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Internacional

Indícios de petróleo reacendem febre do ouro negro no Uruguai

14/07/2011 | 09h57
A estatal uruguaia Ancap anunciou ter encontrado indícios de reservas de combustível fóssil em terra. O anúncio acende as esperanças do país na busca de petróleo, e ao mesmo tempo, grupos americanos, europeus e russos manifestam interesse em participar da segunda rodada de licitações de blocos na plataforma marítima, que o governo lança em setembro.

As primeiras rochas geradoras de petróleo - depósitos com quantidades adequadas de matéria orgânica - foram descobertas no departamento de Durazno, em poços terrestres a 150 metros de profundidade. Em junho, houve uma nova descoberta, na vizinha Tacuarembó, em perfurações de até 400 metros.

Isso não significa que o petróleo tenha a pressão adequada para ser retirado, nem que sua produção seja comercialmente viável. Pouco se sabe ainda sobre o volume possível dos recursos naturais. Mesmo assim, percebe-se uma expectativa que lembra a euforia brasileira com o anúncio do pré-sal, embora autoridades uruguaias ainda prefiram manter uma postura mais cautelosa.

Até hoje, quem tentou fazer história teve que lidar com fracassos e frustrações. Há seis décadas, o sacerdote católico Antonio Améndola de Tebaldi patrocinou uma campanha para promover a busca por petróleo no interior do Uruguai, mas tudo o que conseguiu foi a alcunha de "padre louco".

Nos anos 70, a empresa francesa de pesquisas geofísicas CGG apontou a existência de potencial petrolífero em alto mar e a Chevron furou dois poços, mas não achou nada de interessante e deixou o país.

Agora, a estatal Ancap investe US$ 25 milhões anuais em atividades de exploração em terra, por meio da contratação direta de empresas estrangeiras. "Houve muita expectativa no passado, mas foi um erro ter abandonado a exploração diante dos primeiros fracassos. A única coisa que garante o sucesso nessa área é o trabalho permanente ao longo de muitos anos", comentou ao 'Valor' o presidente da Ancap, Raúl Sendic. Novas perfurações no departamento de Salto atingem 2 mil metros abaixo da superfície, e essa profundidade ainda poderá triplicar, afirmou Sendic, ao detalhar os esforços mais recentes de exploração.

Além dos poços terrestres, outra aposta do país está em sua plataforma marítima. Em 2007, foram feitos estudos sísmicos em 2D numa área de aproximadamente 10 mil quilômetros quadrados, que serviram de base para a primeira rodada de licitação de blocos em alto mar, dois anos mais tarde, quando o barril de petróleo estava a US$ 40 no mercado internacional e o planeta se arrepiava com a quebra do banco Lehman Brothers.

Apesar do momento desfavorável, dois blocos foram licitados, a uma distância de até 150 quilômetros da costa. Ambos estão nas mãos de um consórcio formado por Petrobras (40%), pela argentino-espanhola YPF Repsol (40%) e pela portuguesa Galp (20%). Um dos blocos é operado pela Petrobras, que faz os trabalhos em águas rasas, entre 100 e 350 metros de profundidade. Outro é operado pela YPF, em águas profundas, a até 2 mil metros. Nos dois casos, o consórcio está em fase de interpretação e reprocessamento dos dados sísmicos, e tem prazo até 2013 para decidir se vai continuar trabalhando e furar poços.

Para esses trabalhos preliminares, a Petrobras tem orçamento previsto de US$ 5 milhões. Ela considera o Uruguai como uma exploração de alto risco e ainda não decidiu se fará ou não perfurações. Como o país está longe dos atuais centros de produção, um poço em alto mar pode custar em torno de US$ 100 milhões, devido aos gastos com o deslocamento de equipamentos como sondas e rebocadores.

Outros 6 mil quilômetros quadrados foram pesquisados mais recentemente para dar suporte ao lançamento, em setembro, da 2ª Rodada Uruguai. "Esses trabalhos nos fazem ter muito otimismo sobre a possibilidade da presença de hidrocarbonetos na nossa plataforma marítima", disse Sendic. Eles serão apresentados ao mercado em Montevidéu. Depois, a Ancap fará "road shows" em Houston, em Londres e no Rio. A rodada incluirá um total de 13 blocos na bacia de Punta del Este e deverá ser concluída em abril de 2012.

Empresas como Shell, BP, Total, a russa Gazprom e a americana Noble Energy - responsável pela descoberta recente de uma megajazida de gás em Israel - já pediram informações à Ancap sobre a rodada, em um sinal de que pretendem investir no Uruguai. A Petrobras também avalia sua participação.

Em um país que importa 20 milhões de barris por ano, o equivalente a menos de dez dias da produção de petróleo no Brasil, a autossuficiência energética pode parecer uma questão menor. Mas as importações de petróleo e derivados - provenientes principalmente da Venezuela e de fornecedores africanos - somam quase US$ 2 bilhões por ano, e não se deve descartar a hipótese de exportar, no futuro.

Talvez seja um sonho alto demais. O óleo encontrado nos poços terrestres é de xisto betuminoso, cuja viabilidade comercial desperta muitas dúvidas na indústria. Um alto executivo de uma petrolífera estrangeira ouvido pelo 'Valor', na condição de não ter seu nome revelado, ventila a possibilidade de que as rochas geradoras encontradas no Uruguai sejam uma extensão dos depósitos de xisto já processado no Paraná. Não são reservas desprezíveis, segundo a fonte, mas incapazes de mudar o panorama do setor - mesmo em um país de dimensões pequenas, como o Uruguai. Além disso, nada indica ainda que a experiência em suas áreas offshore será diferente da obtida na bacia de Pelotas, onde a Petrobras não conseguiu resultados positivos, após a perfuração de oito poços, embora preserve seu interesse.

Silenciosamente, o governo uruguaio torce para confirmar suas expectativas até 2014, ano das próximas eleições presidenciais. O próprio Sendic, filho homônimo do histórico líder do movimento guerrilheiro tupamaro, é citado com frequência como provável candidato a vice-presidente em uma chapa da coalizão esquerdista Frente Ampla, liderada pelo ex-presidente Tabaré Vásquez - o atual, José Mujica, está impedido de tentar a reeleição. "O governo sonha com a foto de Sendic com as mãos manchadas de petróleo", diz o cientista político Adolfo Garcé, professor da Universidade da República, em Montevidéu.


Fonte: Valor Econômico
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