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Golfo do México / Reflexos 4

Ficou mais fácil e divertido odiar a BP e o mundo corporativo

28/06/2010 | 11h56

 Por Lucy Kellaway

Na semana passada estava conversando com uma vizinha quando, sem mais nem menos ela disse: "Realmente odeio a BP".

Essa mulher é britânica, de meia idade, classe média e, até onde eu sei, não tem pontos de vista bem definidos sobre qualquer coisa, a não ser talvez sobre a competência do professor de física do filho. Mas ela, assim como muitas pessoas perfeitamente normais, parece ter sido coberta pela mancha de ódio corporativo que se espalha cada vez mais, e sem controle, do que a mancha de óleo no Golfo do México. Não apenas os americanos, os esquerdistas ou os ambientalistas que estão odiando a BP. Todo mundo parece que está.

Compare isso com a maneira como respondemos à maior catástrofe corporativa de todos os tempos, o vazamento de gás em Bhopal, na Índia, que matou milhares de pessoas. Ficamos horrorizados. Queríamos que lições fossem aprendidas e indenizações fossem pagas. Mas não me lembro de termos odiado a Union Carbide com a mesma intensidade vingativa com que estamos odiando a BP. Se você digitar "Eu Odeio a Union Carbide" no Google, conseguirá cinco respostas. Faça o mesmo com a BP e terá 37.400.

Você pode dizer que isso acontece porque o acidente em Bhopal ocorreu há 25 anos, do outro lado do mundo e a Union Carbide não vende produtos que são despejados no tanque de combustível de seu carro. Mas eu acho que há algo mais aí: odiar empresas e as pessoas que as lideram se tornou um novo passatempo global.

Quando era adolescente, odiar companhias era uma coisa muito mais leve. Isso não acontecia porque nos sentíamos mais cordiais em relação às empresas na época, pelo contrário. No Reino Unido, as classes mais instruídas esnobavam todo o comércio. Em particular, desprezávamos a propaganda porque achávamos que se tratava de lavagem cerebral. Também odiávamos as companhias de tabaco porque seus acionistas ganhavam fortunas vendendo coisas que matavam seus clientes. Não nos importávamos com os banqueiros porque eles eram parasitas. E não gostávamos das companhias de petróleo por causa da maneira sorrateira com que elas elevavam os preços da gasolina quando os preços do óleo bruto subiam e então pareciam aumentar de novo quando os preços do óleo bruto recuavam.

Além disso, eram poucas as companhias que odiávamos individualmente. Odiávamos o Barclays e a Shell porque eles faziam negócios com o regime do apartheid da África do Sul. Mais tarde, passamos a odiar a Nike e a Gap por empregarem funcionários em regime de semiescravidão. Mas não odiávamos essas empresas com muita veemência ou consistência; era um esforço fragmentado e débil, quando comparado com a abominação universal e determinada inspirada pela BP.

De onde vem todo esse ódio? As empresas não parecem ser hoje mais odiosas ou as administrações mais incompetentes do que há 20, 50 ou 100 anos. Na verdade, as empresas são mais decentes e os administradores menos amadores e incorrigíveis do que antes. Posso pensar, contudo, em quatro outras coisas que mudaram nos últimos anos, que explicam por que mulheres boas como a minha vizinha estão movendo uma cruzada contra o mundo corporativo.

A primeira é a ressaca emocional do aperto de crédito. Nunca antes odiamos tanto, e de uma maneira tão descontrolada, os banqueiros, e nunca sentimos algo parecido por homens de terno. Dick Fuld e Fred Goodwin inspiraram ódio em uma escala normalmente atingida apenas por Idi Amin Dada ou Osama bin Laden. Tanto ódio nos incutiu o hábito de odiar.

A segunda causa é a remuneração dos executivos. Normalmente já nos ressentimos com quanto esses figurões recebem, de modo que quando as pessoas que ganham tanto se mostram incompetentes, insensíveis e sem tato, nosso ressentimento se transforma em ódio.

A terceira razão é mais sutil, e deriva da grande personificação das empresas. Ao longo da última década, as companhias se esforçaram muito para criar uma imagem para elas mesmas apoiada em um monte de valores. Quanto mais bem-sucedidas elas são em criar essa personalidade, mais há para amar - ou odiar. As companhias mais bem-sucedidas dos Estados Unidos - Microsoft e Walmart -, por exemplo, são amadas e odiadas em igual medida.

E finalmente, há a internet, com seu poder de transformar emoções pessoais em uma coisa epidêmica da noite para o dia. Odiar companhias hoje é divertido, fácil e variado. Há tantas maneiras diferentes de fazer isso! Você pode odiar a BP no Twitter, Facebook e, da maneira mais gratificante de todas, no YouTube. Se você ainda não assistiu o vídeo BP Spills Coffee, no qual um grupo de executivos entra em pânico quando um copinho de café é derramado em uma reunião, faça isso agora. Ele vai fazer você rir - e odiar a BP um pouco mais do que já odeia.

Lucy Kellaway é colunista do "Financial Times". Sua coluna é publicada às segundas-feiras na editoria de Carreira
 



Fonte: Valor Econômico / Eu & Carreira
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