O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afastou , na quinta-feira, a possibilidade de o Brasil sofrer um novo blecaute, apesar do aumento do consumo de energia verificado nos últimos dias. "O povo brasileiro não tem do que recear", afirmou, durante cerimônia sobre o balanço dos últimos três anos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
O ministro admitiu que algumas térmicas foram acionadas para prover energia nesses dias de maior consumo, mas enfatizou que "apenas algumas poucas" estão sendo utilizadas. De acordo com ele, a utilização desse tipo de energia vem sendo feita porque o consumo acima do normal exige providências especiais por parte do governo. "O nosso sistema é perfeito", resumiu.
Lobão confirmou que atualmente há cerca de 3 mil megawatts (MW) sendo produzidos no sistema elétrico brasileiro em usinas termelétricas. Segundo ele, isso está acontecendo apesar de os reservatórios das hidrelétricas estarem cheios para suprir o pico de consumo que está sendo causado pelo forte calor no Rio de Janeiro e em outros estados. "As usinas térmicas não são enfeites. Elas servem para isso", disse. Segundo o ministro, "não há motivo para apreensão".
Segundo um técnico do governo, essa geração das térmicas é uma medida de cautela para garantir o fornecimento mesmo em um cenário de forte pico de consumo. Questionado se o acionamento das térmicas vai pesar no bolso do consumidor, Lobão respondeu que isso será calculado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
O ministro salientou que a energia proveniente de recursos hídricos é largamente utilizada porque se trata de uma fonte mais limpa e barata, mas que as térmicas sempre servirão como suporte. "Vamos utilizá-las quando for necessário agregar mais energia. Não há nada de anormal nisso", disse.
A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, também falou sobre o assunto. Ela fez questão de enfatizar o que seria a diferença entre um apagão - que ocorreu durante o governo Fernando Henrique Cardoso - e o blecaute, verificado no ano passado. Segundo a ministra, o apagão tende a durar meses, porque não há de onde buscar energia, enquanto o blecaute seria uma interrupção temporária do sistema de transmissão. "Quem mais entende de energia do que cada um de nós são os empresários, e eles não estariam investindo se percebessem que haveria falta de energia", afirmou.
Dilma também fez questão de enfatizar que o sistema de energia brasileira não é apenas hídrico, mas hidrotérmico. "Só usamos a térmica quando há aumento da demanda. As térmicas sempre existirão", disse. De acordo com ela, o uso desse tipo de energia é pequeno no Brasil. A ministra deu como exemplo o caso da Petrobras, que, segundo ela, tem disponibilidade de 8 mil megawatts e usou apenas 3,2 mil megawatts.
A carga de energia no Sistema Interligado Nacional (SIN) bateu novo recorde na quinta-feira, atingido o pico de 70.654 MW às 14h49, segundo informou o Operador Nacional do Sistema. Foi o quarto dia consecutivo de recordes na carga, segundo o ONS. O aumento no consumo pode ser atribuído às altas temperaturas neste verão também à retomada na produção industrial.
De acordo com o ONS, o calor excessivo vem provocando até mudanças na curva diária de consumo, criando dois horários de pico: o momento logo após ao almoço, com alto consumo industrial e de aparelhos de ar condicionado, e o tradicional horário de pico, no início da noite, quando começa o consumo residencial.
No primeiro horário de pico, logo após o almoço é que os recordes têm sido batidos constantemente. O ONS tem afastado qualquer risco de um racionamento por falta de energia. Além dos reservatórios das hidrelétricas estarem em níveis elevados, o ONS vem despachando usinas térmicas para compensar a redução na capacidade do sistema de transmissão de Itaipu, que passa por reparos após o apagão de novembro do ano passado.
GÁS DA BOLÍVIA. O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afirmou, na quinta-feira, que o Brasil não é mais dependente do gás natural boliviano. "Hoje importamos só 20 milhões de metros cúbicos por dia para atender ao contrato, porque não precisamos. Não somos mais dependentes do gás da Bolívia e estamos aumentando nossa produção cada vez mais e chegaremos ao ponto de exportar gás", disse o ministro, durante palestra em seminário promovido pela Eletrobrás em Brasília.
Pouco depois, ao falar com a imprensa na saída, Lobão amenizou o tom e disse que, apesar de não haver mais uma relação de dependência, o Brasil continuará importando gás da Bolívia. "Continuaremos usando por muito tempo", disse ele, ressaltando que o Brasil vai cumprir o contrato que tem com o país vizinho, que só vence em 10 anos. Segundo Lobão, além de cumprir o contrato, o gás da Bolívia ajuda o País a completar a oferta em momentos de crescimento da demanda e, além disso, existe uma relação de amizade entre as duas nações.
O contrato do Brasil com a Bolívia prevê a compra de até 30 milhões de metros cúbicos por dia, mas, atualmente, segundo Lobão, o Brasil está usando apenas 20 milhões. O ministro não quis fazer previsões sobre quando o Brasil passará a ser exportador de gás natural , mas disse que a produção nacional aumentará muito quando, por exemplo, começar a exploração no Campo de Júpiter no pré-sal.
Lobão disse também que, até o final do ano, serão construídos 2,3 mil quilômetros de gasoduto no Brasil. "Em oito anos, dobraremos a capacidade de transporte de gás", disse.