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Comércio exterior

Indústria japonesa rejeita etanol brasileiro

30/05/2005 | 00h00

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva insistiu na visita a Tóquio e o primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, foi mais uma vez simpático à idéia, mas o fato é que dificilmente o Brasil exportará etanol para o mercado japonês. O obstáculo, a esta altura intransponível, está na poderosa indústria petrolífera do Japão.
As companhias do setor alegam que, para criar uma infra-estrutura de armazenagem, transporte e distribuição de etanol - existem 50 mil postos de gasolina no Japão -, elas precisariam investir US$ 3,5 bilhões. O governo japonês, por sua vez, se vê impedido de financiar esse investimento, porque ele não traria benefícios à agricultura local.
"Se financiar as empresas aqui, o governo vai beneficiar os exportadores de álcool, todos, e não só os do Brasil", disse Naoki Nishio, presidente da New Energy and Industrial Technology Development Organization (Nedo), estatal que detém desde 1937 o monopólio da importação e produção de álcool no Japão.
Como autoridade do governo japonês e especialista no assunto, Nishio participa das comissões criadas para avaliar a possibilidade de seu país vir a adicionar etanol à gasolina. Ele está convencido, pelo que viu até agora, que a tendência será a adoção do ETBE (éter etílico terc-butílico, um aditivo que usa etanol).
"Esta deverá ser a solução mais provável. Se prevalecer o ETBE, será bom para vocês [brasileiros]. Precisamos de álcool de qualquer maneira. O ETBE será a maneira mais fácil de resolver o problema aqui. Mais fácil para todo mundo", sustentou Nishio, acrescentando que, com o ETBE, a mistura de aditivo à gasolina será de 6% ou 7%, sendo que metade disso será de etanol.
"Se as petrolíferas japonesas puderem fazer o ETBE realizando pequenas modificações em suas plantas de produção, então, farão o produto aqui e vão misturá-lo à gasolina. Com isso, poderão fornecer a nova mistura aos postos de gasolina através dos canais de distribuição existentes. Nesse caso, não arcarão com elevados custos de investimento", explicou o executivo da Nedo, ressalvando que a decisão oficial do governo japonês ainda não foi tomada.
O governo brasileiro não pensa assim. "O ETBE tem uso limitado. O etanol nós podemos começar com 3% [de adição] e chegar a 10%, que é a meta japonesa. Dez por cento de mistura aqui seria aproximadamente seis bilhões de litros por ano", disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan.
O ministro se refere à lei que o governo japonês aprovou há dois anos. Por ela, as empresas estão autorizadas, e não obrigadas, a adicionar, num primeiro momento, até 3% de etanol a cada litro de gasolina. Num segundo momento, a participação do etanol poderia crescer até 10%.
O objetivo do governo, com essa lei, é induzir as companhias petrolíferas a contribuir com a redução da emissão de gases poluentes, como parte do esforço japonês para se adaptar ao Protocolo de Kyoto, que entrará em vigor em 2008. Se misturar 3% de etanol à gasolina, o Japão terá que importar 1,8 bilhão de litros de etanol combustível por ano, quase quatro vezes mais do que comprou de álcool no exterior em 2004 (480 milhões de litros, dos quais 66% do Brasil).
Nishio Aoki calcula que se trata de um mercado de US$ 774 milhões. Estudos feitos por petrolíferas japonesas e também pelo governo mostram, segundo ele, que o Brasil tem condições de fornecer o volume necessário de etanol que o Japão vier a demandar. O problema, disse ele, permanece sendo o custo que as empresas teriam para se adaptar ao novo produto.
No seminário empresarial Brasil-Japão realizado na sexta-feira, em Tóquio, representantes da Nippon Oil expressaram preferência pelo ETBE. Segundo uma autoridade do governo brasileiro envolvida na discussão, o que está em jogo é agregação de valor. Se fizer a mistura à base de ETBE, a indústria japonesa estará agregando valor ao seu produto, em vez de apenas importar etanol do Brasil e de outros países.
"Quem vai pagar a conta, claro, será o consumidor japonês", ironizou um técnico. "A preferência brasileira é de mistura direta da gasolina com o etanol", reiterou Furlan. No governo japonês, o Ministério da Fazenda, interessado em aumentar o valor agregado dos produtos, estaria defendendo o uso do ETBE, enquanto o do Meio-Ambiente teria optado pelo etanol.
A dificuldade de convencer os japoneses tem sido grande. Durante a etapa de organização da visita do presidente Lula ao Japão, entre quinta-feira e sábado, um emissário de Tóquio esteve em Brasília antes da viagem negociando os temas que o governo japonês gostaria de tratar no encontro. Na lista, o assunto etanol apareceu em último lugar, sob a alegação de que se trata de tema sensível. Por insistência do governo brasileiro, passou a ser um dos principais temas da agenda bilateral.
Na noite de quinta-feira, quando o presidente Lula e sua comitiva de ministros se reuniram com o primeiro-ministro Koizumi, os brasileiros ainda não acreditavam que a discussão fosse avançar. Koizumi mostrou-se aberto à proposta, mas não propôs nada concreto. Coube ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, insistir que fosse dada uma sinalização para que as negociações fossem adiante.
Nesse momento da conversa, Koizumi concordou e, aí, o chanceler Celso Amorim aproveitou a deixa para sugerir que fosse criado um grupo de trabalho, com ministros dos dois governos, com o objetivo de cuidar do assunto de agora em diante. Do lado brasileiro, integrarão o grupo os ministros Furlan, Dilma Roussef (Minas e Energia), Roberto Rodrigues (Agricultura) e Eduardo Campos (Ciência e Tecnologia). No lado japonês, o grupo será liderado pelo ministro da Economia, Comércio e Indústria, Shoichi Nakagawa. "Ele [Nakagawa] disse que recebeu ordem do primeiro-ministro Koizumi para levar adiante esse projeto", atestou Furlan.
O presidente da Nedo, que se reuniu na sexta-feira com o ministro Roberto Rodrigues, explicou que, se a opção for mesmo o etanol, o Brasil terá que investir para melhorar a infra-estrutura de seus portos e a logística. Ele mencionou também que o transporte de etanol exigirá tanques especiais ("químicos", para evitar a contaminação do produto) e a construção de navios, uma vez que a capacidade da indústria naval no mundo está esgotada.
Na sexta-feira, já pensando na oportunidade que o etanol poderá trazer, a Petrobras, a Vale do Rio Doce e a japonesa Mitsui assinaram memorando de entendimento para implementar, no Brasil, um sistema logístico voltado para a exportação de álcool carburante ao Japão.



Fonte: Valor Econômico
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