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Artigo Exclusivo

O mercado internacional de petróleo: dos fundamentos de mercado à geopolítica, por Fernanda Delgado

18/06/2018 | 18h01

Após um período em que os fundamentos de mercado regeram os preços, ou seja, o balanceamento de oferta e demanda era fruto, sobretudo, da dinâmica do petróleo como uma commodity, os aspectos geopolíticos da oferta estão retomando sua relevância na determinação dos preços; i.e., a OPEP está retomando seu poder discricionário sobre o mercado de petróleo. Nessa visão, tal retorno à geopolítica dura (Szklo e Machado, 2008) seria explicado por condicionantes geopolíticos, exacerbados, pari passu, ao declínio dos estoques americanos de petróleo. O Oriente Médio é o epicentro desse risco, mas a Venezuela também contribui sobremaneira, uma vez que sua indústria petrolífera precisa de investimentos e o colapso econômico e a situação política volátil do país levaram a um rápido declínio da produção. Esses condicionantes permitiriam à OPEP intervir mais fortemente no balanceamento de mercado, dotando-a, novamente, de um significativo poder de determinação dos preços de petróleo.

No Oriente Médio, o Irã viu-se novamente embargado pelos EUA, o que removeu 1 milhão de barris de petróleo diários da oferta internacional. A decisão de regular as atividades nucleares do Irã mudou o foco da análise do mercado de óleo de fundamentos econômicos de oferta e demanda para a geopolítica. Em um primeiro momento, há uma incerteza compreensível sobre seu potencial impacto nas exportações de óleo do Irã, que atualmente giram em torno de 2,4 milhões de barris por dia (IEA, 2018). Quando sanções foram impostas em 2002, as exportações do Irã caíram em 1,2 milhão de barris por dia. Atualmente, outros produtores como a Venezuela ou o México não conseguem aumentar produção a curto prazo, mas parte dos 1,5 milhão de barris cortados por outros produtores dentro do Acordo de Viena podem estar disponíveis para suprir os mercados.

Uma declaração da Arábia Saudita logo após o anúncio americano reconheceu a necessidade de se trabalhar junto a produtores e consumidores para mitigar possíveis quedas de oferta. Isso é especialmente bem-vindo, pois a possibilidade de menores exportações iranianas não é o único risco de oferta no mercado hoje. A Arábia Saudita tem buscado reformas econômicas, religiosas e sociais, levando o reino a, assertivamente, reduzir a influência iraniana, com apoio dos EUA. Além disso, os cortes de produção propostos pelos sauditas visam incrementar os preços no mercado internacional, com foco na abertura de capitais da Saudi Aramco. Ainda pelo lado da oferta, a estimativa do EIA para o crescimento da produção não OPEP é de 2MMb/d em 2018 e de 1,4MMb/d para 2019, incluindo nestas projeções um possível modesto aumento da produção russa, visto como uma contribuição para compensar a perda de produção do Irã e da Venezuela. No entanto, mesmo que as ofertas de Irã/Venezuela sejam contrabalançadas, esse ajuste fino no mercado no próximo ano pode levar a preços mais altos, no caso de novas perturbações.

Na Venezuela, o declínio da produção de óleo está acelerando e, até o final de 2018, poderá ter caído em centenas de milhares de barris por dia. Os dados da IEA (2018) mostram que a produção da Venezuela está 550 mil barris por dia menor do que seu objetivo dentro do Acordo de Viena, e esse “excesso” é mais que o compromisso total da Arábia Saudita. A possível deficiência de oferta dupla representada por Irã e Venezuela pode apresentar um desafio enorme para produtores evitarem fortes aumentos no preço e preencherem o vácuo.

A produção bruta da OPEP diminuiu em 130 mil barris por dia em abril, para 31,65 milhões de barris por dia, devido a mais declínios na Venezuela e menor desempenho na África, além da artificial escassez criada pelos cortes de produção. Mesmo que a expectativa da reunião da OPEP em 22 de junho seja de suavização da restrição de oferta, os riscos de declínios adicionais na produção da Venezuela, principalmente, indicam elevação da produção e preços do barril mantendo-se acima de 70 dólares.

Segundo a IEA (2018) o crescimento global da demanda por petróleo para 2018 sofreu ajuste leve, de 1,5 milhão de barris por dia para 1,4 milhão de barris por dia. Embora dados recentes confirmem crescimento forte no primeiro trimestre de 2018 e no início do segundo trimestre, espera-se uma retração na segunda metade de 2018, atribuível a preços de óleo mais altos. Espera-se que a demanda mundial de petróleo fique na média de 99,2 milhões de barris por dia em 2018.

Já a oferta global de petróleo manteve-se estável, com cerca de 98 milhões de barris por dia. Desempenho robusto de não membros da OPEP compensou a menor produção da OPEP. Crescimento forte fora da OPEP, liderado pelos EUA, aumentou a oferta global em 1,78 milhão de barris por dia em relação a um ano atrás. Produção não OPEP crescerá em 1,87 milhão de barris por dia em 2018, uma taxa levemente maior do que a relatada no mês passado.

Com base nas evidências geopolíticas e entendendo que o IPO da estatal saudita só deverá ocorrer ao final de 2018, os indícios levam a concluir que o novo patamar de preços deve se manter. No curto prazo, se espera uma queda ainda maior dos estoques mundiais, corroborando o ambiente atual de preços. Entretanto, a expectativa para 2019 é de crescimento de produção e desaceleração da demanda global, mesmo que os riscos geopolíticos se mantenham para 2019, assim como os cortes de produção da OPEP.

Para o Brasil, mesmo com as alterações de periodicidade de ajuste de preço dos derivados, e artificiais reduções de preço do diesel, haverá a manutenção do vínculo externo-doméstico do preço dos derivados aos preços do óleo no mercado internacional. Adicionados à desvalorização do real, e na ausência de reformas estruturais, as manobras para absorção das oscilações internacionais de preços de petróleo se restringem à manipulação da CIDE, até que se observe a entrada de mais agentes refinadores criando concorrência.

Sobre a autora: Fernanda Delgado é da FGV Energia

 

 



Fonte: Fernanda Delgado
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