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Opinião

Ex-ministro defende uso de energias limpas

04/12/2008 | 03h12

Nelson Hubner Moreira é desses engenheiros elétricos cujos olhos brilham ao visitar uma usina hidrelétrica no sertão da Bahia. Visita seu interior, vistoria salas de comando e procura saber como se dá, na prática, o controle de cada operação. Hoje, o ex-ministro interino da Minas e Energia - e um dos mais cotados para substituir Jerson Kelman na presidência da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ao término do seu mandato - tem uma postura discreta, que condiz com uma carreira técnica, iniciada na Companhia Energética de Brasília, onde foi diretor de distribuição.


 

Para o ex-ministro, o Brasil é motivo de inveja aos demais países. Cita com orgulho a sua matriz energética, que possui 45% de fontes renováveis, frente a nações desenvolvidas, onde apenas 8% do que consomem é renovável. Para ele, o grande desafio do País é correr atrás do prejuízo deixado pela herança liberal. De acordo com o ex-ministro, a débil da presença do estado no setor energético praticada em governos anteriores deixou suas marcas, principalmente na ausência do planejamento. Para Hubner, o País carece de quantidade de estudos de viabilidade para novas usinas, o que atrasa os prazos para a entrega de novas fontes de geração. “O Brasil precisa de, no mínimo, 3 mil megawatts (MW) a 3,5 mil MW médios por ano. Com a crise, poderá ser menos, algo como 2 mil MW”, calcula. “Estamos falando de uma Jirau por ano”, alerta.

 

Hubner, que também esteve na Aneel, foi assessor no departamento de política energética do Ministério de Minas e Energia. Na época, o profissional não passou desapercebido pela então ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, que o colocou como chefe de seu gabinete. Desta posição, o engenheiro foi obrigado a desenvolver habilidades políticas, no trato diário com os agentes do setor. O aprendizado não poderia ter sido mais intenso, já que se deu no auge das discussões que resultaram na revisão do modelo regulatório da energia elétrica.

 

A confiança da ministra Dilma o levou, ainda, a se tornar Secretário Executivo do ministério e, com a saída de Silas Rondeau, a assumir interinamente o cargo de ministro. Ainda que interino, Hubner ocupou o posto por 18 meses, um mandato mais extenso que o de vários ministros. Esteve à frente o ministério até janeiro, com a posse de Edison Lobão. Hoje, sem ocupar cargo algum, aproveitando uma aposentadoria precoce, Hubner falou à Gazeta Mercantil.

 

Gazeta Mercantil - O senhor foi do governo muito tempo e tem uma visão privilegiada do setor de energia no Brasil. Na sua opinião, quais são os pontos fortes deste segmento?
O mundo inveja hoje o Brasil. Temos uma matriz extremamente renovável. Enquanto países desenvolvidos falam em uma matriz com 8% de energia renovável, o Brasil tem uma matriz em que 45% são renováveis e 50% são combustíveis líquidos. Desse total, cerca de 50% é oriundo do óleo diesel. Isso faz sentido, pois o transporte no Brasil se dá praticamente em cima de veículos, inclusive o transporte de carga. Mas é importante dizer que mais da metade dos combustíveis líquidos no País já é de etanol. Uma parte de etanol é misturado à gasolina - ou seja, de toda a gasolina consumida no Brasil um quarto já é renovável. É bom lembrar que tivemos um salto impressionante no consumo do álcool hidratado puro com a introdução dos veículos flex fuel. De 2006 para 2007, só com a utilização desses veículos saímos de uma participação de 8% na matriz para 17%.

 

Gazeta Mercantil - E no caso da matriz de energia elétrica?
Quando se fala da matriz de energia elétrica, 75% da nossa capacidade instalada é baseada em usinas hídricas e 25% em térmicas. Mas quando falamos da geração propriamente dita, 90% dela é de origem hídrica. Isto porque o despacho de energia no Brasil obedece a uma ordem de mérito. Em primeiro, despacha-se as usinas mais baratas, que são as hídricas. Assim, ainda que 25% da capacidade instalada seja formada por térmicas, seu peso não é o mesmo no despacho de energia. O ideal é que o sistema pudesse ser totalmente baseado em energia elétrica renovável. Mas isso não é viável devido às características do nosso sistema elétrico. No passado, nossas usinas hidrelétricas tinham grandes reservatórios de água e, mesmo que houvesse pouquíssima chuva, havia água reservada o ano inteiro para passar pelas turbinas. Hoje, no entanto, as usinas que estão sendo construídas, a maior parte delas na região Norte, não contam mais com reservatórios de água plurianuais. São projetos em regiões planas como no rio Madeira em que o aumento de um metro na barreira sobre o rio inunda uma área imensa de floresta. Não dá para se pensar nesta alternativa. Ou seja, nas novas usinas hídricas, quando não chove muito, gera-se pouca energia. E como não pode faltar energia para o País, aumentou-se a capacidade de geração térmica para compensar o fato de não contarmos mais com reservatórios.

 

Gazeta Mercantil - Mas não houve um exagero na contratação recente de usinas térmicas?
Para mim é um escândalo existir a possibilidade de o Brasil fazer um leilão em que se negocie mais de 2 mil megawatts (MW) para óleo combustível. Mas isso é uma herança de uma fase liberal, quando o mundo todo defendia o Estado mínimo. Com isso, reduziu-se a presença do Estado e o mercado era responsável por tudo. Mas você não pode prescindir do Estado em hipótese nenhuma no setor elétrico. Pois cabe a ele o planejamento do setor. E, por anos, nessa fase liberal, nós paramos de fazer estudos de mercado, estudos de potenciais de energia, editais de viabilidade de novas usinas hídricas. E isso hoje, resulta no fato de não termos mais usinas hídricas para serem construídas de imediato.

 

Gazeta Mercantil - Mas as regras mudaram desde a década de 90 para cá…
Eu acho que o Brasil tem hoje um modelo super correto, que vem sendo copiado por muitos países do mundo. Em resumo, o País contrata a energia com cinco anos de antecedência e depois, contrata de novo, com três anos de antecedência. Se a distribuidora quiser ajustar sua previsão de consumo, se estiver sobrando energia no seu sistema, há mecanismos que permitem que ela possa trocar esse volume. E, ao final, com um ano de antecedência, ela tem mais uma chance de um último ajustezinho comprando energia velha. Mas se a distribuidora não comprou e planejou mal a sua demanda futura, ela vai comprar energia no curto prazo, pelo preço de mercado e não vai poder repassar esse custo para a tarifa. A concessionária vai pagar por esse custo e terá prejuízo. Há apenas uma folga de 3% que a distribuidora pode errar na sua previsão. Passou disso, o prejuízo é dela.

 

Gazeta Mercantil - E qual é o grande desafio do setor hoje?
Para mim, sem dúvida, é recuperar a lacuna da falta de presença do Estado. Por exemplo, não era o caso de leiloar as duas usinas do rio Madeira (Santo Antônio e Jirau) seguidamente. O ideal é que pudessem ter sido leiloadas com uns três anos de diferença uma da outra. São duas usinas muito próximas. Quando se faz uma usina dessas enfrenta-se toda a questão ambiental, sem contar com o deslocamento de grandes populações. Há fases da obra de uma usina em que trabalham de 20 mil a 30 mil pessoas.

 

Gazeta Mercantil - Sendo assim, qual seria a estratégia ideal para o Complexo Madeira?
Ter um tempo maior para essa população trabalhar. A fase da construção civil, de desviar rio… E, na hora em que a parte da construção de barragem física de Santo Antônio estivesse terminando, começássemos a outra usina, usando a mesma mão de obra da usina anterior. Mas isso não aconteceu por que não se dispunha de estudos prontos para fazer outras usinas em outros locais nesse intervalo. Não tinha nada para licitar. Não havia nada para colocar no lugar da segunda usina. Para não faltar energia, o País foi obrigado a ter as duas usinas hidrelétrica no Madeira ao mesmo tempo e contratar um monte de usina térmica.

 

Gazeta Mercantil - O senhor fez parte do grupo que discutiu desde o início a mudança do marco regulatório do setor de energia elétrica. Qual foi a grande mudança que as novas regras permitiram?
Não dá para não ter o Estado num setor estratégico como o da energia. É fundamental o planejamento, pois os ciclos são longos. Esses grandes rios da região Norte são o grande potencial brasileiro hoje. Só de estudo de inventário, calcula-se que há mais de 20 mil megawatts (de potência a ser aproveitada). Ou um quinto da capacidade instalada que o Brasil tem hoje. Trata-se de um estoque muito grande de energia. Mas que exige estudos ambientais, que levam mais de ano para acontecer. E há, ainda, o licenciamento dessas usinas. Uma regra que colocamos no novo modelo é que só é possível leiloar a usina a partir do momento que ela tenha licença prévia.

 

Gazeta Mercantil - Mas e se o País precisa de 2 mil megawatts-médios no ano para garantir o atendimento à demanda…
É preciso ver quais as usinas em estudo que estão sobre a mesa. Escolhe-se as mais viáveis e elas vão a leilão. Mas o País hoje não tem escolha. Faltam os estudos. E eles demoram para ficar prontos.

 

Gazeta Mercantil - Qual é a necessidade que o Brasil tem de nova energia por ano?
Mantendo o ritmo de crescimento do País, temos uma necessidade de 3 mil megawatts-médios a 3,5 mil megawatts-médios por ano.

 

Gazeta Mercantil - Com a crise, já se fala em um crescimento menor de 2,5% a 3% do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ao ano…
Mas ainda estamos falando de 2 mil megawatts ou um pouco mais que isso por ano. É quase uma usina de Jirau por ano. Existem outras fontes de energia além da hídrica.

 

Gazeta Mercantil - Mas é preciso pesar o aspecto de custo. O que existe de mais barato?
Se o Brasil tivesse gás natural, depois do pré-sal vamos até discutir essa alternativa, a primeira opção seria o gás natural. É uma fonte limpa, pois tem uma emissão de muito baixa e seu custo é menor. Mas, na prática, nós não temos o gás natural de que precisamos ainda.

 

Gazeta Mercantil - E a opção da energia nuclear?
Ela amedronta muito, pois foi muito associada à industria das armas nucleares. No entanto, a sociedade convive com raio X, com raio isótopo de combate ao câncer, tecnologias que geram muito mais lixo radioativo que uma usina nuclear. Lembra? Nós já tivemos um acidente nuclear no Brasil, em Goiânia com o césio 137. A indústria farmacêutica e a de alimentos geram hoje muito mais resíduos que as usinas nucleares. Muitos ambientalistas, inclusive, já defendem a energia nuclear como alternativa limpa. É muito melhor que outras opções a carvão ou a óleo combustível. A China, por exemplo, tem uma reserva de carvão imensa, que gera um quilo de por kilowatt-hora (kWh).

 

Gazeta Mercantil - E quanto a energia nuclear, emite de zero. O seu problema limita-se ao resíduo.

 

Gazeta Mercantil - Mas a crítica que se fazia à energia nuclear nos anos 80 era que, enquanto as demais tecnologias de usinas hídricas ou térmicas tendiam a baratear a energia final, no caso da energia nuclear, devido aos novos requisitos de segurança, essa seria uma energia que tenderia a ficar cada vez mais cara…
É bom lembrar que a nossa energia hídrica também está se encarecendo cada vez mais. A gente não consegue mais o mesmo preço. No rio Madeira queriam cobrar R$ 140 o megawatt-hora. Conseguimos baixar, pela concorrência, para R$ 78 o megawatt-hora. Mas no passado, nós comprávamos a energia elétrica a US$ 20 o megawatt-hora. Há novos requisitos ambientais e, com certeza, isso tem um impacto no custo. E a fonte está cada vez mais longe do centro consumidor. No caso da energia nuclear, o custo também aumentou do ponto de vista da engenharia de segurança. Mas, de outro lado, o seu custo diminuiu. Os vários controles que existiam com cabos, foram substituídos por fibra óptica e sensores, ligados em computador. Há quem diga que entrega uma usina nuclear a US$ 40 megawatt-hora. Eu não acredito nisso. Acredito que o seu custo no Brasil esteja em torno de R$ 140 megawatt-hora, algo em torno de US$ 60 o megawatt-hora.

 

Gazeta Mercantil - Mas há alguma solução para os resíduos das usinas nucleares?
Não existe ainda uma solução definitiva para esta questão. O mundo trabalha com depósitos transitórios. O resíduo é guardado neles por mil anos, até resfriarem. Há uma proposta de se fazer uma cápsula de chumbo, colocar o elemento nuclear ali dentro, vedá-lo e colocá-lo em depósitos dentro de uma caverna abandonada. Há muitas (cavernas) no Nordeste, locais dos quais já se retirou sal, gás, petróleo. O mundo está procurando uma tecnologia para o reprocessamento desse material. Ou seja, se ele não serve mais para gerar energia, mas poderia ser usado para gerar calor. A França, por exemplo, tem praticamente 80% da energia elétrica à base nuclear. E coloca todo o seu resíduo numa área equivalente a três campos de futebol. Com isso, não usa qualquer usina térmica a carvão e deixa de jogar na atmosfera. Todo o resíduo da França está numa área do tamanho de dois a três campos de futebol.

 

Gazeta Mercantil - O que é pior, três campos de futebol com resíduos guardados com segurança ou emitir na atmosfera?
É preciso discutir essa questão.

 

Gazeta Mercantil - E o etanol? Quais são as perspectivas no Brasil?
Quando você compara o nosso etanol com o etanol americano, a base de milho, fica evidente que o deles é inviável. Nos Estados Unidos gasta-se uma unidade de energia para gerar 1,3 unidades de energia. No caso do etanol brasileiro, feito a partir de cana de açúcar, gasta-se uma unidade de energia para gerar de 8 a 8,5 unidades de energia. Enquanto o ganho deles não passa de 30% o nosso é de 8 a 9 vezes. Há críticos que afirmam que a cana de açúcar estaria invadindo a floresta amazônica. Na verdade, a área que usamos com a cana é de 1% da área agricultável do país. E temos uma grande área de pastagens abandonadas. Há uma área imensa que ainda pode ser usada só sobre essas pastagens.

 

Gazeta Mercantil - O que ainda falta mexer na matriz energética do Brasil?
Ainda tem o potencial de crescimento do biodiesel. A lei exigiu até agora 2% de biodiesel misturado ao diesel convencional. O etanol resolve tranqüilamente o problema do combustível para veículos leves. Mas não tínhamos uma solução para o diesel, que é 50% do combustível líquido. Por isso adotou-se os 2% de biodiesel, o que é muito pouco. Na Alemanha tem veículos que eles fazem funcionar a 100% de biodiesel. Só que a fonte de biodiesel na Europa é a canola. É única fonte. Eles não têm outra. No Brasil, podemos extrair biodiesel de soja, de mamona e todos os tipos de palmas. Mas é bom lembrar que o presidente da República não quer o biodiesel feito a partir da soja, por ser uma produção destinada à alimentação.

 

Gazeta Mercantil - Qual a alternativa para produzir o combustível sem prejudicar a agricultura alimentar?
Focar nas palmas: dendê, macaúba. O problema é que não se consegue fazer muda para o plantio. Agora, em Viçosa, um grupo desenvolveu muda de macaúba. Se der certo, será a revolução total. É só pegar toda essa área onde tem gado, pastagens e simplesmente colocar as árvores no meio da pastagem. Não se desmata uma área nobre, pelo contrário. Quando tem a mescla de macaúba com pastagem, a técnica contribui duas vezes para o equilíbrio das emissões de . Com a geração de biodiesel e captando o do gado. O volume de óleo que você tem na palma é menor do que o que você tem na soja, por exemplo. Só que a quantidade de coquinhos produzida por palma é incrível. A produção de óleo que se obtém por hectar é muito maior do que a de outras alternativas. O País está fazendo os primeiros experimentos e está dando certo. Tem até empresa espanhola que está comprando um milhão e meio de mudas em Juiz de Fora para investir nisso e levar um óleo de altíssima qualidade.



Fonte: Gazeta Mercantil
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