em um hectare de sua terra e percebeu que gasta muito e lucra pouco, mesmo quando a safra está boa. Mas, na semana passada, recebeu "alguns mil reais", uma quantia que não revela. O dinheiro chegou porque seu terreno foi escolhido pela empresa de projetos Rialma, de Goiás, para que estudos de vento sejam feitos na região. Dona Francisca já dá como certa a compra de fogão e geladeira novos. Bento, aos 55 anos, todos vividos na roça, ainda está incrédulo quanto ao futuro do projeto e se um contrato de longo prazo será mesmo fechado: "Num tenho leitura, mas não sô abestalhado. Temo que vê como vai sê isso".

Muitos dos sertanejos que estão vendendo vento não sabem ler ou escrever e fecham os contratos com as empresas de energia confiando na leitura de outras pessoas. O fio de bigode ainda vale no sertão. Algumas prefeituras no Rio Grande do Norte dão auxílio a famílias e colocam advogados à disposição da população para analisar os contratos e buscar melhorar as condições. Mas na região seca do sul da Bahia que abriga municípios como Caetité, Guanambi e Igaporã, a confiança na palavra tem sido mais comum. É nessa parte do sul do Estado onde vão ficar parques eólicos da Renova e Iberdrola. Só na primeira etapa de construção dos parques da Renova serão colocadas 180 torres. Em todo o projeto da empresa serão instalados 1.100 MW e as primeiras torres já estão sendo colocadas.

Os cataventos gigantes que estão mudando a paisagem do Nordeste ainda fazem os donos de terras, principalmente os pequenos, se sentirem confusos. Muitos temem que, com as torres, possam ser impedidos de cultivar a terra. Mas os empreendedores garantem que, passada a fase da construção, o espaço abaixo da torre pode ser usado normalmente. Os contratos, entretanto, fazem algumas restrições sobre a profundidade do plantio e a altura das plantações.

O que tem assustado os filhos de seu Guilhermino da Rocha, que têm terras espalhadas pelo município de Guanambi, é não poder desistir do negócio. O pai assinou o contrato com a Renova sem consultar a família, que ficou aperreada com os valores da multa se desistirem do contrato. Ninguém fala dessa cláusula do contrato. A muito custo, depois de se perder nos caminhos da comunidade de Curral das Vacas em Guanambi, o Valor encontrou alguém disposto a mostrar o documento. Está lá: R$ 5 milhões é o valor da multa, acrescido dos investimentos em equipamentos e correção. "Não tem como desistir", resume um dos filhos de seu Guilhermino. É confuso também para os sertanejos da Bahia, a forma de correção. Será pela inflação, mas todos acreditam que na medida em que o salário mínimo subir, a renda vai crescer na mesma proporção.

Esse é o tipo de assunto que não causa preocupação em outros proprietários de terra que são autoridades nas cidades. O prefeito de Caetité, José Barreira, vai ter sete torres em suas terras e embolsar R$ 38.500 por ano e não tem nenhum questionamento a fazer. Pelo contrário, gaba-se do fato de que a arrecadação do Imposto sobre Serviços (ISS) da cidade vai triplicar. Outra autoridade, o ex-deputado estadual, Márcio de Oliveira, deu ainda mais sorte. Quinze torres vão ficar em seu terreno, em Igaporã. Mas a sorte mesmo se deve à divisão da herança da família. Ele aceitou ficar com o pior terreno, que abrigava parte da serra local e portanto improdutiva, mas que é propícia para gerar energia.

Outros sertanejos que vão ter torres em regiões serranas de seus terrenos, não têm botado fé em que os contratos durem os 30 anos prometidos. Clarindo Pereira da Silva é um desses céticos. Ele é um dos maiores donos de terra de Caetité, junto com seus sete filhos. Vive uma vida simples, toda ela feita da lida da roça. Mas, aos 80 anos, já viu de tudo e questiona: "E se muda o governo? Já vi tanta firma grande quebrar?" Mas no curto prazo, Clarindo vê a vida dos filhos melhorar depois que assinou o contrato com a Renova, que tem entre seus acionistas a Cemig, por meio da Light. O filho João Willi diz que a venda da mandioca ou do leite trazia muita incerteza, já que os compradores acabavam inadimplentes. "Agora, temos um cheque todo mês, que sabemos que vai estar lá".

Na experiência de uma vida inteira na roça, Clarindo vaticina que os ventos estão soprando mais fortemente nos últimos cinco anos. Coisa que deixa Osvaldino Fernando de Souza esperançoso. Ele está na labuta desde os sete anos de idade na cidade de Igaporã, esperançoso de que seus filhos, hoje com dez, nove e sete anos, tenham uma vida mais promissora. Aos 67 anos, Osvaldino foi pai tarde. Perdeu a primeira esposa para o câncer depois de 30 anos de casado, sem nenhum filho.

O contrato de duas torres eólicas, que vão ficar no seu terreno, lhe rende R$ 900 por mês e veio em uma "hora abençoada", pois vai garantir o futuro de seus filhos pequenos e a esposa 35 anos mais nova que ele. "Os filho vão se criá. Já dá pra pagá o pão e tô alegre por isso", diz Osvaldino ao ver que sua terra, adquirida quando tinha apenas 14 anos de idade, agora vai criar seus filhos sem a dureza da vida que teve. "Oitenta conto. E a senhora num imagina a trabalhera que deu pá tê esse dinheiro. Ralando mandioca e tocando o jegue pá moê a ração e dá pru gado, que morria de fome (pela seca)."

O jegue não tem mais função. Foi substituído pela energia elétrica, que só há dez anos chegou à casa de seu Osvaldino por meio do programa Luz Para Todos. "Num dá prá ficá uma hora sem luz que a gente já acha ruim e já fica sem ração pru gado". A reclamação é porque ficou oito horas do dia anterior, sem energia, por uma falha do sistema da Coelba, distribuidora da Bahia. Não tem televisão na sala de seu Osvaldino. A pequena casa de dois quartos, numa das sextas-feiras de novembro em que recebeu o Valor, estava mesmo era iluminada pelas flores vermelhas de um flamboyant no quintal. Oito dias antes, a chuva tinha chegado à cidade e feito florir toda a mata.

Centenas de quilômetros dali, quatro Estados acima no mapa, em Bodó, um flamboyant de igual envergadura também iluminava a casa de seu Laurinho e dona Francisca. "É o profeta do sertão", contou dona Francisca. Se as flores chegam é sinal de que a seca está distante e as chuvas vão abençoar a terra. As águas têm demorado a chegar no sertão este ano, mas os ventos fortes continuam soprando. As profecias do flamboyant, Laurinho não consegue mais ver com nitidez. Está há 30 anos perdendo a visão em função de uma doença congênita que já cegou três de seus irmãos. Talvez ele não possa mais ver chegar a sua casa os convidados para a festinha, quando ela finalmente acontecer. Mas isso não abala esse homem do sertão, que só espera poder tocar a sanfona e dar um aperto de mão nos amigos que chegarem.


Fonte: Valor Econômico
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