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Colômbia

Biodiesel de palma como alternativa à coca

05/08/2008 | 05h08

Com a experiência de quem já é um dos maiores produtores mundiais de óleo de palma, a Colômbia está começando a ingressar no circuito de produção de biodiesel. A matéria-prima principal é a mesma dos óleos comestíveis: a palma, também chamada de dendê. O país tem 357 mil hectares já cultivados e planeja chegar a 500 mil hectares até 2010. Para 2020, a meta é que 2 milhões de hectares de terras estejam destinadas à palma - com parte disso sendo usado para a fabricação de óleo e outra parte como fonte de energia. 


Como acontece no Brasil em relação ao etanol, produtores e governo colombianos defendem seu combustível alternativo como uma matriz sustentável mais limpa e mais barata de energia em relação aos combustíveis fósseis. Mas na Colômbia há outro e muito peculiar argumento: o de que a cadeia de produção do biodiesel no país, uma vez fortalecida, servirá como fonte de emprego e renda aos camponeses que hoje cultivam a folha de coca - base para produção da cocaína - e àqueles forçados a migrar fugindo de grupos armados ou do narcotráfico e que tentam se estabelecer em outras áreas do país. 


"A motivação do governo ao estimular a produção de biocombustíveis não é apenas energética nem apenas ambiental. Isso tudo é importante, mas o que é decisivamente importante para nós é que os biocombustíveis nos ajudem a criar uma solução para o pós-conflito", disse ao Valor, em seu escritório em Bogotá, Arturo Infante Villarreal, coordenador nacional para o desenvolvimento de biocombustíveis do Departamento Nacional de Planejamento. 


Segundo ele, hoje existem algo em torno de 20 mil colombianos trabalhando com a cultura da coca no país - aproximadamente um trabalhador por hectare. No caso da palma, cada dez hectares geram um emprego direto e dois indiretos, diz. "Se chegarmos aos 2 milhões de hectares, um total de 600 mil empregos serão criados." 


Em algumas regiões do país, acrescenta o diretor de desenvolvimento tecnológico e proteção sanitária do Ministério da Agricultura colombiano, José Leonias Tobón, as plantações de palma já são alternativa aos cultivos ilícitos de coca. É o que já ocorre, diz ele, nos Departamentos de Meta, Caquetá e Nariño. 


Especialista em biodiesel no ministério, Tobón, que já atuou em áreas de plantios ilícitos elaborando projetos alternativos para os agricultores, faz as contas: diz que, para o produtor, dois hectares de palma rendem anualmente algo em torno de 7 milhões de pesos colombianos (uns US$ 4 mil). E que um produtor de coca fatura 2 milhões de pesos a cada dois meses - mas, considerando os descontos aplicados pelos traficantes com os custos de insumos, transporte e outros, o camponês chega a receber algo em torno de 500 mil pesos por bimestre. 


 


Muitos trabalhadores rurais colombianos vinculados ao plantio de coca atuam como temporários nas plantações de palma. Depois da safra, voltam para os plantios ilícitos. O desafio do governo é tentar fazer com que a indústria do biodiesel ofereça oportunidades para que os camponeses tenham trabalho o ano todo no campo. 


O plano de expansão da palma também interessa às Forças Armadas. Isso porque, num país tão militarizado (com um contingente aproximado de 400 mil homens), o novo segmento de energia poderá significar alternativas econômicas para milhares de soldados que deixam o serviço militar todo ano e que muitas vezes acabam sem uma perspectiva de emprego clara. Somente no Exército, são 100 mil soldados que dão baixa todos os anos. A taxa de desemprego na Colômbia era em maio de 10,7%. No quarto trimestre de 2007, o país era o líder em desemprego numa comparação com mais sete países latino-americanos. 


 


Mas a Colômbia ainda tem pouca experiência com o biodiesel. Os primeiros litros começaram a ser produzidos em dezembro. O país tem duas usinas privadas em atividade e uma terceira, pequena, estatal. A produção total é de 300 mil litros diários. Mas, segundo Tobón, até o ano que vem um total de nove usinas estarão em funcionamento, elevando a produção diária para 2,4 milhões de litros. 


 


A produção tem mercado certo. O governo estabeleceu, ainda no ano passado, que 5% do combustível comercializado na costa atlântica deve ter uma mistura de 5% de biocombustível. Este ano, a regra já vale para todo o país. Em 2010, a mistura será de 10% e, em 2012, de 20%. A Colômbia também tem investido na produção de etanol, cuja mistura também segue, desde 2005, uma progressão escalonada até os 20% em 2012. 


Embora seja produtora de petróleo, a Colômbia passou a se preocupar com seu abastecimento no início da década, quando estimativas apontaram que o equilíbrio entre oferta e demanda por petróleo no mercado interno duraria até no máximo 2009. A partir de então, a oferta passaria a ser insuficiente. Essa margem foi revista e agora a expectativa é de que a data limite seja 2014. Em parte porque durante anos as atividades de prospecção foram interrompidas por causa da falta de segurança no interior do país, a Colômbia está há anos sem descobrir um campo de petróleo significativo. A aposta nos biocombustíveis pareceu então uma alternativa a uma possível demanda que não atendida pelo petróleo do país. 


O governo colombiano passou a subsidiar 20% dos custos de uma nova plantação, além de conferir outros incentivos, como isenção de imposto de renda por certos períodos e a possibilidade de usinas de biocombustível obter, sob algumas condições, o status de zona franca uniempresarial. 


 


A produção de biocombustível colombiana, diz Arturo Infante Villarreal, servirá para abastecer o mercado interno, mas os olhos do país estão voltados também para as exportações. Os EUA, principal parceiro comercial colombiano e com quem Bogotá espera ver ratificado um acordo de livre comércio, seriam um mercado potencial. A palma, assim como a cana, possuem uma densidade energética superior ao etanol de milho, comum nos EUA. Enquanto, segundo dados de Infante, a palma produz 148 milhões de BTU por hectare ao ano e a cana 135 milhões, o etanol de milho produz 63,3 milhões e o biodiesel de soja, 23,14 milhões. "Imagine quantos hectares de terra os EUA precisam para produção de energia com uma planta com essa densidade energética tão baixa", diz Villarreal. 


 


A Colômbia já é o maior produtor de óleo de palma - base para o biodiesel - das Américas e o quinto maior do mundo (atrás de Malásia, Indonésia, Nigéria e Tailândia). 


 


No país, a palma cresce nos mesmos terrenos onde cresce a coca. E isso cria dores de cabeça para as autoridades. "Os narcotraficantes descobriram que se plantassem coca entre linhas de palma conseguiam evitar as fumigações [feitas pelo governo com substâncias químicas para destruir os plantios ilícitos]", diz Villarreal. Como é mais alta, a palma encobre e esconde a coca. "Esse é um assunto para o qual estamos muito atentos." 


Outra dor de cabeça é o fato de grupos armados tentarem às vezes se aventurar pelo mercado da palma. O objetivo é lavar dinheiro. Há pouco tempo, houve um caso de plantações de palma em Urabá, região de fronteira com o Panamá onde não apenas guerrilheiros do Exército de Libertação Nacional (ELN) estavam presentes, mas principalmente os paramilitares. Entraram num plantio de 10 mil hectares e expulsaram os trabalhadores para assumir a produção e lavar dinheiro. A ação foi descoberta, e o grupo se tornou alvo das forças armadas colombianas. 


Essas incursões - combatidas pelo Exército, segundo o governo - de grupos armados no setor ajudam a dar asas a críticas feitas no exterior em relação à indústria do biocombustível no país andino. 


"O lobby da soja nos EUA fez uma campanha contra a palma plantada na Ásia alegando primeiro que podia ser cancerígena e, depois - e com certa razão -, que a expansão das plantações estava destruindo as florestas. Aqui, também nos acusam de estarmos destruindo a mata, como dizem do Brasil, nos criticam pelas fumigações e fazem associações com a droga", critica Villarreal, dizendo que as críticas são injustificadas. 


A Colômbia, juntamente com o Brasil e outros países produtores de biocombustíveis, está discutindo a elaboração de um selo de qualidade para garantir ao mercado que o produto foi fabricado de acordo com critérios sociais e ambientais. "Entramos tarde nesse setor, mas estamos unindo forças com o Brasil nos fóruns internacionais contra os ataques voltados ao biocombustível", afirma Villarreal. 



Fonte: Valor Econômico
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