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Opinião

Investidores questionam plano da Petrobras

15/06/2012 | 09h40
A divulgação do plano de negócios com investimentos de US$ 236,5 bilhões até 2016 sem a contrapartida de um aumento de preços dos combustíveis derrubou as ações da Petrobras. As ações PN fecharam com queda de 3,86% e as ON tiveram 3,87, segunda e terceira maiores quedas do Ibovespa. O novo plano traz informações contraditórias.
 
 
Ao mesmo tempo em que anuncia investimentos US$ 11,8 bilhões a mais e que correspondem a quase todo o valor de mercado da OGX (US$ 15,2 bilhões) - a estatal informa que o valor efetivo é de US$ 208,7 bilhões. Esse é o número relativo a projeto já contratados e em fases diversas de execução que vão trazer retorno em breve.
 
 
Os US$ 208,7 bilhões balizam todos os números do plano, inclusive a necessidade de captações, que varia entre US$ 16 bilhões e US$ 18 bilhões por ano até 2016. A geração operacional de caixa, segundo a companhia, é a principal fonte de financiamentos dos investimentos. Mas também houve aumento para US$ 14,8 bilhões do valor a ser arrecadado com desinvestimentos e reestruturação de ativos. Apesar de ser US$ 1,2 bilhão maior que o do plano anterior, o valor é visto com descrença porque nada foi vendido até agora.
 
 
Analistas do mercado financeiro viram ambiguidade na mensagem enviada pela estatal. O J.P.Morgan destacou que o investimento é maior do que a capacidade de execução da companhia e por isso, os analistas acham que apesar de negativo, dificilmente ele será executado.

 
A estatal informou que dos US$ 236,5 bilhões previstos no plano, US$ 27,8 bilhões se referem a projetos em fases diferentes de análise, sem confirmação ainda da sua viabilidade técnica-econômica.

 
"Por esse critério, poderia-se olhar como uma redução dos investimentos, mas falta uma comparação com o plano anterior para se ter uma ideia melhor desse conceito", disse Emerson Leite, do Credit Suisse, ao Valor.
 
 
A direção da Petrobras vai detalhar o plano apenas no dia 25. Já existem apostas, e quase certezas, de que as refinarias do Maranhão e do Ceará estão fora do horizonte de investimentos, o que não se gostaria de enfatizar em ano eleitoral. Há quem espere também um anúncio de aumento do preço do diesel e da gasolina em breve.

 
Marcus Sequeira, do Deutsche Bank, resumiu o dilema de alguns analistas em um relatório publicado ontem à tarde. "Embora os investimentos continuem muito robustos, a perspectiva de aumento da produção somente em 2014 levanta a questão: por que comprar [ações da] Petrobras agora?", pergunta o analísta do Deutsche.

 
Sequeira faz menção à meta da Petrobras de produzir 2,5 milhões de barris de petróleo e LGN por dia no Brasil em 2016, volume que representa uma redução de 600 mil barris/dia em relação ao plano anterior, que previa quase 3,1 milhões de barris/dia em 2015. Não que a meta mais realista tenha desagradado o mercado, que vinha se referindo às anteriores como peças de ficção.

 
A produção nos próximos dois anos, considerada "medíocre" pelo analista do Deutsche, explicaria a queda das ações também de algumas empresas parceiras da Petrobras no pré-sal e com ações em bolsas europeias. As da BG tiveram a maior queda, de 2,7%; enquanto as da Repsol caíram 0,5% em Madri; as da Galp, 1,6% em Lisboa; e da Statoil, 0,15% em Oslo.

 
Como o Credit Suisse já não esperava grandes incrementos na produção da Petrobras até 2013, Emerson Leite vê com preocupação o fato de o plano trazer um aumento de investimentos em um momento de depreciação da moeda e em que a performance operacional da companhia está piorando.

 
"A Petrobras precisa de um aumento de preço porque senão a conta não fecha. Minha primeira impressão é que a direção [da estatal] perdeu a chance de dar um choque de credibilidade, de enviar uma mensagem de que tem o comando da empresa", observou o analista do Credit Suisse em entrevista ao Valor. "Agora vamos esperar para ver, mas não basta o plano de negócios. É preciso mais preço. E isso não veio. Só prevaleceu 'o vamos investir mais´", completa.

 
Pelos cálculos de Leite, a defasagem do preço dos combustíveis no Brasil em relação ao mercado internacional estava em 20%. A queda no preço do petróleo - hoje o brent está cotado em US$ 97,17 o barril - poderia ter ajudado a Petrobras se o real não tivesse sofrido uma depreciação de 15% no período. Isso reduziu o problema muito pouco: a defasagem que existia ficou pouco menor, diminuindo de 20% para 15%.
 
 
A Petrobras conta com algumas cartas na manga para colocar o novo plano em pé. Um dos maiores problemas da companhia, e que seus executivos negam em público, é a despesa com aquisição de combustíveis no exterior a preços maiores do que os praticados quando são vendidos no Brasil. Além de usar a máxima capacidade instalada de suas refinarias, a estatal está apostando em uma recuperação da produção de etanol no Brasil.

 
Mais etanol no mercado permitiria um aumento do percentual de álcool misturado na gasolina A (que era de 25% e caiu para 20%), o que teria um efeito imediato sobre a necessidade de importações.

 
Ironicamente, a queda da cotação do petróleo brent poderia também ajudar a trazer os preços praticados no Brasil para um ponto de equilíbrio sob o ponto de vista da paridade de importação, ficando mais perto do preço que a Petrobras recebe quando vende esses produtos. Apesar das declarações públicas de que a companhia não precisa de um reajuste porque, na média, o preço dos derivados está equilibrado, é apenas para consumo do público externo.

 
Nas reuniões em Brasília, a estatal tem insistido por um aumento de preço e ainda não foi descartada a possibilidade de que ele ocorra de forma gradativa. As importações só vão diminuir quando a Refinaria do Nordeste (PE) e o primeiro "trem" do Comperj (RJ) ficarem prontos, o que agora é esperado para 2014.
 
 


Fonte: Valor Econômico
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