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Golfo do México

Decisões da BP deixaram seu poço mais vulnerável

27/05/2010 | 15h39


Foi uma perfuração difícil desde o começo.

O Poço API No 60-817-44169 gerou muitos problemas para sua dona, a BP PLC, antes mesmo de ele explodir, destruindo a plataforma Deepwater Horizon e matando 11 pessoas.

Investigadores do governo americano ainda não anunciaram suas conclusões sobre o acidente. O último passo na série de causas, disseram ao Wall Street Journal executivos do setor, provavelmente foi uma falha num selo crucial no topo do poço ou um tampão de cimento no fundo.

Mas nada disso explica totalmente o acidente. Uma investigação do WSJ mostra mais: que a BP fez escolhas no curso do projeto que o deixaram mais vulnerável a explosão, o que causou um vazamento de petróleo que engenheiros ainda lutam para tampar.

Uma vez que o gás começou a subir o poço, o design e procedimentos da BP provavelmente facilitaram que ele tomasse conta da tubulação e escapasse, segundo especialistas em controle de poços. Havia pouco para impedir que o gás chegasse à superfície depois que os operários removeram uma salvaguarda importante: o fluido pesado de perfuração.

A BP admitiu que pode ter cometido um "erro fundamental" ao concluir que seria seguro continuar tirando o fluido, segundo memorando a dois congressistas revelados terça à noite.

Algumas dessas decisões foram aprovadas pelo Serviço de Administração de Minérios do Departamento do Interior dos EUA. Mas em pelo menos um caso a decisão divergiu do plano aprovada pela agência.

A BP afirma que não pulou etapas.

"Realizar operações seguras e confiáveis continua sendo uma prioridade, não importa quanto o poço esteja atrasado ou além do orçamento", escreveu num e-mail o porta-voz da BP Andrew Gowers.

Alguns operários concordam que a segurança era importante para a BP e a Transocean. "A segurança era a primeira preocupação deles. Proteger o ambiente era a primeira preocupação deles", disse Darin Rupinski, um empregado da Transocean cuja tarefa era ajudar a manter a plataforma estabilizada.

A BP começou a furar o poço em outubro com uma plataforma diferente. Após três semanas, ela atingiu um bolsão de gás a 1.220 metros de profundidade. Isso não é raro. Mas, duas semanas depois, o furacão Ida passou pelo Golfo e danificou a plataforma, que teve de ser rebocada a um porto para reparos.

A BP recomeçou os trabalhos em janeiro, desta vez com a Deepwater Horizon, da Transocean. A BP pediu uma nova licença de exploração para as autoridades.

Naquele dia, os trabalhadores descobriram que havia gás escapando do poço, segundo relatórios da plataforma a que o WSJ teve acesso. Os engenheiros acabaram determinando que se fechassem com cimento os últimos 600 metros do poço, que então tinha quase 4.000 metros, e continuassem perfurando numa direção diferente.

O problema levou uma semana para ser resolvido, segundo relatórios de perfuração, sem contar os dias perdidos voltando atrás e furando novamente.

Mesmo assim, em meados de abril, tudo parecia que ia dar certo.

Uma das últimas tarefas era cimentar o tubo de aço do leito do oceano até a jazida de petróleo. O cimento preencheria o espaço entre o lado de fora do tubo e a rocha, evitando que gases escapassem pelos lados.

A Halliburton, responsável pelo cimento, aconselhou a BP a instalar vários aparelhos para garantir que o tubo ficasse centralizado no poço antes de bombear o cimento, segundo documentos da Halliburton repassados a investigadores no Congresso americano e aos quais o WSJ teve acesso. Sem isso, o cimento poderia desenvolver fissuras por onde o gás escaparia.

Num relatório à BP em 18 de abril, a Halliburton alertou que se a BP não usasse mais centralizadores, o poço provavelmente enfrentaria um "problema SÉRIO com gás". Mesmo assim, a BP decidiu instalar menos aparelhos do que a Halliburton recomendou - 6 em vez de 21.

A BP afirma que ainda está investigando como foi aplicado o cimento no poço. A Halliburton diz que seguiu as instruções da BP, e que embora algumas "não estivessem de acordo com as melhores práticas do setor", estavam dentro de "padrões aceitáveis do setor".

O cimento era especialmente importante porque a BP instalou um único tubo, feito de seções atarracadas umas às outras, do leito do mar até a jazida.

Petrolíferas costumam usar dois tubos, um dentro do outro, selados juntos, de modo que se o gás tenta escapar, tem de passar não apenas por cimento, mas também pelo selo que conecta os tubos.

Gowers, da BP, disse que o projeto do poço não era incomum. Os engenheiros "avaliam vários fatores" para decidir que desenho usar em cada poço, disse.

Apesar do desenho do poço e da importância do cimento, relatórios das operações diárias da plataforma mostram que a BP não realizou um procedimento crucial, mas demorado, de circular o fluido de perfuração pelo poço todo antes de cimentá-lo, trazendo até a plataforma o líquido no fundo.

Esse procedimento permite que os trabalhadores confiram se o líquido está absorvendo gás de um vazamento. Circular o fluido num poço de 5.600 metros, como esse, demora entre seis e doze horas, dizem pessoas que já realizaram esse procedimento. Mas a circulação no poço durou apenas 30 minutos no dia 19 de abril, afirmam os relatórios.

Essa decisão pode ter deixado um volume significativo de gás no fundo do poço. Quando os trabalhadores começaram a cimentar o poço, esse gás pode ter sido pressionado para fora.

Gowers disse que a quantidade de tempo para circulação do líquido é "um de muitos parâmetros considerados quando se elabora um trabalho de pôr cimento bem-sucedido". Ele disse que a investigação continua.

Três engenheiros de exploração submarina de petróleo consultados pelo WSJ para revisar os relatórios da plataforma apontaram a falta de circulação do líquido como um erro grave. A BP também não testou o último segmento do cimento antes de ele ser bombeado no poço, apesar da importância do cimento no desenho escolhido e o alerta da Halliburton de que o cimento podia não secar corretamente. A BP afirmou ao WSJ que os testes não foram feitos porque eram necessários apenas se houvesse sinais de problema no trabalho de cimentar, e a tarefa parecia ter ido bem.

Em 20 de abril, o trabalho estava quase pronto e os trabalhadores estavam ansiosos para deixar para trás o problemático poço.

Mas apenas duas coisas estavam entre uma mistura explosiva de gás e petróleo e a plataforma. Uma era o líquido de perfuração nos tubos. A outra era a válvula de prevenção de estouros, no leito do oceano. Mas essa peça tinha apresentado vários problemas, entre eles algumas falhas hidráulicas. Às 20h, a BP estava satisfeita com o teste e confiante de que podia posseguir. É isso que pode ter sido um "erro fundamental", disse um diretor da BP ao Congresso terça-feira, segundo um memorando de dois congressistas.

Seguindo instruções da BP, trabalhadores da Transocean passaram a substituir o líquido denso com água do mar, segundo entrevistas da Guarda Costeira com os principais funcionários da BP na plataforma. Isso evita poluição no mar, mas também implica em menos peso para conter o gás.

Pelos planos da BP, aprovados pela MMS em 16 de abril, os trabalhadores removeriam os fluidos antes de seguirem dois procedimentos desenhados para garantir que gás não vai entrar no poço.

O primeiro seria instalar uma mola gigante para prender o selo no topo do poço antes de começar a remover os fluidos. Não há sinais de que isso tenha sido feito. Se havia gás vazando nas laterais do poço, forçando o selo, essa medida teria ajudado a evitar vazamentos.

Segundo, a BP decidiu remover os fluidos antes de pôr um plugue final de cimento dentro do poço.

Em documentos apresentados ao Congresso, a BP conjecturou que o gás poderia ter entrado no tupo através de uma falha no cimento no fundo do poço. A BP estava planejando instalar um segundo plugue de cimento antes de encerrar o trabalho. Mas trabalhadores começaram a remover fluidos antes de instalar o plugue, deixando pouco para evitar que gás dentro do tupo subisse à plataforma. O plano foi aprovado pela MMS, segundo o alvará visto pelo WSJ.

Um porta-voz do Departamento do Interior, ao qual o MMS pertence, disse que estava "olhando tudo, desde o que aconteceu na plataforma e o equipamento estava sendo usado para segurança, teste e procedimentos".

Às 12h45, água do mar e fluidos começaram a subir pelo tubo. Funcionários da Transocean tentaram medidas para controlar o poço, mas nenhuma funcionou. Alguns apertaram o botam para ativar a válvula de prevenção de estouros, segundo testemunhas, mas era tarde demais. O gás vindo do tubo encontrou uma fonte de ignição e explodiu.

(Colaboraram Vanessa O'Connell, Jeffrey Ball, Douglas A. Blackmon, Ana Campou, Miguel Bustillo e Jennifer Levitz)



Fonte: Valor Online / The Wall Street Journal
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