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Gás natural

O novo mapa do petróleo

06/02/2006 | 00h00

No sertão das Minas Gerais, a iminente chegada das companhias petrolíferas é vista como salvação por quem vive sem infra-estrutura à beira do Velho Chico. Noventa por cento da população rural da região não desfruta de energia elétrica – e pisa sobre a solução. Enquanto os royalties pela exploração do combustível não chegam, a riqueza evapora, servindo apenas aos fogareiros, improvisados até em garrafas de refrigerante. “Compramos bujão, mas pouco. Os colegas que vêm aqui pescar não precisam de fogão na época seca”, conta Salvandir, sorridente, ao lembrar da economia que faz com o dinheiro do gás de botijão.
É assim pelo menos desde 1940, quando o pai dele, recém-chegado da Bahia, fincou os primeiros alicerces de madeira na vila da pacata Santa Fé de Minas. O pescador convive com as manações de gás desde criança, sem alimentar expectativas de ver o município deslanchar graças à dádiva da natureza. À beira do rio, o rastro de óleo, que compõe a paisagem há décadas, também não cria ansiedade. “Aquilo ali deve ser petróleo, a Petrobras andou cá vendo isso”, conta, conformado com o que tem e sem noção do que pode mudar na vida da região com a chegada das empresas.

Enquanto os moradores vivem no ritmo próprio dos sertões, a Petrobras, a multinacional inglesa BG, a brasileira Geobras e o grupo argentino Oil & MS não perdem tempo: demonstrando apetite inédito, disputaram dezenas de concessões na região, durante o último leilão de áreas de exploração de petróleo e gás da Agência Nacional do Petróleo (ANP). O conhecimento do fênomeno natural e a semelhança com a formação geológica da Rússia – o maior produtor de gás do mundo – fizeram da Bacia do São Francisco a mais atraente de toda a história das rodadas de licitações. Das 43 concessões oferecidas, 39 foram arrematadas. Isso porque só a parte mineira foi a leilão. O Velho Chico ainda corta os estados de Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.

Um estudo com sensores de tecnologia militar instalados na aeronave de uma das empresas que arrematou áreas, a Geobras, aponta para a existência de um trilhão de metros cúbicos de gás natural debaixo da Bacia do São Francisco, combustível suficiente para abastecer o Brasil por 60 anos, considerando o consumo atual. A projeção é preliminar, sujeita a revisões a partir de perfurações de poços e testes de viabilidade comercial. Mas foi suficiente para convencer bancos estrangeiros a financiar a pequena empresa no projeto de exploração de nove áreas da região, com R$ 114 milhões.

Além da corrida para atender ao aquecimento do consumo de gás no país, a proximidade com os grandes mercados também empolga os investidores.

“Temos Belo Horizonte e, se sobrar, podemos levar o gás a São Paulo”, comemora o presidente da BG, Luiz Carlos Costamilan. Parceiro da BG em seis áreas de exploração na bacia, o diretor de Exploração e Produção da Petrobras, Guilherme Estrella, prefere esperar os testes de viabilidade comercial antes de comemorar: “O que temos de concreto, por enquanto, é uma curiosidade geológica”.

Os efeitos dessa curiosidade geológica chegam aos animais que daquela água bebem. Na Fazenda do Vale das Aroeiras, no município de Buritizeiro, trabalhadores estranharam o gado que bebia água num dos cinco poços da propriedade. “As vacas ficam empanzinadas quando bebem a água. Não levantam de tão estufadas de gases”, conta, às gargalhadas, Jullierme Alves, funcionário da Prefeitura de Buritizeiro. Três mil cabeças de gado dividem o pasto da fazenda. Foi uma explosão na Fazenda das Aroeiras que despertou de vez as autoridades locais, em 1988. A partir daí, a Petrobras furou um poço no local e confirmou a existência de gás natural subterrâneo. Desde então, as visitas de estudiosos e empresas não pararam. Lá, é possível assistir a cenas dignas de filmes repletos de efeitos especiais, como o fogo sobre as águas.

Larissa Ferreira, 7 anos, adora acompanhar o pai, Juvercino (foto), ao “poço encantado” que exala bolhas. A facilidade de cozinhar não é a mesma encontrada à beira do Rio Paracatu. No afluente do Velho Chico, o gás é tanto que vaza continuamente. No poço de Juvercino, as bolhas aparecem, desaparecem, retornam, se espalham... e a panela demora a esquentar.

Nas cidades de Buritizeiro, Pirapora, Brasilândia de Minas, Ibiaí, entre outras no Norte do estado, o gás às vezes traz decepção. “Furamos cinco poços e nenhum deu água”, conta Juvercino, mais preocupado com a alimentação do rebanho do que com as reservas de combustível sobre as quais caminha diariamente.

“Eles têm muito segredo; tiraram lama preta e saíram de perto da gente”, queixa-se, por sua vez, o pescador Antônio José de Oliveira, diante do silêncio da Petrobras sobre os estudos geológicos realizados na região. A curiosidade não é de hoje. “Sabem das coisas e não contam. Ô gente desconfiada demais, essa Petrobras!”.

A Bacia do São Francisco tem o mesmo tipo de formação geológica da Rússia, o maior produtor de gás do mundo. “Antes da Rússia encontrar gás, imaginava-se que não havia reservas sob esse tipo de bacia, mas os russos quebraram esse tabu”, explica o geólogo Wilson Guerra, da Universidade Federal de Ouro Preto. A semelhança leva especialistas a apostar que a região pode realmente abrigar reservas comparáveis às da Bacia de Santos, o maior achado (comprovado) até então no Brasil – 400 bilhões de metros cúbicos estimados.



Fonte: Jornal do Brasil
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